Quem vem pra beira do mar, nunca mais quer voltar

Tom Jobim. Foto: Divulgação

Tom Jobim. Foto: Divulgação

As músicas feitas de água e sal

 

Uma língua é o lugar donde se vê o Mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua sente-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação.” (Vergílio Ferreira, excerto de A Voz do Mar.)

O português Vergílio Ferreira é um dos muitos que traduziu a manifestação lusa pelo mar; a predileção, quase obcecada, pelo assunto. Claro, tem relação com a História, os descobrimentos, os heróis navegadores e o orgulho nacional dos grandes feitos e glórias. E isso ninguém tira de Portugal! Nem de sua poesia, nem de sua prosa e nem de sua música.

O Brasil, apesar de não ser só litoral e de ter um universo de variadas temáticas em sua portuguesa-brasileira língua, também tem encantamentos pelo mar. E eles foram passear pelas letras e notas de nosso cancioneiro.

A primeira parada, coincidência!, é na estação inicial da nossa língua: a Bahia. Dorival Caymmi encantado pelo mar é o grande mestre desse tema. Em suas composições desfilaram ondas, sal, sereias e pescadores de todo tipo de sentimento. As canções praieiras formam um universo onírico em que o mar é metáfora, lugar-comum de muitas situações, independente da altitude. E, de Caymmi, há muitos exemplos:

Foto: Divulgação

Dorival Caymmi. Foto: Divulgação

“Quem vem pra beira do mar, ai / Nunca mais quer voltar // Andei por andar, andei  / E todo caminho deu no mar / Andei pelo mar, andei / Nas águas de Dona Janaína / (…) Quem vem pra beira da praia, meu bem / Não volta nunca mais” (Quem Vem pra Beira do Mar, música de 1954).

É Doce Morrer no Mar, música de Caymmi, ganhou letra de Jorge Amado em 1941 durante um almoço na casa do pai do escritor. A criação teve como testemunhas Érico Veríssimo e Clóvis Amorim. “É doce morrer no mar / Nas ondas verdes do mar / Saveiro partiu de noite foi / Madrugada não voltou / O marinheiro bonito sereia do mar levou / É doce morrer no mar / Nas ondas verdes do mar / Nas ondas verdes do mar meu bem / Ele se foi afogar / Fez sua cama de novo no colo de Iemanjá.”

Para Caymmi, o mar é lugar de viver, de contemplar, de morrer, de amar.  Mas é, também, lugar para o sustento. A observar os homens da pesca e suas mulheres e seus filhos e seus feitos, o compositor criou personagens e homenageou aqueles que colocam em nossa mesa o peixe nosso de cada dia.

“Ô canoeiro / Bota a rede / Bota a rede no mar / Ô canoeiro / Bota a rede no mar / Cerca o peixe / Bate o remo / Puxa a corda / Colhe a rede / Ô canoeiro / Puxa a rede do mar” (Pescaria, de 1944).

“Minha jangada vai sair pro mar / Vou trabalhar, meu bem querer / Se Deus quiser quando eu voltar do mar / Um peixe bom eu vou trazer / Meus companheiros também vão voltar / E a Deus do céu vamos agradecer” (Suíte dos Pescadores).

Clara Nunes. Foto: Divulgação

Clara Nunes. Foto: Divulgação

E do repertório de Caymmi ainda tem muito mais. Mas se continuar, a matéria vira um especial do baiano e há em nossa coleção ainda muitos outros, como O Mar Serenou, de 1975, escrita por Candeia, que caiu no gosto do povo e na popularidade de Clara Nunes “O mar serenou, quando ela pisou, na areia, / Quem samba na beira do mar, é sereia / O pescador não tem medo / É segredo se volta ou se fica / No fundo do mar, ao ver a morena bonita / Sambando se explica que não vai pescar / Deixa o mar serenerar”, ou a dupla Gil-Donato que escreveu o hino Lugar Comum, que identifica de um jeito bacana e muito simples o vai e vem salgado e que todo mundo sabe cantar: “Beira do mar, lugar comum / Começo do caminhar / Pra beira de outro lugar / Beira do mar, todo mar é um / Começo do caminhar / Pra dentro do fundo azul / A água bateu, o vento soprou / O fogo do sol, o sal do senhor/ Tudo isso vem, tudo isso vai / Pro mesmo lugar /De onde tudo sai”.

Há também o mar que serve de metáfora para coisas da vida como quando o Tim Maia cantava com sua voz de trovão Azul da Cor do Mar ou a balada pop de Lulu Santos e Nelson Motta (que me ensinou o termo “voz de trovão” para Tim Maia) em Como uma Onda no Mar ou ainda a Corrida de Jangada de Edu Lobo e Vinicius de Moraes.

E as promessas, seduções, pedidos a Janaína, a Iemanjá? Compositores se deixaram enfeitiçar e cantaram, cantaram e cantaram… “De tanto lançar sonhos no ar / Acho que mereço um amor / Com mais samba e menos lágrimas / De tanto jogar flores no mar / Acho que mereço um amor / Com as bênçãos de Iemanjá” (Mais Samba, Menos Lágrimas, de Sérgio Pererê).

“Iemanjá, Iemanjá / Iemanjá é dona Janaína que vem / Iemanjá, Iemanjá Iemanjá é muita tristeza que vem / Vem do luar no céu / Vem do luar / No mar coberto de flor, meu bem / De Iemanjá / De Iemanjá a cantar o amor / E a se mirar / Na lua triste no céu, meu bem / Triste no mar” (Canto de Iemanjá, da dupla Baden Powell e Vinicius de Moraes).

“É, meu irmão, me traz Iemanjá prá mim / Minha Santa Bárbara / Me abençoai / Quero me casar com Janaína” (Arrastão, de Edu e Vinicius, música vencedora do 1º Festival de Música Popular Brasileira, da TV Excelsior, que projetou Edu Lobo e Elis Regina).

A turma da Bossa Nova, que embora gostasse dos clubes noturnos e das luzes de boates e inferninhos, também era solar. E na praia, a caminho do mar, descobriu o tema mais recorrente do estilo, o cenário carioca foi palco para várias composições, de Garota de Ipanema a Balanço Zona Sul, de Inútil Paisagem a O Barquinho, muitas foram as letras que desfilaram pelo sal ou que o utilizaram como cenário: “Eu você nós dois  / Aqui neste terraço à beira-mar / O sol já vai caindo e o seu olhar / Parece acompanhar a cor do mar / Você tem de ir embora a tarde cai / Em cores se desfaz escureceu /  O sol caiu no mar e aquela luz / Lá embaixo se acendeu você e eu” (Fotografia, Tom Jobim).

Há também a fatia política. Chico Buarque, a saudar a Revolução dos Cravos em Portugal, escreveu Tanto Mar; há duas versões: a original de 1975 e a de 1978, ambas mantêm a estrofe “Sei que há léguas a nos separar / Tanto mar, tanto mar / Sei também quanto é preciso, pá / Navegar, navegar”. Chico, um dos grandes nomes do cenário nacional a cantar situações políticas, nesse caso nem utilizou os recursos metafóricos que habilmente empregava em suas letras e aqui também teve problemas com a censura. Curiosidade nada marítima: Humberto Werneck entrevistou Chico Buarque para escrever Gol de Letras e dessa conversa registrou o depoimento do compositor: “Num show com Maria Bethânia, no Rio, onde houve um problema com Tanto Mar, outra surpresa: o censor encarregado de encrencar com a música era Augusto da Costa – ninguém menos que o zagueiro Augusto da seleção de 1950, em cuja jurisdição, ou quase, o ataque uruguaio enfiou aquelas duas bolas no fatídico 16 de julho. ‘Porra, Augusto, você perde a Copa e ainda vem me aporrinhar…’ disse Chico. O zagueiro chutou a responsabilidade pra cima dos cartolas. Tanto Mar passou, mas sem letra”.

E o pop da MPB também gosta do mar. A música Maresia, de Antônio Cícero e Paulo Machado, ganhou as rádios do País na interpretação de Adriana Calcanhotto “Ah, se eu fosse marinheiro / Seria doce meu lar / Não só o Rio de Janeiro / A imensidão e o mar…”.

O material que trata do mar ou que ocupa essa paisagem para transformar em música nossa vida e fascínio litorâneo é muito vasto – as páginas da Ideias poderiam ser cobertas só com ele. A pesquisa sobre o assunto traz à tona (!) um universo rico, amplo, imenso, que pode caminhar em diversas direções, sem esquecer, claro, da afirmação de Fernando Brant, “A novidade é que o Brasil não é só litoral! / É muito mais, é muito mais que qualquer zona sul / Tem gente boa espalhada por esse Brasil”.

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