Free as a bird

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Luiz Felipe Leprevost. Foto: Marco Novack

O escritor Marcio Renato dos Santos, jornalista e mestre em Estudos Literários pela UFPR, analisa Salvar os pássaros, livro de prosa de Luiz Felipe Leprevost

 

A linguagem fluente leva o leitor da primeira à 175ª página, a última, de Salvar os pássaros (Encrenca: Curitiba, 2013), o mais recente livro de Luiz Felipe Leprevost. Apresentado em texto de divulgação como coletânea de contos, a obra funciona, mesmo, mais do que tudo, como texto contínuo, novela ou romance.

Apesar de mínimas variações, modulações sutis, todos os textos são enunciados por um único narrador; é o mesmo narrador que não usa maiúsculas para iniciar frases; narrador esse que pega o leitor e a leitora pelas mãos e os conduz num fluxo contínuo, ininterrupto de palavras que provocam sensações, emoção, percepções outras – paraísos artificiais enfim.
Os enredos interessam, podem interessar, mas Salvar os pássaros oferece passaporte para seguir pelos enredos, apesar dos enredos, a partir de personagens e situações, por exemplo, da descrição detalhada de uma transa que funciona como ideia-força pra dizer e reforçar a tese que sexo é amor, amor é sexo – o resto, ora direis, ouvir bocejos, pode ser prosa, no máximo coleguismo.

capa-passarosTudo é movimento em Salvar os pássaros. Quem narra flui, quem lê também. A prosa de Leprevost segue e salva o leitor, por exemplo, do desgastado modelo-prisão de começo, meio e fim. Compreender tudo em Salvar os pássaros também não é necessário – e quem compreende as coisas nesse caos fragmentado com Facebook 24 horas aceso diante de todos nós?

Salvar os pássaros fala: “e aquela voz: você não sai da janela. eu já estava morando ali agora? bateram a campainha. fui abrir. era aquela que tinha sido o amor da minha vida. eu: entra. e já fui apresentando as duas. foram simpáticas uma com a outra”. Salvar os pássaros lamenta: “posso suportar guardadores de carro não gostarem de mim, bilheteiras de cinema não gostarem de mim, eruditos não gostarem de mim, politizados não gostarem de mim, gerentes de banco não gostarem de mim, descolados não gostarem de mim”. Salvar os pássaros grita: “se tudo é tão triste, por que escrevo? por que não calo minha mão?” Salvar os pássaros delira: “topógrafos do só-buraco”. Salvar os pássaros goza: “ela não é uma dominatrix, não sou um cara com uniforme de bombeiro, optamos por carinho e cuidado, posições ginecológicas, as pernas em ângulo de quase 180 graus, pornô, sim, mas com amor”.

Salvar os pássaros revela o imaginário livre de Luiz Felipe Leprevost, que dialoga com a tradição literária e marca o seu próprio terreno no mapa literário contemporâneo. O texto inventivo de Leprevost tem a aparente falta de continuidade e sentido de um solo de Jimi Hendrix e, à la Hendrix, ele realiza uma literatura experimental absolutamente irresistível, arrebatadora (esse livro não seria, na realidade, um álbum de rock and roll?): é um corpo solto que dança, fluxo de água que não se represa. Salvar os pássaros é um dos destaques do ano literário 2013.

SERVIÇO
Salvar os pássaros, de Luiz Felipe Leprevost. Encrenca, Curitiba: 2013. 175 páginas. Preço: 28. Avaliação: Ótimo.

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