“Jornalismo investigativo não aceita limitações”

toninho

Foto: Maringas Maciel

Antonio Martins Vaz, o Toninho Vaz, é daqueles jornalistas de alto quilate que a vida prática revelou. Não passou por cursos de comunicação. Talvez se tivesse passado, manteria o mesmo perfil, parte essencial de sua personalidade: é o ser humano indagador por excelência, inquieto diante da notícia, o homem capaz de computar e relacionar o universo de informações que a memória prodigiosa vai armazenando.
Nos últimos anos, depois de ter passado pela redação do Fantástico, da Globo, Toninho Vaz foi se especializando em biografias. A mais importante delas – acredito – foi O bandido que sabia latim, uma profunda imersão na vida e obra de Paulo Leminski, com quem Vaz conviveu nos anos áureos do poeta e a quem ajudou nos primeiros passos do escritor que se tornaria um nome nacional.
Agora, Toninho está com um problema grave pela frente: familiares de Leminski não querem que ele faça mais uma edição do livro.
Na sequência, a entrevista com Toninho:

 

O que você acha desse movimento Procure Saber?
o-bandido-que-sabia-latimEu pratico um jornalismo investigativo, portanto, não posso concordar com limitações na liberdade de autor. Não faço e nem cogito sensacionalismo. O paradoxal Procure Saber é um grupo criado por artistas que foram vítimas da truculência e da censura, em outros tempos. Estou fora.

 

Você um dia imaginou que essa gente iria colocar dificuldades para o andamento de um gênero – biografias – essencial para que se entenda algumas partes da alma brasileira?
Não era de se esperar, pois no mundo inteiro as biografias têm grande relevância cultural. Foi graças ao trabalho de dois mestres, Ruy Castro e Fernando Morais, que eu me apaixonei pela grandeza das vidas de Chatô e Nelson Rodrigues, por exemplo. Tudo bem que o Roberto Carlos faça papel de reacionário, já sabemos, mas que tal o Chico Buarque? Fico com o Jards Macalé que declarou a um jornal carioca que estão sendo escritas duas biografias sobre ele, e que ele prefere a não autorizada.

Foi graças ao trabalho de dois mestres, Ruy Castro e Fernando Morais, que eu me apaixonei pela grandeza das vidas de Chatô e Nelson Rodrigues, por exemplo

Na sua opinião, o que está por trás disso tudo?
Acredito que seja dinheiro, em primeiro lugar. Claro que o Roberto Carlos, um notório milionário, pode estar apenas preocupado com a revelação de alguns detalhes anatômicos do seu corpo, mas alguns outros o fazem visando dinheiro. O mundo ficou assim, uma Sociedade Anônima.

 

No seu caso, a proibição estapafúrdia vem dos familiares de Leminski, de quem você foi amigo e grande apoio, anos seguidos. Por que só agora eles se manifestaram?
Acho que eu sei a resposta, mas apenas vou poder dizê-la em juízo. As herdeiras são, em essência, diferentes do Paulo (Leminski), e eu lembro que me aproximei dele. Mas, na verdade, eu tinha muito carinho e cumplicidade com a Estrela, a filha mais nova. Ela se parece mais com ele.

 

O bandido que sabia latim resultou em quantas edições? Quantos leram o livro? Como os familiares até agora absorviam a biografia?
Estava saindo a quarta edição quando a censura chegou, sendo que as três primeiras foram pela Record. Agora o livro está com a Nossa Cultura, de Curitiba. Somando as três edições, foram 14 mil exemplares em onze anos. E você acha que eu fiquei rico, como pensa o Djavan? As herdeiras nunca gostaram totalmente do livro, reclamavam de um certo excesso de sinceridade. Agora, no recente caso, elas usaram a expressão sórdido, que eu me recuso a aceitar. Quero dizer que esta minha inclinação para a crua realidade foi um dos legados de valor que aprendi com o Paulo.
Um dia ele disse, sobre textos: “Tem que pesar a mão. Nada de títulos fracos, sem pegada, tipo Outras palavras, Além do horizonte, o melhor é algo como “Tempestade no Himalaia” (rs).

 

Você tinha outros planos de biografias em andamento? Se tinha, quais?
Bem, estou me envolvendo com uma história carioca como foi o Solar da Fossa, ou seja, não é uma biografia clássica. Estou ainda em fase de considerações, conversando com a família Veloso (não confundir com o Caetano), dona das Casas da Banha e do Jornal dos Sports, o cor-de-rosa. A saga do patriarca é muito interessante e gloriosa.
Por exemplo: em certo ano, houve uma previsão equivocada da venda de bacalhau pelas Casas da Banha durante a Semana Santa, e o produto ficou estocado em excesso, criando problema para a empresa. A solução foi uma jogada de marketing espetacular: fazer o garoto propaganda do grupo, o espetacular Chacrinha, jogar bacalhau para a plateia: “Vocês querem bacalhau?”.

Talvez não tenhamos mais como reverter certas reações baseadas em leis retrógradas, mas se a tendência exposta dias atrás pelo ministro Joaquim Barbosa prevalecer, teremos liberdade de expressão e responsabilidade aferida a cada gesto

Como ficam tais planos, então?
Bem, a mesma editora censurada, a Nossa Cultura, agora está finalizando a segunda edição da minha biografia do Torquato Neto, poeta e letrista da MPB. O filho dele já autorizou por escrito, para alívio de todos. O texto não sofreu nenhuma mudança, ganhou apenas um prefácio do Roberto Muggiati, e o livro vai sair ainda neste ano.

 

Vocês, os biógrafos e as editoras, já pensaram em levar o assunto ao STF, em busca de definição da matéria?
Vai acontecer uma audiência pública com a ministra Carmem Lúcia, em Brasília, em novembro. Ela é a relatora da ação movida pelo Sindicato Nacional de Editores de Livros, que pede o fim da autorização dos biografados.

 

É possível relatar como vocês pretendem resistir ao Procure Saber?
Talvez não tenhamos mais como reverter certas reações baseadas em leis retrógradas, mas se a tendência exposta dias atrás pelo ministro Joaquim Barbosa prevalecer, teremos liberdade de expressão e responsabilidade aferida a cada gesto. Ou seja, que os escritores caluniadores e/ou mentirosos sejam punidos pela nova lei que regula a ética do mercado. Então, seriam analisados os casos individualmente.

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