Madeleine, mon amour!

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Foi amor à primeira vista. Caminhava pelos corredores do metrô parisiense, e ao chegar à estação Sèvre-Babylone em S.Germain, avistei Madeleine através de um vidro protetor que me separava do local onde estava a minha futura amada. Olhei para ela com grande curiosidade e a desejei imediatamente. Fiz a aproximação, ganhei sua atenção, cheirei e finalmente a comi. Nunca mais deixei de amar Madeleine. Até hoje sinto uma saudade danada daquele dia inesquecível quando a conheci em minha primeira viagem a Paris. Esse amor tinha tudo mesmo para ser eterno, pois assim como Proust no seu Um amor de Swann, primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido, “senti-me como um infante plenamente revigorado quando literalmente a devorei com a avidez dos apaixonados”.

Pois bem! As Madeleines são tão irresistíveis, que se tornaram uma obsessão gastronômica inexplicável. Quase sempre devoro um pacotinho inteiro quando as encontro nas máquinas de doces e refrigerantes que infestam as estações de trem e metrô de qualquer cidade da França. Foi uma sorte danada devorá-las logo na primeira vez em que pisei na cidade luz, e logo num dia em que estava morrendo de fome e dei de cara com elas naquela maquininha infernal no metrô parisiense. Não sei o porquê optei por elas dentre umas duas dezenas de doces expostos naquela pequena vitrine, mas certamente seu desenho em forma de vieira de S. Jacques, com aquelas estrias, é quase certo que foi o que me chamou a atenção. O certo é que passei a perseguir Madeleine por onde andava em Paris, quiçá nas boulangeries espalhadas pela cidade. Aliás, cada lugar tem uma receita diferente para a Madeleine, e, no entanto, todas são adoráveis. Só as de pacotinho de máquinas são sempre parecidas, mas igualmente deliciosas.

As Madeleines têm um histórico de diversas origens, desde a mais provável na cidade de Commercy, na região da Lorena, cuja estação de trem lotava de vendedoras desses saborosos bolinhos, bem como na minha versão preferida, qual seja, a de que elas foram assim batizadas em homenagem a uma mulher chamada Madeleine, que as usaria para alimentar os peregrinos do Caminho de Santiago, a longa rota que atravessa o Norte da Espanha a partir da fronteira com a França, em direção a Santiago de Compostela, na Galícia, e cujo símbolo é justamente uma concha de vieira. Confesso que adoro essa versão, porque assim explicaria o peculiar formato desses igualmente saborosos moluscos. Minha paixão pelas Madeleines se tornou então uma fixação “doentia” e que continuou pelo Brasil afora porque ainda as procuro com alto grau de dificuldade para encontrá-las. Passados vários anos, entendi que se queria levar adiante esse caso de amor, seria mais fácil produzi-las em casa mesmo, e minha mulher sabendo dessa minha paixão passou a procurar suas formas sempre que íamos ao exterior, porque sem o peculiar formato de vieira, a Madeleine é apenas um bolinho muito gostoso, perdendo sua beleza feminina e natural que tanto me fascinara.

Finalmente compradas em Paris, lugar de nascimento desse amor à primeira vista, pude então degustá-las com um imenso prazer, pois fabricadas com afinco e rara destreza na receita original pela principal testemunha desse caso amoroso. Senti-me, então, como se ainda estivesse naquela estação de metrô de Sèvre-Babylone, suspirando a cada mordida e dizendo no íntimo: Madeleine, mon amour!

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