Esquerda evangélica e o universo pentecostal

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O mundo está cada vez mais pautado pelo fenômeno religioso. Dias atrás, por exemplo, uma corte de Justiça da Malásia proibiu que crentes não muçulmanos usem o nome de Alá (em árabe) para significar Deus. Deus, assim, é propriedade dos islamitas, pelo menos na Malásia.

No mundo Ocidental esse sentido de “propriedade” do sagrado não chegou a tanto. Mas tem também seus graus de loucura, especialmente em universos fundamentalistas evangélicos e católicos. E eles não são inexpressivos.

Os fundamentalistas pentecostais podem andar pelos seus 400 milhões de seguidores, ninguém sabe bem os números. O que se sabe é que o Deus que se manifesta por línguas estranhas, curas físicas, profecias e multiplicação sem fim de igrejas e congregações vai conquistando fronteiras e o interesse dos estudiosos. Isso embora o pentecostalismo não seja exatamente uma novidade: remonta ao começo do século 20, na forma em que o conhecemos hoje.

Mais remotamente, na Idade Média, Joaquim de Fiore exercitou e propagou um tipo de pentecostalismo. Mas o tema é a esquerda evangélica, não exatamente o pentecostalismo. No entanto, examinar a possibilidade de teses à “gauche” por carismáticos pentecostais obriga a ir às raízes desse “fogo que vem do céu”.

Acompanhe-nos.

 

Marina seria exemplo de esquerda evangélica?
Marina Silva. Foto: Divulgação

Marina Silva. Foto: Divulgação

Zózimo Trabuco faz doutorado em História pela UFRJ, é professor da Universidade de Feira de Santana, Bahia. E está na berlinda porque elabora tese de doutoramento sobre a existência de uma esquerda evangélica – que diz existir – no Brasil. O tema está up to date, justamente agora quando a evangélica Marina Silva foi barrada, com o seu partido no TSE.

A propósito: Marina pode ser classificada de “esquerda”, segundo os critérios correntes (e simplistas, quase sempre)? Assunto para observações mais adiante. O trabalho acadêmico de Trabuco deverá indicar que alguns evangélicos brasileiros estão bem distantes dos padrões clássicos do pentecostalismo (conservador, por excelência) e de fundamentalismos religiosos como os que identificam lideranças como a do pastor Silas Malafaia (Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo).

O jovem professor, 31 anos, tem expressiva obra acadêmica, boa parte dela centrada no ainda pouco estudado protestantismo brasileiro. Membro de uma igreja Batista de sua cidade natal, Trabuco deverá, em sua tese, supõe-se, apontar caminhos que irão à arqueologia do mundo evangélico político brasileiro.

 

A surpresa “Brasil para Cristo”

Não conheço os passos que Trabuco adota para seu trabalho. Espero que nessa prospecção do mundo evangélico em busca de uma identidade política esquerdista, ou “popular”, faça um longo mergulho num dos episódios menos conhecidos e mais surpreendentes dessa inserção religiosa evangélica no mundo da política.

Esse episódio ocorreu em plenos anos de chumbo, lá pelos idos dos 70, quando, surpreendentemente, a Igreja Evangélica Brasil para Cristo, instituição originada no Brasil, liderada pelo ex-pedreiro pernambucano Manoel de Mello, viveu alguns momentos de associação com outras igrejas cristãs que se opunham a arbitrariedades do regime militar. Foi breve tempo, mas existiu e repercutiu em manifestações até internacionais nas quais a igreja de Mello foi citada como bom exemplo de luta.

Uma pesquisa sólida revelará todos os passos dessa inserção surpreendente de uma corrente extremamente conservadora e fundamentalista em direção de movimentos religiosos vinculados à Teologia da Libertação.

Os quase 20 milhões de votos conseguidos por Marina Silva na última eleição presidencial foram da ambientalista que sensibilizou a população ou vieram basicamente do eleitorado evangélico?

Rubem Alves e a libertação

Hoje um escritor nacionalmente apreciado e bem vendido em todo o País, Rubem Alves foi por 30 anos um sólido pastor presbiteriano, da Igreja Presbiteriana do Brasil, na qual fez sua formação em São Paulo.

Não foram poucas as obras de Rubem Alves que mostram o espírito catequético – e muitas vezes dogmático – que animou o hoje poeta e ficcionista dono de um texto precioso. Mais do que catequético ou defensor de dogmas enfeixados pelos discípulos de Calvino, Rubem produziu livros e teses na área da Teologia da Libertação, a corrente político-religiosa capitaneada pelo católico Gutierrez. Essas posições devem ter sido, no fundo, elementos que ajudaram Rubem Alves a desvincular-se do ministério religioso. Mas que ele foi um ator à esquerda, isso foi.

Não se pode esquecer o viés fortemente conservador do corpo diretivo da Igreja Presbiteriana do Brasil, por muitos anos sob o controle do grupo capitaneado por Lázaro Brandão (fundador do Bradesco).

 

Os primeiros: Aurélio Vianna e Ruy Ramos

A chamada esquerda evangélica, que se manteve conservadora em matéria de moral e fé, como a defesa da vida em todas as instâncias, eu a identifico aqui no Brasil como existente já pelos idos dos 1950, final dos 50, início dos 1960s.

Anotei pelo menos dois nomes muito significativos daqueles dias: o batista, ligado à Convenção Batista Brasileira, de Alagoas, Aurélio Vianna, que teve vários mandatos de deputado federal. Pertencia ao PSB.

Vianna teve expressão nacional, empunhou causas ditas populares e nunca escondeu seu alinhamento com um certo espírito “revolucionário” moderado, tendo por epicentro a América Latina. Isso era novidade absoluta para aqueles dias.

Verdade é que Aurélio Vianna nunca escondeu sua origem religiosa, mas é verdade também que trabalhou e conquistou votos sem pregações dogmáticas que o separassem do grande eleitorado de então, o católico. Ganhou expressão no País todo, assumindo bandeiras nacionalistas bem definidas, como a questão do petróleo.

O fato é que até de sua denominação original Benedita separou-se e hoje está membro de uma igreja “mais aberta”. Diante dessa trajetória de Benedita, será que ela pode ainda ser classificada de “esquerda”?

A escola de oradores

Na mesma época, no Rio Grande do Sul, os quadros do PTB de Getúlio Vargas tornaram nacional o nome de Ruy Ramos, um orador empolgado, empolgante, na verdade um bom resultado da escola do “ministério da palavra”, os grandes oradores que a Igreja Metodista do Brasil e a Igreja Presbiteriana do Brasil acabariam revelando.

A valorização da pregação – bem ao contrário do culto católico, centrado na liturgia – foi a responsável por essa escola de oradores. Aqui no Paraná, eu aponto o venerável (in memoriam) reverendo Osvaldo Emerich, um apóstolo nunca ligado à política, como notável orador dessa mesma linha, depois seguida por um outro pastor, Elias Abrahão.

Abrahão, sim, era um pastor presbiteriano que cedo assumiu compromissos políticos partidários, colocando sua oratória/retórica de qualidade a favor de seu ministério evangélico e, também, da carreira política que, depois, assumiria por inteiro. Foi um fiel aliado de Roberto Requião e vinculou-se ao PMDB.

Mas não se pode dizer que o político-pastor, que foi secretário de Meio Ambiente de Curitiba e teve dois mandatos de deputado federal, tivesse sido de esquerda. Foi um “progressista”, para usar um jargão que pouco diz, mas elimina a possibilidade de um vago “direitista”.

Nos dias atuais, Trabuco e outros estudiosos desse capítulo, o dos evangélicos em linhas políticas esquerdistas, acabam indicando o nome do senador baiano Walter Pinheiro (PT) como uma das mais fortes expressões dessa corrente.

No caso de Pinheiro, o esquerdismo do político poderia ir bem além de posições evangélicas e católicas sólidas: ele estaria entre os que admitem novos caminhos para a questão do aborto, numa perspectiva de igreja. E se mostraria enamorado de teses da TL, segundo avaliadores da sua carreira.

A chamada esquerda evangélica, que se manteve conservadora em matéria de moral e fé, como a defesa da vida em todas as instâncias, eu a identifico aqui no Brasil como existente já pelos idos dos 1950

Kirinus: na pastoral da Terra, contra a indenização de Itaipu
Gernote Kirinus é considerado por amigos como uma grande vocação evangélica tragada pela política partidária. Foto: Divulgação

Gernote Kirinus é considerado por amigos como uma grande vocação evangélica tragada pela política partidária. Foto: Divulgação

Gernote Kirinus, dizem seus amigos, “foi uma grande vocação de pastor evangélico tragada pela política partidária”.

A definição, que me é confirmada por um antigo pastor luterano sinodal, da mesma igreja a que pertence Gernote Kirinus, certamente não abarca a importância que esse ex-ministro luterano teve na vida dos movimentos sociais cristãos na época da ditatura, especialmente nos anos 1970s, quando, no seu final, ele começou a atuar em Cândido Rondon, Oeste do Paraná.

Associando-se à Comissão Pastoral da Terra (CPT), braço da CNBB, com ela atuou em defesa dos pequenos agricultores, de posseiros e ao lado dos que reivindicavam justa indenização de suas propriedades que seriam depois tragadas pelo grande lago de Itaipu. Como a vida dá muitas voltas, esse ministro, mudando-se para Curitiba, acabou eleito deputado estadual pelo PMDB, e anos depois ocupou posições de comando em organismos como a Ceasa-PR.

Também as ligações de Kirinus com a CPT não duraram e por muitas vezes ele se queixou dessa parceira com os católicos. Acusou a CPT de fazer jogo dúbio em questões como as indenizações de Itaipu.

Kirinus é sólido em formação teológica e, nos primeiros anos de militância – entre o púlpito e o palanque –, foi considerado “um bravo guerreiro”, como o classifica um sacerdote católico que o conhece bem. Também foi notória sua ligação com Gutierrez, o genitor da TL.

 

Benedita silva: Alarme falso
Ex-senadora Benedita da Silva é um exemplo de líder que não construiu uma imagem duradoura. Foto: Roosewelt Pinheiro/ABr

Ex-senadora Benedita da Silva é um exemplo de líder que não construiu uma imagem duradoura. Foto: Roosewelt Pinheiro/ABr

O esquerdismo evangélico que o professor Trabuco pesquisa poderá ou não contemplar uma mulher que, outrora, no início do processo de redemocratização – e especialmente na Constituinte de 1988 – foi vista como uma libertária, encantadora dos que ansiavam por tipos novos na política, gente descompromissada de vícios e com propostas ditas sadias. Trata-se de Benedita da Silva, ex-favelada, depois senadora e ministra de Lula.

Benedita, ao que parece, acabou sepultando muito cedo o sopro de renovação que parecia encarar, chegou a governar o Rio, como vice que assumiu o Palácio das Laranjeiras. Foi acusada de proteger grupos evangélicos e entrou em confronto com “irmãos” de outros arraiais políticos, em meio a acusações mútuas. Como ministra, foi responsabilizada por prática de mordomias fora das normais e legais.

Mas não construiu imagem duradora, embora, lembro-me, no começo dos anos 1990, Benedita fosse citada frequentemente pela imprensa internacional como renovadora e esperança da política brasileira.

O fato é que até de sua denominação original Benedita separou-se e hoje está membro de uma igreja “mais aberta”. Diante dessa trajetória de Benedita, será que ela pode ainda ser classificada de “esquerda” na política brasileira? Missão para o professor Trabuco.

Marina, é bom lembrar, foi uma católica conservadora em temas de moral e fé, como ainda hoje é identificada como crente pentecostal da Assembleia de Deus, a que se converteu já senadora

Marina, a esfinge para decifrar

As dificuldades de Marina para conseguir as 490 mil assinaturas para formar seu partido Rede acabaram revelando, pelo menos, duas realidades: a primeira, a que a carismática ex-senadora é ruim em gestão, pois, tendo tempo suficiente, não soube equacionar a questão básica da coleta de assinaturas; a segunda é que ela não conseguiu sensibilizar o mínimo do mínimo dos evangélicos (eles são 30% da população do País), tarefa que parecia fácil, especialmente porque a ambientalista era tida como “dona” de um imenso universo de “voto crente”. Mas, afinal, os quase 20 milhões de votos conseguidos por Marina Silva na última eleição presidencial foram da ambientalista que sensibilizou sobretudo a classe média e a juventude esclarecida, ou vieram basicamente do eleitorado evangélico? Ou teriam sido dados a Marina por eleitores que se identificaram basicamente com suas teses, algumas ditas de esquerda?

 

Classe média esclarecida
Dom Moacyr Grechi: arcebispo emérito de Porto Velho. Foto: Divulgação

Dom Moacyr Grechi: arcebispo emérito de Porto Velho. Foto: Divulgação

O acervo de votos da ex-senadora é resultado, acredito, de uma composição mista de dados: parte é voto evangélico; outra parte, dos ecologistas, outra ainda vem de uma classe média jovem, esclarecida e urbana, desiludida com os modelos políticos tradicionais. Não tenho dúvidas em apontar que o voto evangélico dado a Marina não pertence também a correntes evangélicas esquerdistas, que são notoriamente pouco expressivas ainda no País. A maior parte desse voto esquerdista evangélico localiza-se em igrejas históricas tradicionais, como a Luterana Sinodal e Metodista.

Marina, é bom lembrar, foi uma católica conservadora em temas de moral e fé, como ainda hoje é identificada como crente pentecostal da Assembleia de Deus, a que se converteu já senadora.

Criada à sombra de dom Moacyr Grechi, arcebispo do Acre, a ex-senadora foi, no entanto, sempre capaz de empunhar bandeiras de vanguarda, em defesa dos pobres, das populações amazônicas oprimidas, em batalhas pela defesa do meio ambiente e a vida da floresta. Mas tudo isso, se esclareça, sem fazer dela (que tem formação universitária em História) uma formuladora de teses ou programas calcados em teorias marxistas ou coisas parecidas. O capital eleitoral de Marina, tão grande e inesperado, é “puzzle” a ser decodificado com exatidão, devendo ser avaliado com outros elementos além dos citados.

A única certeza que se tem é que a chama do fogo pentecostal não contamina nem embala os “sonháticos” de Marina. Pois se assim fosse, as assinaturas para formar o Rede seriam mais uma obra fácil dispensada pelas hostes sagradas que, aos milhões, todos os dias, promovem milagres em templos pentecostais Brasil afora.

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