Editorial. Ed. 146

Neste país de coqueiro que dá coco e do mulato inzoneiro, a população prepara-se para a temporada de praia e para o carnaval. Deve estar farta do noticiário político que virou noticiário policial. E vem mais por aí. Além do Mensalão, há cinco casos escandalosos de corrupção, que envolvem diversos partidos, diversos estados e municípios, diversos níveis de poder.

05O ministro Luís Roberto Barroso diz que “a corrupção não tem partidos. Em poucos meses, explodiram escândalos em um Ministério, em um importante Estado e em uma importante prefeitura”.

Ora, pois, enquanto os brasileiros curtem o futebol, a praia e os preparativos do carnaval com certo alívio porque alguns graúdos foram presos por corrupção, sofrem outro assalto, o mais grave de todos, assalto muito maior que esfola o cidadão.

O total de impostos pagos neste ano já superou R$ 1,4 trilhão. Esse monumental volume de dinheiro entregue aos governos reduz a capacidade de investimentos das empresas e a possibilidade de compra dos indivíduos; desestimula a iniciativa individual – pois, num bom número de casos, ganhar mais significa receber menos, já que o imposto dá um salto.

É tanto dinheiro que permite gastos públicos injustificáveis – dos milhares de funcionários do Congresso à gigantesca frota de carros para governantes e políticos em geral, de recursos para o Mensalão às mordomias oficiais.

No ano passado o Impostômetro da Associação Comercial de São Paulo levou 12 dias a mais para atingir R$ 1,4 trilhão. São os impostos que crescem, ano a ano. Corrupção? Café pequeno, mesmo sendo muita.

Há muita corrupção neste Brasil brasileiro e combatê-la é importante. Mas não tão importante quanto a Grande Esfola Tributária, mãe de todos os casos de ladroeira governamental. Nossa cultura política não permite indignação maior diante do abjeto cotidiano de nossos políticos. Para ilustrar: sete deputados federais brasileiros, para cumprir três compromissos em Nova York na segunda, 18, viajaram na quarta, 13, recebendo diárias pelo período integral. Os sete pegaram jatinho da FAB de Brasília para São Paulo, seguindo então, sempre por conta da Câmara, para Nova York. Todos foram com as esposas – estas sem diárias. Dois assessores viajaram antes, para preparar tudo.

E quais seriam os compromissos tão importantes em Nova York? Ora, ora, um encontro de cortesia com o presidente da Assembleia Geral da ONU, John Ashe, e o presidente do Conselho de Segurança, Liu Ji-ey. Depois, entrevista à Rádio ONU. Cada passagem custa R$ 19 mil, ida e volta.

Para se ter uma ideia da diferença de cultura, entre a nossa e onde a civilização pegou. O ex-presidente alemão Christian Wulff está sendo julgado em Hannover. Motivo: um amigo, produtor de cinema, pagou sua visita à Oktoberfest de Munique e sua conta de hotel, no valor total de R$ 2.170 (700 euros).

É pouco? Por isso, Wulff teve de renunciar à Presidência e abandonou os planos de candidatar-se a primeiro-ministro, na sucessão de Angela Merkel. Os promotores lhe ofereceram um acordo, desistindo da acusação se admitisse a culpa e pagasse € 20 mil de multa. Wulff recusou: disse que preferia ser julgado e defender sua honra. Assim caminha a humanidade.

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