Música Erudita. Ed. 145

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Martha Argerich. Foto: Divulgação

Concerto para violino de Sibelius é pura poesia

Márcia Campos

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Você já ouviu uma música e se sentiu arrebatado por ela? Pois foi esta a sensação que tive ao ouvir pela primeira vez o Concerto para Violino em Ré menor, de Jean Sibelius (1865/1957). O compositor, nascido em Hämeenlinna, Finlândia, não produziu muitas peças e ainda leva a pecha de ser um violinista frustrado. Mas possui um talento incrível para a orquestração, detém uma técnica apurada, e compôs para violino de forma soberba.

Seu Concerto para Violino é uma celebração poética ao violino. A obra não alcançou sucesso quando foi apresentada pela primeira vez, em 1903, mas, ao ser reescrita pelo compositor, ganhou nova versão, esplendorosa. Richard Strauss a regeu pela primeira vez, em 1905.
Desde o primeiro movimento, Allegro moderato, dá para sentir as nuances do concerto. Escrito de forma clássica, oscila entre o rápido, lento, rápido, num revezar de suavidade à perturbação de compassos angustiantes. É uma obra que exige do violinista uma performance de alta complexidade, um virtuosismo.

Com grande intensidade emocional, Adagio di molto inicia-se com o “piano” dos instrumentos de sopro, passa por um solo de violino, doce, que toca e acaricia a alma, levando-nos a uma introspecção contemplativa, para, depois, nos despertar num abrupto, porém, deixando a marca indelével da música e toda sua expressão.

Allegro ma non tanto inicia-se de forma retumbante, com instrumentos ao fundo replicando o som vigoroso do violino. Nessa fase do concerto, se estiver ouvindo a peça num CD, vale a pena fechar os olhos e buscar compreender a intensidade da música e a participação dos instrumentos. Uma festa, com direito à dança. Assim é o movimento final, que requer o máximo do solista e a cumplicidade da orquestra; do ouvinte, solicita apenas a compreensão de que esse concerto é, verdadeiramente, um dos mais sedutores e remete à certeza de que será arrebatado pela melodia e por tudo o mais que ela trouxer ao resto de seus dias.

Serviço
Sibelius Violin Concerto in D minor. Op. 47 – Gravado pela Naxos. Duração: 31:47

Martha Argerich

Ângela Chiarotti

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A maioria das biografias “autorizadas” dos grandes músicos costuma patinar na chata e óbvia categoria chapa-branca, em que só se conta o permitido – e de preferência só se mostra o lado positivo. Parece que o músico não tem nenhum defeito. Ora, isso só contribui para reforçar o estereótipo do artista genial ungido pelos céus para espargir pelo mundo sua divina arte. E separa a música erudita num absurdo panteão da grande arte, muito acima de nosso dia a dia de cidadãos comuns e anônimos.

Músicos são de carne e osso. Sofrem, amam, são traídos. Esta é uma, mas não a única qualidade da primeira biografia da pianista argentina Martha Argerich, lançada há pouco na França. Ela completou 72 anos em 5 de junho, personificando o veredicto de seu maior guru, Friedrich Gulda, em entrevista de 1960 (ele lhe dera aulas por um ano e meio em 1954, em Viena): “Ela não é só a primeira pianista do mundo, é um fenômeno inexplicável. Martha é a artista absoluta.”

Martha Argerich – L’Enfant et les Sortilèges pertence aos raros exercícios biográficos que combinam a paixão do biógrafo por seu objeto de estudo; o DNA de jornalista em busca dos fatos, mesmo os mais polêmicos; e conhecimento do metiê do biografado. O autor da façanha é o jornalista parisiense Olivier Bellamy, editor de Le Parisien e crítico da revista especializada Classica, sucessora de Le Monde de la Musique. Bellamy também tem um programa na Radio Classique e um blog.

O subtítulo do livro remete à ópera em um ato de Ravel com libreto de Colette, que conta a história de uma criança castigada pela mãe que escapa do dia a dia tedioso por meio da fantasia e do amor. Faz sentido. Martha nunca deu bola para dinheiro; quer mais é gente que ela goste à sua volta. Jamais quis pôr ordem em sua vida. Por isso dependeu sempre das amizades e amores, paralelos à sua supermãe Juanita. Suas paixões incluem os pianistas Stephen Kovacevich, Alexander Rabinovitch, Fou Ts’ong, Michel Béroff, o adido cultural da embaixada argentina na Suíça Martín Tiempo (pai do pianista Sérgio Tiempo) e o maestro Charles Dutoit, entre outros. Jamais viveu só. Em suas casas, sempre houve lugar para amigos, jovens talentos e oportunistas em geral. Rostropovich, que ela amava de paixão (Bellamy diz que eles devem ter tido um caso), dizia-lhe: “Você insiste em cobrar o mesmo cachê de um aluno de Pollini?”.

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