Metamorfose, a barata sentimental de Franz Kafka

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Você é Grégor Samsa, um rapaz sensível, delicado e estudioso, que se vê, repentinamente, lançado à vida adulta por uma necessidade imperiosa: a pequena empresa criada por seu pai, que havia garantido o sustento da família por muitos anos, acaba de falir. Como consequência disto, você vê a vida do patriarca tornar-se um exercício de falência: velho e cansado, ele passa os dias no sofá, sem nunca tirar o pijama e falando raramente. Não fosse pela leitura matutina dos jornais – que ele faz, todos os dias, em voz alta, para sua mãe –, poderia se dizer que a presença do pai equivale à de um fantasma. Quanto à mãe, não é menor o rosário: sofre de asma, cuida da casa com dificuldades e não pode ir além das tarefas cotidianas, que já são muitas e pesadas. O único consolo que você, Grégor Samsa, tem, é a irmã, uma espécie de anjo, que parece pertencer a outra categoria: tem dezessete anos, talento para o violino e o sonho de tornar-se uma grande violinista. Trata-se de uma princesa, você pensa, e como tal deve ser tratada. E o papel de cuidar dela só pode caber a uma pessoa: você.

 

Vendo as dificuldades da família crescer, acompanhando o melancólico espetáculo de impotência oferecido pelo pai, você não vacila em abandonar os estudos e abraçar uma carreira comercial. Como não lhe faltam método e dedicação, a evolução é imediata: seu chefe passa a valorizá-lo, da mesma forma que exacerba as exigências. Atrasado, senhor Grégor? Como estão as vendas, senhor Samsa? Sua vida, então, se resume a acordar às quatro da manhã, pegar um trem às seis horas, chegar ao trabalho exatamente às quinze para as sete e trabalhar pesadamente até as 5 da tarde. Isso quando não está em viagem. Nestas sucedem–se os trens, os hotéis baratos, as cidades distantes, marcas entediantes na vida do representante comercial que tornam-se, então, a sua vida. Os estudos, que tanto prazer lhe davam, agora dão lugar aos compromissos; a divagação teórica, aos prazos e aos resultados. E eles são muitos, inúmeros, intermináveis. Irrealizáveis.

 

Mas todo esforço também tem suas compensações. Graças ao seu trabalho e persistência, a vida familiar toma um novo rumo. Com o aporte financeiro que o seu novo ofício garante, mudam-se para uma nova casa. Seu pai, escravo de um mutismo constrangedor, passa a saudá-lo com alegria quando você sai pela manhã e quando retorna no final do dia – ou depois de uma viagem –, exausto e acabado. A mãe cuida da sua comida e arruma seu quarto, repleto de móveis antigos da família. Sua irmã pode dedicar-se a seus pendores, abandonando-se ao violino e aos seus sonhos, sem saber que, muito em breve, terá uma surpresa: depois de amealhar uma pequena poupança, você se prepara para anunciar que ela, finalmente, vai poder estudar em uma escola de violino clássico. Mas ela nem precisa saber disso para cobri-lo de carinhos e cuidados. Você chega até a achar que todo esforço vale a pena quando olha para ela, ou quando a ouve tocar. Até que, naquela manhã, a fatídica manhã depois de uma noite atormentada por pesadelos terríveis, você, Grégor Samsa, acorda Franz Kafka. Ou melhor: você, Grégor Samsa, acorda e vê-se em sua cama como uma barata gigante.

 

Sucede-se, então, uma sequência de desastres, onde você tem de adaptar-se à sua nova condição. Não é só o seu aspecto que muda: como não pode mais oferecer o sustento que a família necessita, você se vê sendo gradativamente desprezado por todos – até pela sua doce irmã. Quando a família se vê obrigada a aceitar inquilinos para garantir a sobrevivência, você se torna uma vergonha a ser escondida, uma excrecência a ser isolada, permanecendo em seu quarto até o dia em que, seduzido pela música divina que vem da sala – tocada por sua irmã – você se aventura para fora do seu espaço e – supremo desastre – é vislumbrado pelos inquilinos, que se recusam a permanecer em um lugar onde vive uma atrocidade como você. É quando, humilhado pelos estranhos e pelos que mais ama, você percebe o inevitável.  Grégor Samsa, o mundo se esqueceu de você.

 

f200911250821901_denik-1024Desde que surgiram, no tempo em que os grandes sistemas políticos estavam em ascensão, as histórias de Franz Kafka, um tcheco cuja vida foi encerrada pela tuberculose aos 41 anos, pareciam falar de algo maior, do chamado absurdo humano. Com metáforas violentas,  distorcendo a realidade até o estado da deformação, elas diferenciavam-se de tudo que se fazia e do que havia sido feito até então. Nelas, o grotesco surgia não mais com os sentidos alegóricos ou satíricos a que a sensibilidade e a inteligência europeia haviam se acostumado. Algo novo irrompia: um grotesco sem alegoria de qualquer espécie, quase uma engrenagem que de repente fosse paralisada pela intervenção do humano em sua dinâmica.

Isso representaria uma extraordinária ruptura, não só de gênero literário, mas também da forma como se via e concebia o ser humano. Insurgindo-se contra a soberania das visões realistas e naturalistas, o olhar de Franz Kafka desviava o foco do coletivo em direção a um sujeito novo, o homem vítima das engrenagens que o próprio homem havia inventado e dos personagens que ele mesmo havia criado; pequeno e impotente diante de uma selva real, simbólica e incompreensível, para qualquer ponto de vista.

Ao introduzir esse personagem – multifacetado em tantas variantes –, Kafka provocaria uma erosão na ideia de indivíduo, ou melhor, na ideia de indivíduo como havia sido concebida desde a tradição greco-romana, recolocada no dualismo judaico-cristão e reciclada no Ocidente das ciências e das luzes. Kafka traria, para a literatura, uma possibilidade que a pintura ainda não havia intuído: fazer da distorção, da fragmentação, da crueldade e da sinceridade instrumentos da construção artística.

Em cada diálogo com a parábola, com o conto, com o romance, com a fábula ou com tantos outros gêneros literários aos quais se atirava – com invariável maestria –, Kafka parecia dizer, de forma bem clara: o homem contemporâneo não é mais o homem medieval; muito menos o renascentista, o iluminista ou o positivista de outros tempos. Uma guerra se interpunha entre eles. Uma guerra e uma nova realidade: a solidão urbana de uma cidade europeia era um fenômeno completamente novo na vida humana. Da mesma forma, o tempo cronometrado da operação pós-industrial, com a estruturação dos sistemas públicos e a explosão dos sistemas industriais, afrontava temperamentos sensíveis e delicados, como os do jovem Franz.

Kafka descrevia o mundo ao seu redor como o via: insípido, sórdido, cruel; mas o que resultava dessa perspectiva era algo profundamente humano

Dom Quixote havia nascido de um delírio com os livros. Sua loucura é literária, como o são as de Gulliver. Sua perspectiva é a de um mundo olhado de fora para dentro: Cervantes e Swift transitavam nas esferas mais sofisticadas da sociedade, Cervantes na nobreza espanhola, Swift na Londres da imprensa. Kafka, não. Kafka não era nada. Kafka não era ninguém. Kafka não transitava em lugar nenhum que não fossem as ruas de Praga, não era ancorado por nenhuma tradição nem por qualquer ambiente inspirador.

Nos retratos em que o jovem escritor aparece com a família isso se revela de forma brutal. O que vemos ali é um sujeito absolutamente insignificante, sem nada capaz de distingui-lo do mais comum dos seres. Mas como explicar que da mente daquele ser insignificante nasceriam algumas das histórias mais tocantes do nosso tempo?

Kafka descrevia o mundo ao seu redor como o via: insípido, sórdido, cruel; mas o que resultava dessa perspectiva era algo profundamente humano. Amor e humor e tragédia; tédio e paixão e compaixão: elementos aparentemente díspares, de repente confluíam para configurar um novo mundo, ou um novo termo: kafkiano. Este passaria então a significar e a definir, para a posteridade, um certo tipo de situação que nos parece familiar e impossível ao mesmo tempo, como são familiares e impossíveis tantas das situações e das percepções que temos em nossa vida diária.

Por isso, entre todos os contos de Franz Kafka, Metamorfose é sempre um momento inaugural na vida de qualquer leitor, seja ele lido em que idade for. Com sua pungência e simplicidade, ele nos faz enxergar nas augúrias e no destino do pobre representante comercial (cujo maior desejo era proporcionar um futuro melhor para a irmã-violinista), um pouco da condição de cada um de nós, independente de nossas histórias particulares.

E isso talvez porque hajam muito mais semelhanças do que diferenças entre os orgulhosos representantes de uma era de tantas revoluções cibernéticas e de costumes – como a nossa – com aqueles que nasceram em um período onde essas revoluções apenas se esboçavam, como o jovem Franz Kafka.

Somos, ambos, condicionados por duas ideias básicas que marcaram a história dos tempos modernos e contemporâneos: de um lado, a persistência dos ideais aristocráticos, que distinguem e separam; de outro, a ideia de progresso, que assemelha e inclui. Na época e no tempo de Franz Kafka, as duas noções se deslocavam do seu projeto original.

O homem kafkiano não tem rosto, não tem imagem, não se distingue de uma engrenagem. Ou de um inseto

De um lado, a ideia aristocrática, esvaziada de seu sentido, era absorvida por uma classe que aspirava a uma condição distintiva. De outro lado, o progresso, depois de 30 anos (a partir da guerra Franco-Prussiana) de apogeu, chegava ao seu esgotamento, corroído pela dissídia entre as nações, dissídia movida pelas invejas diplomáticas e as pretensões totalizantes.
Comprimido no vácuo entre essas duas forças surge um homem novo, ridículo e minúsculo.

Ele não alcança uma nem é capaz de desfrutar da outra. Enredado nas complexas tramas que são criadas para dar sustento ao combate entre esses dois titãs, ele aspira a um estado que não tem – o aprimoramento no violino, as finesses de uma arte aristocrática –, e a uma condição muito difícil de conseguir – o sucesso pessoal. Vê-se assombrado pela condição de tornar–se o que Grégor Samsa se tornou, um reles representante comercial obrigado a abandonar os estudos e a seguir uma vida e uma carreira sem perspectiva. E nada o apavora mais que isso.

O homem kafkiano é o personagem que não se vê, excluído dos benefícios do sistema produtivo e de produção de imagens, por um lado, e dos benefícios de toda sofisticação, por outro. Ele não tem rosto, não tem imagem, não se distingue de uma engrenagem. Ou de um inseto.

Exatamente por isso ele pode transformar-se em qualquer um dos dois.
Com uma diferença: a máquina de Kafka é uma máquina que chora.
O inseto, uma barata que sente.

 

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