Autorizada? Nem a biografia de Madre Teresa de Calcutá

paula

Sorte teve Plutarco. Escreveu biografias dois mil anos antes de Paula Lavigne.
A tal Paula Lavigne (ex-mulher do Caetano – único “título” que costuma ostentar) passou a defender que biografia só pode ser publicada se devidamente autorizada pelo biografado. E o biografado, é claro, só autoriza biografia de boas passagens. Ridículo. Boas, para os leitores, são precisamente as passagens que o biografado quer censurar. A escolha da chata da Paula Lavigne como porta-voz da tese, aliás, parece na medida.

Sou suspeito, confesso. Curto, como poucos, uma boa biografia. Quase um fanático pelo gênero. Prefiro as políticas. Agora mesmo estou no primeiro volume da biografia de Getúlio, muito bem montada por Lira Neto (que já admirava pela boa biografia de Castello Branco). Já havia lido outras duas biografias de Getúlio (uma mais antiga, do Afonso Henrique – se não me engano). Emprestei ao amigo João Bosco Vidal e nunca mais tive notícia. Está perdoado: mais tolo do que quem empresta um livro, só quem devolve, diz o ditado. Para compensar, não devolvi ao Nego Pessôa a biografia de José Bonifácio (do Tarquínio de Souza). Voltando ao tema, há uns dez anos foi Boris Fausto quem escreveu deliciosa biografia de Getúlio. E é claro que há dezenas de outros livros sobre a vida de Getúlio. E cada autor apresenta um Getúlio diferente do outro. São vários e diferentes Getúlios.

Como Getúlio, grandes personagens têm a história contada em inúmeras biografias. Há quase duzentos anos, Stendhal escreveu uma biografia de Napoleão (tenho aqui a edição relançada pela Editora Boi Tempo em 1995). Depois de Stendhal, centenas de biografias de Napoleão foram escritas. Abandonei logo no começo uma mais recente (de Isser Woloch, Record, 2008). Há um Napoleão diferente em cada uma de suas biografias. Mas para Paula Lavigne só poderiam ser conhecidas as versões autorizadas pelos descendentes de Napoleão.

No universo de inúmeras biografias, temos sempre as mais simpáticas e laudatórias e, noutra ponta, as mais hostis (mais próximas da realidade, quase sempre). Stalin é “um dos maiores condutores de homem de todas as épocas” para a antiga biografia de Henri Barbusse – o comunista francês (meu exemplar é da Editora Leitura, 1945, tradução – pasme – de Tati e Vinicius de Moraes). Grande Herói de Stalingrado, disse Oscar Niemeyer na apresentação de outra biografia escrita por um apologista de Stalin, Ludo Martens (o comunista belga que morreu um tempo atrás). Evidente que são visões completamente diferentes das que estão nas biografias mais recentes, como as de Simon Sebag Montefiore e Nigel Cawthorne.

Parece certo que Stalin não teria dado autorização a Nigel Cawthorne, preferindo os textos elogiosos de Barbusse ou Martens. Stalin, aliás, foi reescrevendo a própria história, apagando trechos da vida que não lhe interessavam (Lavigne autorizaria?). Não por outra razão, diziam que na União Soviética era difícil prever o passado. Fidel gostou dos dois volumes que a brasileira Claudia Furiati escreveu sobre sua vida. Mas quem sabe mandasse Brian Latell ao paredón ao ler “Cuba sem Fidel”. Para Lavigne as versões críticas deveriam ser proibidas, porque não estariam ao gosto do biografado.

É mesmo ridículo que tenhamos de apresentar argumentos contra a estapafúrdia tese de vincular a publicação de biografias à autorização dos biografados ou de seus descendentes. Patético. Todo biógrafo deve ter o direito de revelar seu particular olhar sobre o personagem. E se biografado quer outro olhar revelado aos leitores, fique à vontade para uma autobiografia (com um bom ghost writer, eventualmente). O problema é que toda autobiografia é ficcional. Ninguém confessa a parte perversa. Será que Madre Teresa de Calcutá confessaria o apoio à dupla Duvalier (papa-doc e baby-doc), os sanguinários ditadores haitianos? Ou o uso do dinheiro e do avião particular do criminoso americano Charles Keatings? O mundo foi bem feito, todo mundo tem defeito, ninguém é direito – exagera quase nada Daminhão Experiênça, nosso gênio da cultura popular. Deixar ao biografado a versão que lhe interessa publicar é assassinar o gênero.

Noutros tempos, Paula Lavigne certamente estaria em campanha contra Raimundo Magalhães Júnior e seu livro Rui: o homem e o mito. Sim, Rui Barbosa também tinha lá seus defeitos, mostrou o Magalhães Júnior (que também biografou Machado de Assis). Lembrei de passagem que sublinhei no ótimo Viagens no Scriptorium, do Paul Auster: “se quer contar uma boa história, não se pode ter dó de ninguém”. A Lavigne quer autorizar apenas a turma que escreve com dó do biografado, escondendo defeitos em troca da autorização.
Tem mais. Nem sempre o biógrafo autorizado é quem melhor sabe escrever sobre o personagem. O bom biógrafo é o bom escritor. Fernando Moraes e Ruy Castro, para citar dois brasileiros. Outros escreveram sobre Disraeli, mas talvez ninguém como André Maurois. Lilia Moritz Schwarcz, a historiadora, tem uma completa biografia de D. Pedro II, mas, entendo eu, é do nosso imortal José Murilo de Carvalho o mais aprazível texto sobre o imperador. Lavigne quer desconsiderar tudo isso e deixar apenas os autorizados a escrever. E os autorizados quase sempre são os piores. Quem se dispõe a escrever com autorização não merece lá muito crédito. Que tal citar Regina Echeverria, a biógrafa autorizada de José Sarney?

A ideia aqui não é analisar os aspectos jurídicos do debate. Mas é óbvio que o artigo do Código Civil que (na leitura obtusa da jurista Paula Lavigne) condicionaria a biografia à prévia autorização deve ser ponderado tendo em conta o direito constitucional de informar e ser informado. É a primeira emenda da Constituição americana como foi traduzida em nosso texto de 1988 (o art. 220 da nossa Constituição). Especialmente porque os biografados são homens públicos, com espaço menor de proteção à intimidade (como reconhecem no mundo inteiro).

Isso significa que os biógrafos estão autorizados a deliberadamente inventar fatos, difamar ou caluniar? É certo que não. O biógrafo tem um compromisso com a busca da verdade factual. Jon Lee Anderson ficou seis anos pesquisando antes de escrever a biografia de Che Guevara (três dos quais morando em Havana). Revelou um Che diferente do que foi apresentado por Jorge Castanheda. Por quê? O próprio Castanheda explica logo na apresentação de sua biografia do argentino-cubano: escrever uma biografia requer uma multiplicidade de fontes. Nenhuma é perfeita; todas encerram enigmas, defeitos e lacunas. E se o biografado não conseguir corrigir a informação de uma fonte imperfeita? Paciência. É assim também no jornalismo. Excessos e abusos são casuisticamente punidos.

Não custa lembrar que homens públicos são biografados diariamente. A biografia é apenas a soma dessas pequenas passagens diárias retratadas pelos jornais. Para Lavigne, o jornalista teria antes de ligar ao biografado para perguntar se poderia publicar este ou aquele trecho da vida do homem público. Algo mais ou menos assim: – Prezado Senhor Renan Calheiros, posso publicar pequena passagem da sua biografia que revela pagamento de pensão alimentícia por empreiteira? De jeito nenhum; isso fere minha intimidade, diria Renan – apoiado por Lavigne.

Tenha certeza que muitos dirão que Paula Lavigne é apenas porta-voz de Caetano, Roberto Carlos, Chico Buarque, Gilberto Gil e outros (integrantes de um grupo chamado Procure Saber). Eu sinceramente não acredito. É coisa tão estúpida que só pode mesmo ser obra isolada da Paula Lavigne. Mas dou minha autorização para quem queira pensar o contrário.

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