O inominado

anao

O anão filósofo e ladrão – Parte I

 

Indiferente às lágrimas indecisas e tediosas da decorosa viúva e o sorriso mal disfarçado da encantadora e inconveniente amante, vulgar como toda mulher que troca a ambição pela avidez e sem qualquer estremecimento emotivo, eu observava o defunto: um advogado que ganhara a vida dialogando com gente desprezível e não teve o bom gosto de morrer jovem. Tinha rosto opaco como a mortalha e liso como a tampa do caixão, efeito da maquiagem que pretende fazer o morto menos repugnante à curiosidade dos vivos. Na verdade um gasto desnecessário, a morte atrai mais que a vida.

Ama-se mais o morto que o vivo, defuntos viram mestres ou doutores em alguma coisa, homenagens que não se prestaram em vida são feitas na morte. Talvez por que só exista solidão na morte e a vida uma coletiva servidão. Ao homenagear o morto, homenagea-mos o “cadáver adiado”, talvez por que o homem somente é levado a sério na morte, quando lhe ressaltam as qualidades que sequer teve em vida, vivos ninguém acredita na gravidade de nossos sentimentos, somos sempre duvidosos à mercê da tragédia.

 

O anão

— Desculpem minhas sombrias meditações, divago. Deixei o local em silêncio de gaveta trancada que foi interrompido por um rosnado alto seguido de uma gargalhada metálica e cruel, ao olhar para baixo me deparei com um rosto feroz e malévolo de impressionante e proverbial feiura que me causou natural e imediata repugnância.
O homem era naturalmente abominável, portava algum tipo de deformidade, porém eu não saberia indicar a anomalia, era de baixo talhe, nanico e pálido, tinha uma cabeça enorme e calva, rosto arredondado, maxilar protuso, nariz grande e redondo, olhos inquietos que pareciam se desprender daquela máscara abjeta, quando falava não conseguia segurar a língua dentro da boca, expondo-a junto com dentes acavalados.
— Aquele rosto parecia ter “a assinatura de Satanás”.
— O que deseja?

Ele abriu um sorriso cínico que expôs a arcada dentária como um asno a relinchar e deixou no ar uma advertência, que por alguns segundos me fez suspeitar que tivesse conhecimento de meus segredos.
— Perdoe-me a indiscrição, mas notei sua presença habitual nesses funestos encontros e vejo que você não demonstra a mais tênue inquietação espiritual, concluo que sua presença está atrelada a outros interesses. A julgar por sua aparência invulgar e a leveza como circula entre as pessoas, vejo que não se trata de um prazer ordinário, uma tara. Não, o senhor tem dentro de suas entranhas o gosto da morte, um desejo que cutuca a mente e fica atazanando o espírito.

Ante a advertência, senti um temor ridículo que foi logo dissipado, eu poderia facilmente matar o anão curioso e me livrar do insidioso assédio ali mesmo, porém minha curiosidade poupou a vida da criatura. Não queria amizade, porém farejei cumplicidade e repliquei sobriamente.
— Morrerei adormecido sobre meus segredos, não costumo compartilhar meus interesses com outras pessoas, não gosto de bisbilhoteiros.
— Eu, de boa vontade, não compartilho nada com quem quer que seja. Nessa vida já fiz de tudo um pouco, fui com o circo aos sertões, rolei nos semáforos das grandes cidades, menti e cometi desatinos, conheci as artimanhas do amor e da cobiça e a ingratidão, perambulei pela vida como passageiro errante carregando minha fatalidade biológica perante o escárnio e o desprezo dos homens. Meu temperamento jamais rogou aceitação. Uma humanidade acostumada a compactuar com monstruosidades, aceitar a infâmia e a consumir na insaciável fossa da intolerância novas vidas, nunca me pareceu digna de qualquer afeição ou justificação. Cansado de viver de esmolas da minha triste aparência, tomei meu lugar na comédia da vida, rindo, um protagonista de beleza excêntrica, mas protagonista. Aliás, permita que me apresente:
— Salviano: anão, filósofo e ladrão, ao seu dispor.

Apesar da aparência singular, ele demonstrava destreza e requintava na teatralidade, não queria ressuscitar rancores, mas demonstrar sóbria aversão pela sociedade, uma espécie de lídima vingança que uma alma atribulada pela humilhação cotidiana pode legar à zombaria, mantinha um escrúpulo ilusório e um obstinado desdém pelo destino dos homens.
— Filósofo? Ladrão? Perguntei sem alterar a voz morna.
— Sempre gostei de meditar sobre o triste destino do homem, viver a prazo, curto ou longo, uma prestação que nunca acaba e no final sempre resta a conta a pagar. Para mim pouco importa um minuto a mais ou a menos, não diminui a angústia de estar preso à duração concreta do meu corpo, como diria aquele centenário romancista da Argélia, talvez o suicídio seja a única ideia sobre a qual valha pensar.
— Na falta de caráter, precisava de um método para ganhar a vida. Foi nos obituários que não se limitam a nomear o morto, mas proclamar onipotências, que encontrei meu ganha pão e fiz modesta fortuna aliviando bolsas e carteiras. Das viúvas, dos homens em seu sofrimento viril e até das indiscretas amantes furtei, e alguns defuntos também despojei. (Continua)

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