Verdades perecíveis

geocentrismo

Acumulei mais verdades definitivas que o Concílio de Trento.

Fardo pesado.

Levei meio século para perceber que só há uma verdade inquestionável, a de que todos morreremos, mais cedo ou mais tarde.

Tudo o mais é verdade perecível, circunstancial, mesmo aquelas que vêm revestidas do solene título de verdades científicas.

O homem já acreditou que o sol girava em torno da terra. E quem duvidou disso naquela época acabou na fogueira. Ou abjurou.

Hoje, milhões de pessoas acreditam que o homem coloca o planeta em risco por agredir o meio ambiente. Falam em nome da ciência. Pois há cientistas que gargalham dessa sandice e de outras. O que não impede a proliferação de seitas que se dedicam à adoração da natureza, de forma tão primitiva quanto o os homens da caverna e as tribos do sudeste africano ainda hoje.

Eu acreditei nas verdades definitivas de teorias que têm respostas para tudo. Da origem do mundo ao futuro da humanidade. Da evolução das espécies ao psiquismo das abelhas rainhas. Da explosão do Cracatoa à revolução chinesa.

Eu que não tenho crença religiosa, sou agnóstico, mas acreditei religiosamente que há método infalível para investigar todos os fenômenos naturais e históricos. Cheguei a confiar nessa fórmula e suas leis pétreas para compreender os achaques pessoais da artrite reumatoide e dos desastres do amor.

Nem a artrite nem os desastres do amor têm explicação racional e definitiva. Sou testemunha disso. No máximo, há remédios para amenizar esses males. Amargos. Principalmente quando se perde um grande amor.

Mas como se desfazer dessas verdades definitivas que costumam se transformar em senso comum?

Algumas delas, mesmo depois de gastas pelo tempo e pelo uso, ficam arraigadas. A outras nos apegamos com a mesma afetividade e hábito que nos apegamos a objetos e pessoas. Muitas nem percebemos que guardamos dentro de nós e que interferem todo o tempo em nossas vidas, embora saibamos que não são verdades, muito menos definitivas, como a teleologia da luta de classes.

As descobertas, os avanços tecnológicos, que parecem evidências de que o homem acumulou conhecimento suficiente para instalar o admirável mundo novo, repousam sobre verdades provisórias. Nunca completas e definitivas. Há uma física para construir geladeiras, outra para mandar astronautas ao espaço.

Verdade definitiva, apenas a de que nascemos para estar num mundo que não escolhemos, para morrer todos os dias um pouco, enquanto nos distraímos com a necessidade de amar e ser amado.

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