Quem bate asa quer amar

vymg

E numa noite dessas você dormiu nos meus braços, numa manhã dessas você acordou numa fortaleza, protegida, refugiada de um mundo cruel, abrigada em nossa caverna, em nosso amor. Num dia desses brincávamos com malícia, rolávamos com carícia. Hoje, ingenuamente, trocamos os beliscões, os arranhões. Hoje, promiscuamente, a gente brinca e se diverte numa selva sutil e querençosa.

Nos dias passados a gente fingia ser alfaiate, dava-lhe as alfinetadas cheias de carência, tentava lhe costurar sob minha aba e você fingia ser o que não era, inventava compromissos insignificantes, fugia do seu e do meu destino. A gente tinha, meu amor, que permanecer lado a lado, face a face, frente a frente, corpo a corpo, nada ia adiantar, nada ia impedir, pois numa noite dessas dormi no seu ombro e acordei num alcácer, mais que isso, era um palácio, e você uma princesa a habitar, a abrigar, a me obrigar a ficar. Aí, quando acordei, vi florescer a gama, a gana, a chama do amor. Nem relutei, nem lutei, nem me matei. Aliás, matei uma parte de mim, mas vi renascer um lado curumim, uma faceta angelical, feliz, sem mal.

Nos dias futuros, o que será que será, que todos os avisos não vão evitar? Não me estou a preocupar. Pois, os dias futuros hão de chegar, todos os dias eles chegam cheios de amor, insuportavelmente – para os outros – cheios de você. Passarinho que bate asa quer voar, Ícaro que cola pena quer voar, gente que se ama quer voar, quer avoar, quer se depenar. Eu também quero, invadir o céu com o voo leve, levitar de amor, flutuar de paixão, assim como os nossos dias futuros serão, soltos na prisão do amor perpétuo. Quero bater minhas asas cheias de emoção, cheias de meninices, cheias de tolices e quero lhe dar minha mão para que você venha comigo e continue a dormir nos meus braços, acordar em nosso amor, me dar seu ombro para acordar em nosso amor. Quem bate asa quer amar, quero cada vez mais bater minhas asas, voar cada vez mais alto e se um dia eu cair, que, meu bem, desmorone apaixonadamente, como Ícaro, em si.

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