Dos escombros cracovianos

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Vim dos escombros cracovianos, daquele nojento sítio repleto de maldade alheia, aleatória. De lá eu nasci, carreguei a desconfiança da vida, a destemperança do ódio, absurdamente fazia-me feliz quando o tiro saía pela culatra, torcia pela morte, torcia pelo aborto, torcia pelos canhões. Esperava ansiosamente receber uma bala, um doce e gentil tiro, para tirar de vez aquilo que Boreh me deu, mas Deus me tirou, e o Diabo não amassou. Agônico sofrimento de ter que acordar dia após outro, sem poder ser dono da minha morte, sem poder ser dono da minha vida, sem poder cicatrizar qualquer ferida.

Em Auschwitz, paradoxalmente, conheci o desprazer da liberdade, o gosto pela fuga, o gosto pelo perambular sem rumo. Dos escombros cracovianos de galho em galho caí em terras moçambicanas, passei por muitos lugares, mas só lá em África, vi um sorriso, uma alegria, um desespero que combinava com o meu, naquele campo de concentração ao céu aberto, onde a labuta diária escraviza mais que nazista e tortura mais que stalinista, me encontrei. E de lá não quis sair, não era seguidor de João Calvino, mas estava premeditado o meu futuro, reservaram para mim – judeu, pobre, com fome de comida, de vida, de morte – aquela terra.

Qualquer transcendência decidiu meu futuro, era um miserável que trazia desde o útero a premissa de ser um miserável. Fui um dos poucos subnutridos de nascença, vim dos escombros cracovianos, decidi lutar e vencer, vencer não, lutar. Lutar e apanhar. Um desgraçado que sobreviveu entre seis milhões que se foram; um desgraçado que até hoje está entre sete bilhões que acordam todos os dias. E mesmo depois de cair nas graças de africanos ironicamente sorridentes, melancolicamente choro, pela falta, falta da força fatal.

Sou miseravelmente um covarde, contraditoriamente venci com muita coragem o massacre, a fome, o frio. E ganhei a única guerra que não quis ganhar. Matei a morte e continuo na vida.

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