Ao som do mar e à luz do céu profundo

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Há muito que as paisagens brasileiras desfilam aqui e ali em nossa música. Como um catálogo de agência de turismo, o mercado fonográfico propaga as belezas naturais, ou naturalmente fabricadas, de nosso país.

Ary Barroso foi o autor de Aquarela do Brasil, uma das canções mais populares da história da música brasileira. Foto: Divulgação

Ary Barroso foi o autor de Aquarela do Brasil, uma das canções mais populares da história da música brasileira. Foto: Divulgação

A primeira vontade de Brasil no imaginário popular é, quase sempre, o samba-exaltação de Ary Barroso, Aquarela do Brasil. Composto lá em 1939, é tão imponente e glorioso que parece nem fazer falta a compreensão total dos termos usados. Foi lançado por Araci Cortes, mas concordemos, sua voz não dava para tal imensidão. Depois de algumas tentativas, Francisco Alves soltou toda sua potência de realeza acompanhada das possibilidades de orquestra escritas por Radamés Gnattali e, aí sim, o brasil-brasileiro passou a cantar suas belezas em várias vozes. O sucesso cruzou fronteiras e de Bing Crosby a Frank Sinatra, muitos admiraram o mulato inzoneiro e a morena sestrosa. Há tantas versões que me contaram que uma rádio no Japão durante um ano inteirinho abriu sua programação diária com essa música, cada dia numa interpretação diferente.

A Aquarela do Ary pintou outras: Aquarela Brasileira e Querelas do Brasil. A primeira, de Silas de Oliveira, é de 1964, feita para embalar o desfile da Império Serrano que cantava, de norte a sul, uma maravilha de cenário: “Passeando pelas cercanias do Amazonas / Conheci vastos seringais / E no Pará , a ilha de  Marajó / E a velha cabana do Timbó / Caminhando ainda um pouco mais / Deparei com lindos Coquerais / Estava no Ceará, terra de Itapuã / De Iracema e Tupã […] / Brasil estas nossas verdes matas / Cachoeiras e cascatas / Do colorido sutil / E este lindo céu azul de anil / Emoldura em aquarela o meu Brasil”.

A outra é de Mauricio Tapajós e Aldir Blanc e faz jogo de palavras para chamar a atenção meio em protesto meio em exaltação às riquezas naturais e humanas: “O Brazil não merece o Brasil / O Brazil ta matando o Brasil / Jereba, saci, caandrades / Cunhãs, ariranha, aranha / Sertões, Guimarães, bachianas, águas / E Marionaíma, arirariboia, / Na aura das mãos do Jobim-açu”.

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Outras aquarelas: em 1964, a escola de samba Império Serrano desfilou ao som de Aquarela Brasileira. Foto: Divulgação

As bachianas citadas por Aldir referem-se ao conjunto criado pelo pai de todo músico que se preze: Heitor Villa-Lobos. As Bachianas Brasileiras, construídas entre 1930 e 1945, não se referem apenas a homenagem e influência de Bach, o Johann Sebastian, sobre a obra de Villa, elas também são a narrativa musical dos entendimentos e andanças do compositor pelo País. O Trenzinho do Caipira, Tocata da Bachiana nº 2, é um dos trechos mais conhecidos, mais populares e mais multiplicados, principalmente depois que Ferreira Gullar dedicou-lhe versos: “Lá vai o trem com o menino / Lá vai a vida a rodar / Lá vai ciranda e destino / Cidade e noite a girar / Lá vai o trem sem destino / Pro dia novo encontrar / Correndo vai pela terra / Vai pela serra / Vai pelo mar / Cantando pela serra do luar / Correndo entre as estrelas a voar / No ar”.

Na boca do povo desde o lançamento em 1969, País Tropical, de Jorge Ben, resume “a simpatia do poder, do algo mais e da alegria” de um povo à imagem e semelhança do carioca, de um tipo de carioca, e, de repente, do Rio Grande do Sul ao Amazonas, todo mundo virou Flamengo vidrado numa nega chamada Tereza: “Moro num país tropical / Abençoado por Deus / E bonito por natureza mas que beleza / Em fevereiro, em fevereiro / Tem carnaval, tem carnaval / Eu tenho um fusca e um violão / Sou Flamengo e tenho uma nega chamada Tereza”.

Outro que se dedicou à empresa de traduzir em música as trivialidades naturais foi Djavan. Ele percorreu o território em sua Capim, de 1982: “Pinheiros do Paraná / Que bom tê-los / Como areia no mar / Mangas do Pará / Pitangueiras da Borborema / A ema gemeu / No tronco do Juremá”.

Jobim, que era declaradamente fã de tudo que respira, animal ou vegetal, cantou o Pato Preto, o Boto, a sorte de todo Passarim e muitas temáticas naturais e ameaçadas. Com Chico Buarque tratou em A Violeira da excursão que começou rural atrás de sorte urbana de uma retirante do sertão de Quixadá que tinha como sonho mudar de vida no Rio de Janeiro. A aventura da viajante revela tipos, hábitos, sonhos e dificuldades, mas é também aula de geografia: “Em Araripe topei com um chofer dum jeep / Que descia pra Sergipe pro serviço militar / Esse maluco me largou em Pernambuco / Quando um cara de trabuco me pediu pra namorar / Mais adiante, num estado interessante / Um caixeiro viajante me levou pra Macapá / Uma cigana revelou que a minha sorte / Era ficar naquele Norte e eu não queria acreditar / Juntei os trapos com um velho marinheiro / Viajei no seu cargueiro que encalhou no Ceará / Voltei pro Crato, fui fazer artesanato / De barro bom e barato pra modo de economizar”.

Se na já citada nesta coluna, Notícias do Brasil, de Milton Nascimento e Fernando Brant, há o recado de que “Ficar de frente para o mar, de costas pro Brasil / Não vai fazer desse lugar um bom país”, Renato Teixeira e Almir Sáter sabem disso muito bem e cantaram muitas vezes o interior como em Brasil Poeira: “E os sertões, nação das estrelas / Se o dia é luz, e a noite seduz / O coração, abre as porteiras / Quando o galo cantar, nos quintais do Brasil / E o sol clarear nosso chão / Vem a semente e o pão, água do ribeirão / E horizontes que ao longe se vão / Ao som dos bem-te-vis”.

A pátria amada salve salve provoca o artista, que beija o seu chão, canta seu mar, dignifica sua mata, revela seu céu. A nossa mãe gentil diz ao compositor que é grande, repleta, vasta. Ao som do mar e à luz do céu profundo, os canários desse reino se rendem às maravilhas de nossa generosa natureza, mas, desconfio, que essa paixão toda não resiste à análise que transcenda o belo… e isso é outra história…

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O maestro e compositor Heitor Villa-Lobos ficou famoso por compor obras que retrataram a peculiaridade das regiões do Brasil. Foto: Divulgação

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