Jaime Lerner

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Jaime Lerner. Foto: Daniel Katz

 

Calçando sapatos em colonos e vivendo o maravilhoso do rádio com a Guairacá e B-2, na Barão do Rio Branco.
Até virar nome mundial, líder da Time e acupunturista urbano com trânsito pela orbe toda

 

O mundo do final dos 1930 a 50 desfilou para Jaime, o menino filho de imigrantes poloneses fugidos do nazismo, como um feérico universo gerador de surpresas.
A casa da família, em Curitiba, era ali, naquela Rua Barão do Rio Branco, próxima ao prédio em que depois se localizaria a antiga sede do jornal O Estado do Paraná.
Ali nasceu ele e nasceu a maioria de seus irmãos. E daquela rua teria Jaime sua primeira janela para o mundo.

Naquele espaço, a deambulação onírica do garoto se alargaria, garantida pela vizinhança das duas emissoras de rádio que dominavam o dial, a Rádio Clube Paranaense, potentíssima, de abrangência mundial, e a Rádio Guairacá, essa alimentando ilusões de que se estava a viver um interlúdio dos musicais do cinema norte-americano. Coisa pouco fake, mas sem dúvida amostra grátis impressionante.

E as rotativas de O Estado do Paraná o depois jovem Jaime muitas vezes as viu em funcionamento, em contato com um dos ícones da vida curitibana de então, o jornalista (que havia sido médico) João Dedeus Freitas Netto, diretor do matutino e amigo da família Lerner.
O pai de Jaime, seu Felix, tinha muitos pontos de encontro com Freitas Netto (tio dos jornalistas Rodrigo Neto e Hélio de Freitas Puglielli).

Quando se encontravam, Freitas falava de seus dias de pracinha da FEB, combatendo o nazismo na Itália; e recordava, para o imigrante que fugira das atrocidades de Hitler, o quanto seu pai – o jornalista Rodrigo de Freitas – intuíra o avanço do nazismo e o combatera em comentários diários em O Dia e no rádio.

Jaime Lerner. Foto: Daniel Katz

Jaime Lerner. Foto: Daniel Katz

O sotaque paranaense

Ainda das duas emissoras de rádio: a Guairacá e a B-2 conseguiam, mesmo com seus voos nacionais e internacionais, manter o sotaque e os gostos da cultura paranaense. Exemplos eram seus conjuntos musicais (o Regional de Janguito do Rosário, por exemplo), cantores como Claudete Barone, animadores de programas de auditório (como o Clube do Guri), com Aluisio Finzeto, a dupla Nhô Belarmino e Nhá Gabriela, Rocha Braga, as transmissões esportivas por notáveis como João Feder e – podem conferir– a locução impecável de um estudante que, com o passar dos anos, se tornaria um brasileiro importantíssimo, por sua obra de crítico literário e misto de sociólogo e historiador com seus livros enciclopédicos, Wilson Martins.

Não sei se Jaime era fã desse cast todo, talvez não fosse ligado nas duplas sertanejas, entre as quais deveria ser incluída a de Osvaldinho e Vieirinha. Mas elas faziam o melhor da festa nas duas rádios, davam audiência indiscutível e nem se sonhava com pesquisas tipo Ibope.
Em compensação, o ouvido e o olhar críticos de Jaime Lerner anotaram momentos de suas paixões centradas na B-2 e Guairacá.

Lembra, por exemplo, que uma das rádios anunciou, por semanas, com insistência, uma atração internacional: “A grande pianista Carmen Cavallaro estará se apresentando entre nós...”.
A apresentação ocorreu e a correção de gênero foi essencial: tratava-se de um homem, pianista, que nasceu em Nova York, filho de pais sicilianos. Músico de grande prestígio no mundo todo de então.
Gafe que acabou esquecida diante da apresentação inesquecível do artista.

 

A revista matinal

Na B-2, a enorme importância do programa Revista Matinal, sob o comando de Arthur de Souza, começou no início dos 1950.
O programa era dono absoluto das manhãs paranaenses e, na falta de meios de comunicação eficientes, o depois deputado Arthur de Souza abriria até um rápido espaço em sua Revista Matinal para recados, muitas vezes de ouvintes em busca de contatos com parentes distantes, no Sul ou no Norte e Nordeste do País. Não raras vezes, os ouvintes mandavam ao vivo suas mensagens de saudade.

Lerner uma vez comentou comigo que seria possível fazer uma comparação “sem exageros”, citando que a Revista Matinal dos anos 1950 poderia ser comparada, em retumbância e importância na sociedade abrangente, ao Bom Dia Brasil de hoje, ou, mesmo, ao Jornal Nacional.

As rádios, nunca é demais lembrar, eram parte da essência da Rua Barão, que tinha também a Assembleia Legislativa (hoje Câmara Municipal) em clássica construção e o primitivo casarão que sediou o Governo. E mais adiante, na esquina com a Rua XV, a majestosa sede do Clube Curitibano, um ponto de encontro, então, das oligarquias paranaenses. Do clube, na época, só faziam parte nomes do chamado ‘velho Paraná’.

Voltando às assim então denominadas – pernosticamente – ‘ondas hertzianas’: as curtas da Rádio Clube, a PRB-2, eram um convite a longas viagens imaginárias a terras distantes, aquelas a que a emissora chegava e de onde ouvintes mandavam testemunhos do alcance do rádio.

Mais universal era impossível. Cada carta vinda do exterior, lida em certos programas, era um testemunho de cosmopolitismo da emissora.
Essa amostra de cosmopolitismo intrigava e estimulava o menino, possivelmente tivesse tido influência na formação do globetrotter Lerner de anos depois.
A Guairacá mantinha, no casarão em que se abrigava, uma orquestra tocando em auditório sempre repleto, com os músicos executando hits do popular e do semiclássico. O mesmo acontecia na B-2, sem falar que o radioteatro das duas comportaria, em si, teses acadêmicas. Renato Mazenek e Ubiratan Lustoza sabem bem disso, já escreveram livros resultantes de imersão na arqueologia de nosso rádio.

Jaime Lerner lembra que os músicos se levantavam na hora de ressaltar certos instrumentos e passagens, lembrando, assim, gestos das fitas americanas, musicais que o garoto assistia nos cines Ópera, Avenida (hoje auditório do HSBC no Palácio Avenida) e Palácio, na pequeníssima Avenida João Pessoa.

“Jaime nasceu curitibano. Assim, a integração foi normal e total à cidade e à sua gente. Nasceu parte dela, até com o sotaque da terra, do leite quente” – Antonio Carlos Coelho, Professor

O “peludo” e a bicicleta

Os pais – dona Elza, e seu Felix –, exerciam plenamente uma das marcas do judaísmo: eram exigentes na educação do garoto e seus irmãos e com enorme interesse que a família crescesse plenamente integrada no país escolhido. Assim, as turmas de crianças e adolescentes, amplas, variadas, aglutinando a piazada de todas as etnias, credos e cores, num tempo de forte presença de imigrantes, contavam sempre com o time da família Lerner.
Numa das turmas, a garotada inventou um circo. Dizem que o pai da proposta foi Jaime, “peludo” do circo de curta duração, instalado nas imediações, na Visconde de Guarapuava.

A Barão, dessa forma, foi a primeira e grande escola de Jaime, espaço de formação básica, essencial para descobrir e introjetar peculiaridades do Brasil sulista, país que Elza e Felix apenas amavam mas pouco conheciam, de início.
A rua era a usina de todo tipo de experiências lúdicas, ingênuas, algumas de enorme carga de traquinagens.

De uma delas, a família não saiu ilesa, mas assinalada: foi quando um dos irmãos, Julio, foi atropelado por um bonde, ao passear de bicicleta.
A partir dali a bicicleta ganhou veto definitivo decretado pelos pais. E, assim, Jaime nunca aprendeu a pedalar em duas rodas. Frustração de infância, dele e dos irmãos.
Nessa redescoberta do tempo de criança, que ele me expôs em entrevista para meu livro Vozes do Paraná, algumas de suas marcas ficaram muito claras. São partes impressionantemente fortes no inventário afetivo do urbanista.

 

A herança do judaísmo
Jaime Lerner. Foto: João Le Senechal

Jaime Lerner. Foto: João Le Senechal

“Jaime nasceu curitibano. Assim, a integração foi normal e total à cidade e à sua gente. Nasceu parte dela, até com o sotaque da terra, do leite quente”, garante o professor Antonio Carlos Coelho, que leciona História de Israel Bíblico e Ecumenismo no Studium Theologicum de Curitiba, na Faculdade Vicentina e no curso de Teologia da Faculdade Evangélica do Paraná. Coelho tem absoluto conhecimento das raízes do judaísmo em Curitiba, é um especialista na matéria.

Claro que essa integração de Jaime e dos irmãos à sociedade abrangente foi realidade que muito agradaria aos pais, vindos da vida em guetos gestados por odiosa política antissemita na Polônia. Era a Polônia onde os judeus sofriam sanções criminosas, como alguns daqueles ‘escolhidos’ para, por exemplo, assistir às aulas em pé... Sem falar que argumentos não faltavam – como o do numerus clausus – para limitar o acesso de jovens judeus ao ensino superior.

Essa natural imersão de Jaime Lerner na Curitiba ‘de todas as gentes’ – e enormemente católica-tridentina, naqueles anos de sua mocidade – não significou deixar de viver a comunidade judaica.
Na verdade, achava tempo para os encontros da juventude no Centro Israelita, as competições esportivas, as encenações teatrais e mesmo, em dias festivos, na sinagoga que então funcionava na Rua Cruz Machado.

Sem poder ser considerado um judeu religioso no sentido lato da palavra, Jaime nunca escondeu o apreço às verdades da herança judaica aprendidas com os pais. Isso, uma vez deixou-me bem claro, quando lhe indaguei sobre a amplitude de seu espírito religioso judaico.
A resposta foi mais ou menos assim: havia recebido dos pais aquela herança a partir da Torá, que se desdobrava em ritos de passagem – como bar mitzvah –, as celebrações impostergáveis, como o Rosh Hashaná, o Dia do Grande Perdão (Yom Kippur), as recordações dos ancestrais, a recitação do ‘kadish’ em pompas fúnebres... Delas nunca se afastou, esse cidadão brasileiro, patriota, de etnia e religião judaicas.

 

Making of do sagrado

Gozador emérito, certa feita me garantiu que, como prefeito e vereador havia, com certeza, assistido “mais missas que você ao longo de sua vida”. Pode ser.
Esse olhar crítico, respeitoso, nunca pediu licença para dissecar certos momentos. Num deles, ao assistir a uma missa e celebração de casamento, numa chácara em Piraquara, e depois de ouvir a longa e detalhada explicação do franciscano celebrante sobre a liturgia, disse-me, em voz baixa: “Frei Cássio teve tarefa impossível, fazer o making of da missa...”.

 

Na Casa Felix, um exercício de humildade

No final do colegial, no grande ateneu que foi o Colégio Estadual do Paraná, até os primeiros anos no curso de Engenharia Civil da UFPR, seu mergulho na chamada sociedade abrangente não poderia ter sido mais enriquecedor.
Nesse sentido, a boa escola foi o balcão da Casa Felix, que seu pai tinha na Barão do Rio Branco.
A casa vendia sapatos, roupas, armarinhos em geral, tendo as camadas populares da população como maiores fregueses. E fiéis fregueses.

Por anos, Jaime atendeu à enorme clientela de compradores vindos sobretudo do interior, desembarcados na estação ferroviária, que ficava justamente no fim da sua amada Barão do Rio Branco (onde hoje está o Shopping Estação). Trabalhava meio expediente na lojinha, o outro dedicava aos estudos, por algum tempo, até quando já universitário.

Os clientes eram, na maioria, colonos. Ajudar os colonos a experimentar sapatos “foi um exercício de humildade importante para a formação desse homem de espírito tímido, às vezes calado, enigmático até, mas jamais arrogante diante de ninguém. Muito menos diante dos socialmente inferiorizados”, diz o escritor e jornalista Fábio Campana, hoje um constante interlocutor de Lerner.

No final do colegial, no grande ateneu que foi o Colégio Estadual do Paraná, até os primeiros anos no Curso de Engenharia Civil da UFPR, seu mergulho na chamada sociedade abrangente não poderia ter sido mais enriquecedor

Antes adversários, hoje amizade

Lerner e Campana foram adversários, em tempos que o jornalista foi secretário de Comunicação Social do Estado e, antes, responsável pelo grande deslanche da imagem de políticos como Roberto Requião, na Prefeitura e no Governo do Paraná, ao lado do insubstituível Jamil Snege.

O mesmo Jamil que, antes, conseguira amalgamar o nome do então pouco conhecido Roberto Requião ao de José Richa, com o mote que foi, na minha opinião, definitivo para a eleição de Requião a prefeito de Curitiba: “Quem é Richa é Requião, irmão”. Richa vinha de intensa luta pela redemocratização do País, passara pela escola do PDC, da JDC e de Ney Braga, pelo MDB de Ulysses. Era, naqueles dias, o maior eleitor do Paraná.

Mas anos depois seria “vítima” da campanha de seu ex-pupilo Requião, que o demonizaria como “marajá” por ter Richa – dizia – polpudas aposentadorias garantidas pelo erário. Os vídeos de campanha não me deixam mentir. As mesmas polpudas aposentadorias que jornais nacionais, como O Globo, deste novembro de 2013, dizem serem recebidas hoje por Requião, como senador e ex-governador. Coisa de R$ 52 mil/mês.
Jaime também conheceu bem a capacidade de fogo de Campana, o então opositor aguerrido. E a respeitava, é certo.

Hoje ele e Campana são amigos, visitam-se, trocam telefonemas semanais, mantêm laços fraternos. Ligam-se por alguns identificadores, entre eles: os dois são argutos críticos de costumes e de personagens da vida brasileira.
E são conhecidos por suas boutades, muitas vezes afiadamente demolidoras e inteligentes nas observações de caracteres. Ridendo castigat mores? É, pode ser...
Ligam-se por viéses que expõem em longos encontros. Uma paixão comum é o cinema, de preferência o francês e o americano, com John Ford, John Wayne, Elia Kazan. Com direito à dissecação do Belle de Jour, Trufaud e mesmo Brigitte Bardot...

Jaime e o jornalista não costumam revolver o passado. Não tocam em momentos explosivos de campanhas eleitorais em que Lerner, vitorioso ou derrotado – afinal foram várias candidaturas que enfrentou – defrontou-se com jogadas de marketing e de ‘surpresas’ inteligentíssimas, muitas delas gestadas por Campana. Algumas com sua real assinatura; outras, atribuídas ao jornalista como autor intelectual e de alta octanagem, mas jamais provadas quanto ao nascedouro.

O certo é que nos grandes momentos de sua carreira política, desde os primeiros palanques e campanhas eleitorais, a ‘cavalaria rusticana’ de Requião e Campana encontrou pela frente a presença eficientíssima de um grupo de conselheiros de Jaime Lerner.
Ossos duros de roer.

Tratava-se de gente como Eduardo Rocha Virmond, Nireu Teixeira, Aldo Almeida, Ronaldo Schulman, Constantino Viaro, Cassio Taniguchi, Gerson Guelmann, Gilberto Ricardo dos Santos, Desidério Pansera, Aramis Millarch, Luiz Carlos Cunha Zanoni, Dario Lopes dos Santos, Nicolau Kluppel, Henrique Naigeboren, seu cunhado, e que foi sempre seguro suporte jurídico do grupo.

Isso sem contar o olhar técnico imprescindível de Rafael Dely, Lubomir Ficinski, Angel Bernal, Carlos Ceneviva, Fanchette Rischbieter, Dulcia Auríquio, Manoel Coelho.
Um time para ninguém colocar defeitos.

 

Um jantar para o líder de Time

Em 2011, Campana fez um jantar histórico para Lerner, na sede de sua Travessa dos Editores.
Com requinte, bom gosto e fidalguia, Lerner foi lá homenageado por ter sido apontado pela revista Time com a designação de um dos líderes mundiais, em matéria de capa.
Mas tudo informal no jantar, encontro de amigos, de uma certa intelligentsia privilegiada.
Na noite, testemunhei um desfile de conhecimentos gerais, com concentração no mundo do cinema, em longos debates entre Lerner, Belmiro Castor e Campana. A peça de resistência foi o cinema, o americano e o francês, de preferência.

Outros convidados (grupo restrito) se engajaram nas análises, como Carlos Alberto Pessoa, Dico Kremer, o advogado Luiz Fernando Pereira, o jornalista Luiz Carlos Cunha Zanoni.
Registrei aquele momento histórico também porque nele vi uma certa ironia da vida paranaense (o que não chegou a me surpreender). Pois além daquela homenagem, não registrei outras a Lerner. O que não significa que não tenham existido, também em petit comité, mas nada do mundo oficial, nada retumbante e à altura do feito e da importância de Lerner.

 

Sobre um"Brasil diferente"
Jaime Lerner. Foto: Daniel Katz

Jaime Lerner. Foto: Daniel Katz

Quando Eduardo Rocha Virmond era secretário de Cultura do Paraná, no segundo Governo Lerner, tive uma nova prova de quanto o urbanista conhecia o Paraná em detalhes, embora muitos o apontem como fundamentalmente “alguém não político”.
A expressão, dita à saciedade, nunca correspondeu à verdade. Jaime é político – e dos bons. Pois quem consegue ser eleito com enorme vantagem de votos sobre seus adversários a prefeito de Curitiba e duas a governador do Estado só pode ser bom de voto e de estratégias políticas.

É certo que o político Lerner é uma das exceções nesse mundo brasileiro: tem conhecimentos técnicos, especialmente na montagem de cidades (qualidade de vida, mobilidade urbana, preservação ambiental).
As duas primeiras eleições de Lerner, em 1971 e em 1975, à prefeitura foram de forma indireta, pela Assembleia Legislativa.

Pois bem, voltando a Virmond: esse advogado e homem público, crítico de música, ex-presidente da Academia Paranaense de Letras, exemplar parte da genealogia paranaense – a começar pelo médico Frederico Virmond e os nacarinos Guimarães –, promoveu, em nome do Governo, uma homenagem a Wilson Martins (Um Brasil Diferente e História da Inteligência
Brasileira).

O grupo reunido para jantar no Palácio Iguaçu em torno de Wilson era pequeno, representativo de um segmento bem articulado de paranaenses amplamente inseridos na realidade do Estado.
Partilhei do jantar sentado ao lado de Pretextato Taborda Ribas Neto, o Tato, e Nireu Teixeira. Presente estava também Karlos Rischbieter.

É certo que Wilson Martins dominou a reunião, com a peça de resistência do encontro sendo suas imersões em tempos ‘antigos’, como aqueles em que ele viveu, nos 1940, ao lado do monumental Manoel Ribas, de quem foi oficial de gabinete. E secretário a quem cabia, por exemplo, cuidar da redação de toda correspondência de seu Ribas.

O que me impressionou foi constatar o quanto Jaime se mostrou participante das narrações, muitas delas primorosamente engraçadas, na entonação dada por Wilson Martins. Lerner, afinal, era uma criança no período de Maneco Facão, mas ele ombreou com Virmond, Nireu e Tato ao suplementar, em certos momentos, as narrativas do crítico, mostrando que episódios decisivos da nossa história ele os conhecia bem, assim como seus atores.

Entre as estórias engraçadas, e verídicas, ditas por Wilson Martins, estava aquela do funcionário público que fora a uma audiência pública do interventor, numa quinta-feira no Palácio São Francisco. Foi para reclamar que numa das grandes peneiradas determinadas por Ribas, em busca de diminuir as despesas com custeio da máquina pública, ele perdeu o emprego.

Mas implorou: tinha nove filhos, não poderia prescindir dos vencimentos para alimentar a prole enorme...
Generoso, justo, mas implacável na defesa de certas decisões que tomava, seu Ribas respondeu:
— Nove filhos? Pensasse antes...

 

Começou com a classe média

Jaime, desde que foi escolhido prefeito de Curitiba, ao assumir seu primeiro mandato, cercou-se de bons comunicadores, jornalistas especialmente.
Desses profissionais da imprensa, Luiz Julio Zaruch – filho de árabes cristãos –, jornalista de O Estado do Paraná, uma unanimidade na imprensa local daqueles dias, foi escolhido secretário de Imprensa. Saiu-se muito bem, soube captar as propostas de JL, comunicá-las com precisão e ajudar a levá-las aos grandes centros formadores de opinião locais, Rio e São Paulo. Muitas vezes foi algodão entre cristais, aparando investidas nem sempre éticas de alguns nomes que se arvoravam em “donos” dos meios de comunicação.

Discreto, Zaruch era o secretário ideal para alguém que estava ‘nascendo’ para a própria cidade onde – diga-se com clareza – Jaime não era exatamente um tipo popular, mas pouco conhecido e porque ele mesmo não fazia (e não faz) o gênero dito ‘popular’.
O que não significa que não tenha sabido ganhar votos.

E o fez conquistando, de saída, a classe média formadora de opinião, então predominante na Curitiba não dominada pelos programas de rádio e televisão policialescos e nem assolada pelas levas de deserdados do campo. Deserdados das pequenas cidades que, poucos anos depois, mudariam completamente o panorama demográfico da cidade e da RMC.
Zaruch, em outras administrações Lerner, foi ocupando outras posições e acabou se dedicando à área de turismo.

 

Olhar local, visão universal
Jaime Lerner. Foto: João Le Senechal

Jaime Lerner. Foto: João Le Senechal

No grupo de base do início da vida pública de Lerner, dois outros jornalistas – Aramis Millarch e Luiz Carlos Cunha Zanoni, ambos com um Prêmio Esso Regional de Jornalismo – eram constantemente requisitados pelo urbanista que, em poucos meses, passou a ser assunto obrigatório da grande mídia nacional daqueles dias. E o ‘crème’ da MPB e do mundo artístico nacional passou a incorporar o nome de Jaime Lerner a seu cotidiano de referências. Um dos bons exemplos foi o poetinha Vinicius de Moraes que, mais tarde, viria inaugurar um dos ovos de Colombo de Lerner, o Teatro do Paiol.

Já que falamos no Paiol, quero – pedindo licença à cronologia, que aqui respeito pouco – para lembrar: Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso vieram a Curitiba, na segunda administração Lerner na Prefeitura, para participarem do grande evento cultural que Lerner e equipe cultural da prefeitura desenvolviam (Lucia Camargo, Ernani Buchmann à frente), as Parcerias Impossíveis no Paiol. O encontro aglutinou a mais expressiva parte da Curitiba inteligente.

Já o também jornalista Jaime Lechinski era uma espécie de ‘alter ego’ de Jaime, de início, meio na sombra. Era quem complementava, com arguto olhar crítico, a análise dos tipos humanos curitibanos e suas reações.

Essa refinadíssima qualidade em Lechinski, ele mesmo se autoidentificando como “polaco”, a partir das imitações que sempre fez da fala de seus ancestrais, acredito ter sido importante instrumento para o breviarium do urbanista Lerner em busca de soluções urbanas locais encaixáveis no plano internacional. Mas que, por primeiro, teriam de levar em conta e ser testadas nessa cidade considerada difícil pelos avaliadores de comportamento mercadológico, a nossa Curitiba.

Essa natural imersão de Jaime Lerner na Curitiba ‘de todas as gentes’ – e enormemente católica - tridentina, naqueles anos de sua mocidade – não significou deixar de viver a comunidade judaica

Sérgio Mercer

O que passasse bem por Curitiba, teria lugar garantido no mercado nacional, garantia o marketing então reinante.
É certo que às vezes acabo não dando o verdadeiro acento que o publicitário Sérgio Mercer teve, com Lechinski, no treinamento do olhar de Lerner sobre o paranaense, suas peculiaridades, suas características de alma, suas contradições e seu espírito reivindicador.
Mercer foi mais do que colaborador da grande jornada inicial: na ‘grande marcha’, apropriando-me de uma imagem que lembra os tempos de conquista de Mao, ele foi mais que uma mão amiga.

“Ninguém o superava na análise de momentos críticos e ninguém o suplantava nas soluções que nos apresentava. Prontas, perfeitas, colocando os eventuais adversários em beco sem saída...”, garante-me Jaime Lechinski que, hoje, acredito, ainda é o primus interpares do círculo íntimo de Lerner.

 

Transferiu vinda de Quintana

Para os que, até maliciosamente, tentam magnificar a chamada noção do espetáculo que Lerner possui, tenho um testemunho a indicar que ele, muitas vezes, colocou a amizade pessoal em primeiro plano, adiando até a visita a Curitiba de astros nacionais só para não faltar a compromissos pessoais.

Tal como fez quando do casamento de Dante Mendonça e Maí Nascimento Mendonça. O casal de jornalista casou em Nova Trento, Santa Catarina, anos 1980. Jaime e Fani seriam padrinhos. Ocorre que uma visita oficial de Mário Quintana, por falha de agenda, coincidiria com o evento, bodas de seus diletos amigos. Resultado: transferiu a visita do poeta, sua enorme admiração, para ser curtida duas semanas depois. Isso sem embargo da enorme expectativa com que a cidade esperava o poeta gaúcho.

A propósito, Dante foi daquelas escolhas instantâneas de Jaime, para que compusesse a sua equipe: um dia, chamou-o ao gabinete da prefeitura, pediu-lhe que fosse ao Rio falar com Ziraldo, em O Pasquim, para tratar de ‘O Balazequinha’, com que a prefeitura iria, a partir de recriação de Ziraldo, relançar o personagem de outrora, com sentido pedagógico, em apoio a campanha de valorização de tributos.

 

O começo: no Bar 'do Juarez'

Dante Mendonça foi um dos poucos que podem testemunhar sobre as primeiras reuniões de Jaime e parte de sua equipe, na primeira administração da prefeitura. Aconteciam num bar “pé sujo”, de nome ‘Juarez’, na Rua Benjamin Constant, próximo ao Mercado Municipal. Ali nasceram grandes momentos da revolução urbana modelar que projetaria Jaime Lerner ao mundo.

A casa, fornecendo bebida honesta e alguns salgadinhos, especialidades locais, valia especialmente pelo mezanino, em que o urbanista e gente como Nireu, Mercer, Dario Lopes dos Santos, Zaruch, Nicolau Kluppel, Luiz Fernando Arzua e Eduardo Virmond, entre outros, tinha seu ‘estúdio’, longe dos palpiteiros.

Já o ‘Lá no Pasquale’, no Passeio, de João de Pasquale, era o espaço aberto, público, um reduto de músicos, jornalistas, boêmios em que Jaime se expunha por inteiro, aos sábados, para aperitivos. E onde era privilegiado com mesa com toalha, a única assim posta.

Isso a partir de 1975, quando Maí, por exemplo (uma das melhores memórias de Curitiba) fez-se parte da patota. Sem emprego na prefeitura, já que trabalhava comigo e Celso Nascimento, Szyja Ber Lorber e Walter Schmidt, Benedito Pires, Dante Mendonça, Ruth Bolognese, Toninho Vaz, Tereza Urban, Luiz Manfredini – na redação de Voz do Paraná (que eu dirigia, ao lado do médico Roaldo Koehler).

O Lá no Pasquale e o Juarez não mais existem. Os tempos são outros, Jaime talvez não tenha o mesmo ‘gás’ dos anos 1970. Para íntimos tem dito que “um homem, depois dos 50, tem todo o direito de escolher com quem anda, o que bebe e o que come”.

O que se vê é Jaime às vezes acompanhado de amigos, como Deiró, Guelmann e/ou Dante. Faz aperitivo num bar e restaurante do Juvevê, de nome ‘Paraguaçu’, que não sugere nenhuma redescoberta do tempo perdido.

Mas ali, na quietude de uma mesa, exerce à plenitude a verdade da sua máxima: companhias, bebida e comida de primeiríssima qualidade.

 

 

BRT – Bus Rapid Transit

BRT (Bus Rapid Transit) é um sistema de ônibus de alta capacidade que provê um serviço rápido, confiável e eficiente. Apesar de sua origem, o BRT tem pouco em comum com os sistemas tradicionais de ônibus. Com a utilização de corredores dedicados e outras características atrativas dos sistemas de transporte urbano sobre trilhos, o BRT atinge um desempenho equivalente com apenas uma fração do seu custo.

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Canaleta da Avenida Paraná, 1972. Foto: IPPUC

Na maioria dos BRT implantados com sucesso, as seguintes características estão presentes:
• Corredores dedicados para a circulação do transporte coletivo;
• Embarque e desembarque no mesmo nível dos veículos, tornando o processo mais rápido;
• Sistema de pré-pagamento de tarifa;
• Veículos de alta capacidade, modernos e com tecnologias mais limpas;
• Transferência entre rotas sem incidência de custo;
• Integração com outros modais de transporte;
• Centro de controle operacional;
• Priorização semafórica;
• Informação em tempo real ao usuário;
• Acessibilidade universal.

Implantado pioneiramente em Curitiba, o BRT é um conceito flexível, que pode ser configurado especialmente para o mercado a que serve e ao ambiente físico onde opera. Atualmente o sistema existe em mais de 160 cidades ao redor do mundo e tem se tornado uma das escolhas mais viáveis e eficientes para qualificar a mobilidade urbana em 38 países dos cinco continentes.

Os sistemas BRT também têm demonstrado potencial para reduzir drasticamente as emissões de CO2, uma vez que, para sua correta implantação, é realizada uma otimização das rotas existentes. Um exemplo do seu impacto na mudança do clima é a operação do Metrobús (BRT da Cidade do México), que, com a inauguração de sua quarta linha, em 2012, está reduzindo 110.000 toneladas de CO2 emitidas por ano, ao mesmo tempo em que melhora a mobilidade de 200 milhões de passageiros por ano. Este sistema BRT foi concebido e implementado para servir pelo menos 800 mil passageiros. (www.embarquebrasil.org).

Canaleta da Linha Verde, 2013. Foto: Mario Roberto Duran Ortiz

Canaleta da Linha Verde, 2013. Foto: Mario Roberto Duran Ortiz

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