Em vigília

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A Vigília, Paul Delvaux, 1940

 

Descobri que não tenho insônia. Minhas noites sem dormir são de vigília, o que é muito diferente, diz o meu psiquiatra. Gostei de sua explicação.
Eu não sofro com a falta de sono durante a noite. Ao contrário, fico em agradável estado de lucidez, a cabeça livre de obrigações, em paz que só é possível quando não há urgências, ninguém para chamá-lo ao telefone, em prodigiosa solidão. Em vigília, eu leio, ouço música, degusto bom vinho, penso na amada, rememoro os melhores momentos do amor.

Sofro no dia seguinte, quando meu corpo reclama algumas horas de sono profundo para se recuperar do cansaço e as obrigações, sempre elas, me impedem de estender a noite até ao meio do dia, que é hora civilizada para sair do leito. Longe vai a época em que o homem era prisioneiro dos horários impostos pela natureza e tinha de saltar cedo para melhor aproveitar a claridade do sol.

Ao contrário da insônia, a vigília é fecunda. Um estado de plena atividade perceptivo-sensorial que permite pensar em nós mesmos sem angústias e sem cobranças. Ou a pensar no que mais gostamos e é impossível quando o mundo se agita à nossa volta.

Manuel Bandeira pensava humildemente nas mulheres que amou. Otto Maria Carpeaux recitava as Bucólicas de Virgilio, em latim. Ou se punha a lembrar peças inteiras de Bach. Carlos Drummond de Andrade pensava em sua vida sexual, contou aos amigos. Nelson Rodrigues revivia infância ou recriava lances de futebol de seu clube, o Fluminense. Já os anacoretas do deserto aproveitavam a vigília para fazer o que mais gostavam: nada. Absolutamente nada.

Na Bíblia, os Israelitas dividiam a noite em três vigílias, sendo cada uma de quatro horas (Jz 7.19); os Romanos dividiam em quatro vigílias, com 3 horas cada uma (Mt 14:25).
O pior uso que se faz da cama, essa maravilhosa invenção do homem, é deixar-se tomar pela insônia que tem a ver com o pânico. Costuma decorrer do medo ou da incapacidade de pegar no sono porque algo aborrece a consciência.

Um desastre no amor, a pessoa amada que se foi, ou uma dívida que deve ser paga no dia seguinte e não há fundos suficientes provocam insônia. Por isso a insônia é avara, infecunda, aprisiona a mente em um problema indigesto e não produz mais que desespero, desperdício e fadiga.

A vigília nos permite visitarmos nós mesmos sem angústias, sem cobranças. E sempre há a possibilidade de que a pessoa que nos interessa também esteja em vigília e decida compartilhá-la a dois. Insônia não é bom estado para a convivência. A vigília pode nos levar ao paraíso.

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