Língua e literatura só com prazer

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Um menino de ginásio, lá pelos anos 1950, podia ser assombrado de diversas formas. Para mim, a assombração assumia a forma muito concreta de um nordestino baixote e forte, rabugento e exigente, tido como um sábio da língua portuguesa nos limites municipais de Blumenau. Era o professor Salles, que se obstinava em nos desasnar com doses potentes de análise sintática – sem esquecer as “funções do pronome que”, sobre as quais ele havia produzido um alentado volume de noventa e tantas páginas que éramos obrigados a decifrar e ter na ponta da língua. Com o tempo, graças aos céus, esqueci tudo.

Lembro-me dele diante do quadro-negro – na época, os quadros eram realmente negros como era negra minha angústia diante das questões gramaticais. Vejo-o a caminhar de um lado para o outro, munido de giz e voz de baixo profundo. Escreve uma longa frase retirada de Camões, Vieira ou Euclides. Depois, tomado de súbita fúria, ele a secciona em pedaços, separando substantivos, verbos, complementos e os temíveis objetos diretos e indiretos. E segue nos massacrando com sua sabedoria enquanto eu desenho.

Apenas desenho. Lembro que eu me perguntava: por que fico desenhando, por que não presto atenção, por que não tento entender? Eu não entendia, eis tudo. Ou melhor: eu não queria entender. Aquilo me parecia um tormento. Só dedico atenção aos desenhos que faço. Vou traçando caricaturas de meus colegas de classe nas folhas de um pequeno bloco e as distribuo para a carteira ao lado – e elas passam de mão em mão. Agora rabisco o professor Salles numa pose característica, a mão esquerda apoiada na mesa, e o giz, fisgado pelo indicador e o polegar em pinça, explicando como distinguir orações coordenadas e subordinadas. Não estou entendendo nada. O desenho fica ótimo e me sinto feliz. Meus colegas acabam provocando um tumulto na sala por conta da caricatura que fiz. Todos se atiram sobre o desenho, que vai de mão em mão, e riem muito.

— Gomes! – a voz de baixo profundo enregelou a todos.

Na germânica Blumenau daqueles anos, éramos um sobrenome. Como se fôssemos sargentos. Fui pego.

Fico de pé, catapultado pelo dedo indicador do professor Salles, que me fulmina:

— Venha ao quadro!

Fui ao quadro e o desastre foi absoluto. Depois de não encontrar objeto algum, direto ou indireto, e de trocar uma coordenação por uma subordinação, levei um sermão demolidor diante dos colegas. Além de bagunceiro, fui chamado de displicente, irreverente, causador de badernas e, por ignorar a análise sintática, fui estigmatizado como uma ameaça ao futuro da língua portuguesa.

Nessa época eu começara a ler muito. Revistas que meu pai assinava, jornais que meu pai dirigia como jornalista, livros que ganhei de presente de meu irmão, livros da biblioteca de meu pai – além dos contos que eram publicados nas revistas de moda que minha mãe, costureira, colecionava. Esses contos me encantavam de modo especial, pois vinham acompanhados de ilustrações magníficas, que eu analisava em detalhes, como se as estivesse redesenhando. Desde os 11 anos, se ninguém me chateava o juízo, eu me enroscava numa poltrona e lia. E admirava desenhos. Degustava textos, saboreava desenhos. Como era feita aquela perspectiva, a montanha ao fundo, a árvore, a casinha distante? Como era aquele diálogo que fechava o conto e que me surpreendia? Como era traçado o nariz do personagem malvado do conto, carregando óculos redondos? E como era bela a moça do conto, descrita em quatro ou cinco palavras apenas! Passava horas lendo.

Minha mãe não entendia. Como aquele menino que lia tanto, volta e meia aparecia em casa com um termo na caderneta escolar? Termo, explico, era como se chamava uma bronca escrita pelo professor ou pelo diretor do colégio, espinafrando minhas desatenções, bagunças, preguiça, brigas no recreio, notas baixas em português.

Com o tempo, encontrei um jeito de me livrar das notas baixas. Descobri que, nas provas, a redação valia 60 pontos, enquanto que as questões gramaticais valiam 40. Ora, 50 era nota suficiente para passar de ano. Então, caprichava nas redações. Lembrava a moça do conto, das cinco palavras mágicas, do livro que estava lendo, lascava uma redação cheia de truques e, golpe final, alguma surpresa desconcertante na última linha. O fecho. O fecho era tudo.

A nota da redação, somada a uns trocados obtidos nas questões gramaticais, me salvavam. Pensei que esse arranjo fosse agradar ao professor Salles, afinal ele vivia elogiando, como se fossem deuses do Olimpo, os escritores que eram capazes de contar histórias, comover, expor, dissertar, descrever, narrar. Qual o que!

Ele me devolvia a prova com a nota 60 no topo e me olhava feroz, enquanto seus lábios grossos balançavam ameaçadoramente o charuto exclamativo:

— Gomes, já é hora de tomar juízo!

Nunca tomei juízo. Era o meu fecho, acho.

Mudei de colégio, mas não de tormento. É bem verdade que o novo professor de português era mais simpático. Mas fumava os mesmos charutos fedidos e era implacável com gafes gramaticais. Tratava-se de um franciscano pequenino, alegre, de cabecinha redonda e cuja careca era rodeada por uma coroa de cabelos brancos que ele repuxava com ódio a cada crime gramatical que cometíamos. Chamava-se frei Odorico Durieux. Não escrevera livro algum, mas desenvolvera uma história fantasiosa, que envolvia dois boizinhos e uma carroça. Conforme se colocava uma corda de um chifre a outro chifre dos boizinhos, ou do boizinho à carroça, tínhamos uma oração coordenada ou subordinada, ou algo assim, não me peçam para explicar, jamais entendi.

Anos depois frei Odorico, que era sem dúvidas um tipo admirável, se tornou meu amigo, e eu o coloquei como personagem de um romance, Terceiro tempo de jogo. Ele adorou, comprou vários exemplares, distribuiu aos amigos. Quando entregava os exemplares, dizia, mastigando o charuto:

— Veja só, quem escreveu este belo romance foi o…

E então ele declinava um apelido cruel que me aplicara em aula, quando não consegui conjugar algo como o imperfeito do subjuntivo de um verbo qualquer. O apelido eu não revelo, é claro. Quem quiser saber que leia o livro. Frei Odorico recomendaria.

Já mais crescido, nos anos 1960, voltei ao antigo colégio. O professor Salles se aposentara ou fora para Portugal, onde, segundo dizia sempre, se falava um português escorreito. Agora eu dividia meu tempo entre o trabalho, as aulas noturnas e as bebedeiras com amigos pelas madrugadas. Era onde aprendia literatura, pois nas aulas a que fui submetido até então tudo começava em Vieira e acabava em Olavo Bilac.

A grande dúvida que me percorria a pobre cabeça era se todos os escritores já haviam morrido, tal como os dinossauros, seres só existentes em passados distantes.

Enquanto isso, nós, da turma do chope, íamos lendo o que aparecia pela frente, numa bagunça deliciosa. A novidade absoluta: versos modernistas. Mário e Oswald. Um amigo me trouxe um romance de Knut Hansun, A Fome. Outro me emprestou Érico Veríssimo. Como o Érico traduzira Aldous Huxley, li Contraponto. Graham Greene, Tolstoi, Dostoievski. Mas li também Morris West, o best-seller do momento. E pilhas de romances policiais comprados em bancas de jornal ao custo de um cruzeiro, como anunciava uma mãozinha desenhada com o indicador para o alto. Além disso, não perdíamos a oportunidade de sacanear o Paulo Coelho da época, o poeta J. G. de Araújo Jorge, que líamos debochando, nos bares e boates, em jograis malucos, depois que o chope blumenauense havia cumprido sua tarefa embriagadora.

Lembro que eu me perguntava: por que fico desenhando, por que não presto atenção, por que não tento entender? Eu não entendia, eis tudo

Foi quando aprofundei a exploração da biblioteca de meu pai e encontrei todos os Machados de Assis de que precisava, em edições da Garnier. Já não havia retorno possível.

No colégio, o tédio. A última flor do Lácio, inculta e bela. O professor de língua portuguesa estava ali com a missão sagrada de nos convencer a todos de que não sabíamos nada da língua que falávamos desde pequeninos. Não havia verbo no qual ele não descobrisse uma exceção atormentadora com a qual jamais atinávamos. Não havia colocação pronominal para a qual ele não descobrisse exceção. E os professores de literatura seguiam na batida: nos entupiam de sonetos cheios de menções a heróis ou lugares gregos e romanos.

Até que um dia – este era um dos truques que eu cultivava nas redações: toda boa história deve ter, num certo momento, a advertência: até que um dia… – cheguei para a primeira aula de literatura no segundo ano daquilo que então se chamava de científico.

O professor anunciado era um sujeito esquisito, recém-chegado à provinciana Blumenau, vindo de altos estudos não se sabia de onde. Era magro, feio, alto, desengonçado, vestia-se com o chamado desalinho, falava alto e, coisa notável, chegava ao colégio pilotando uma lambreta! Tinha fama de poeta e de revolucionário. Nós, da turma dos botecos, ficamos na maior expectativa.

Quando ele entrou na sala, no entanto, levamos um choque.

Lá vinha ele empunhando o mesmo manual de história da literatura que fora usado para nos atormentar durante anos, aquele que terminava em Olavo Bilac e começava com poetas que viviam em bosques idílicos. Ficamos pasmos, já imaginando como abandonar aquela sala rumo a um copo de chope.

Ele se plantou diante da classe, olhando-nos como se fosse um ator de teatro, canastrão e desafiador, e depois de anunciar que era o novo professor de Literatura, ergueu o fatídico manual na mão direita e perguntou:

— Os senhores sabem o que é isso?

Pensamos as piores coisas, mas só um aluno, um chato que tirava 100 em gramática, disse com seriedade:

— É o manual de literatura.

O professor, subindo um grau na sua interpretação, o interrompeu:

— Nada disso! Isso aqui… – o livro se esfarelava em suas mãos agitadas – Isso aqui é uma porcaria! Uma droga!

E arremessou o livro pela janela.

Chamava-se José Cury. Virou nosso herói. O herói da turma dos bares e boates. O herói da literatura. O erudito da lambreta. O campeão mundial de arremesso de manuais pela janela. Para ele, a literatura brasileira a ser ensinada começava em 1922, com Mário e Oswald. Mas escolhera um caminho melhor para nos levar ao paraíso. Para a próxima aula, pediu que trouxéssemos exemplares dos jornais Última Hora e Correio da Manhã, além da revista Manchete. Começaríamos lendo e analisando os contistas e cronistas que aí publicavam. Nelson Rodrigues, Vinicius de Moraes, Fernando Sabino, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Antônio Maria.

E enquanto nós enchíamos a sala de aula com festivas gargalhadas e aplausos, ele declamou Bacanal, de Manoel Bandeira:

 

Quero beber! Cantar asneiras

No esto brutal das bebedeiras

Que tudo emborca e faz em caco…

Evoé Baco!

 

Lá se me parte a alma levada

No torvelim da mascarada,

A gargalhar em douro assomo…

Evoé Momo!

 

Lacem-na toda, multicores,

As serpentinas dos amores,

Cobras de lívidos venenos…

Evoé Vênus!

 

Se perguntarem: Que mais queres,

além de versos e mulheres?

— Vinhos!… o vinho que é o meu fraco!…

Evoé Baco!

 

O alfange rútilo da lua,

Por degolar a nuca nua

Que me alucina e que não domo!…

Evoé Momo!

 

A Lira etérea, a grande Lira!…

Por que eu extático desfira

Em seu louvor versos obscenos,

Evoé Vênus!

 

Era tudo o que queríamos.

Era o fecho. Além dos botecos, estudar literatura no colégio virara uma tremenda farra.

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