Prateleira. Ed. 146

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Doris Lessing

Doris Lessing (1919-2013)

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Doris Lessing morreu domingo, 17 de novembro. Tinha 94 anos. Nasceu em Kermanshah, no curdistão iraniano, onde o pai era funcionário do Banco Imperial da Pérsia. A família transferiu-se em 1923 para a Rodésia do Sul (atual Zimbábue), onde Doris permaneceu até 1949. Naquela antiga colônia britânica viveu durante 26 anos, tornou-se comunista, casou duas vezes e teve três filhos. Lessing é o apelido alemão do segundo marido. Depois de abandonar a África, o segundo marido e os dois filhos do primeiro, tornou-se escritora e feminista. Tinha 30 anos. Em 1954 rompeu com o comunismo. Nos anos 1970 aderiu ao sufismo, talvez por influência do filósofo afegão Idries Shah. Nessa altura passou a escrever livros de ficção científica. A série em cinco volumes Canopus em Argos (1979-1984) é justamente considerada um clássico do gênero. Entre 1950, ano em que se estreou com a história da relação amorosa entre a mulher de um fazendeiro branco e um criado negro, e 2008, o ano de Alfred and Emily, publicou setenta livros: de ficção (dezessete romances e igual número de coletâneas de contos), ensaio, poesia, teatro e quatro volumes de memórias, entre eles o magnífico Under My Skin (1994), que cobre os anos rodesianos e a dissidência comunista. Ícone do politicamente incorreto, recusou o título de Dame e recebeu o Prêmio Nobel da Literatura em 2007. Vários dos seus livros estão traduzidos no Brasil.

Albert Camus

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Fragmento do notável discurso pronunciado em 10 de dezembro de 1957, quando, de fraque alugado para a ocasião, Albert Camus recebeu em Estocolmo o Prêmio Nobel da Literatura.
“O papel do escritor (…) é inseparável dos imperativos difíceis. Por definição, ele não pode colocar-se ao serviço daqueles que fazem a História. Se o fizer, ficará só e privado da sua arte. Os exércitos da tirania, com os seus milhões de homens, serão incapazes de libertá-lo dessa solidão definitiva, ainda que possam marchar ao seu lado. Já o silêncio de um prisioneiro desconhecido, abandonado à humilhação do outro lado do mundo, bastará para retirar o escritor do exílio, de cada vez que, pelo menos, este consiga, recorrendo aos privilégios da liberdade, impedir que esse silêncio permaneça ignorado, fazendo-o ecoar pelos meios que a sua arte fornece.

Nenhum de nós é suficientemente grande para cumprir uma tal vocação. Mas em todas as circunstâncias da sua vida, obscuro ou momentaneamente célebre, atirado às feras da tirania ou livre para se exprimir, o escritor pode reencontrar o sentimento de uma comunidade viva que o legitimará, na condição única de assumir enquanto puder as duas tarefas que fazem a sua grandeza: o serviço da verdade e o da liberdade. (…) Não pode acomodar-se à mentira e à servidão que, lá onde imperam, multiplicam as solidões. Sejam quais forem as nossas fraquezas pessoais, a nobreza da atividade do escritor radica-se sempre em dois compromissos difíceis de manter: a recusa de mentir sobre aquilo que sabemos e a resistência à opressão.”

A Infância de Jesus

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Depois de cruzarem oceanos, um homem e um rapaz chegam a uma nova terra onde recebem um nome e uma idade, são alojados num campo enquanto aprendem espanhol, a língua do seu novo país. Agora chamados Simón e David, dirigem-se ao centro de realojamento da cidade de Novilla, onde os funcionários são corteses, mas não necessariamente prestáveis. Simón arranja emprego. O trabalho é invulgar e extenuante, mas ele não tarda a estabelecer relações com os seus colegas estivadores, que nas horas vagas mantêm diálogos filosóficos sobre a dignidade do trabalho e de uma maneira geral se afeiçoam a ele.

Assume então a incumbência de localizar a mãe de David. Embora, como todos os que chegam a este novo país, ele pareça estar limpo de todos os vestígios de recordações, tem a convicção de que a reconhecerá quando a vir. E, efetivamente, ao passear pelo campo com o rapaz, vislumbra uma mulher que tem a certeza de tratar-se da mãe dele, persuadindo-a a assumir esse papel. A mãe de David vem a aperceber-se de que está em presença de uma criança excepcional, de um rapaz inteligente e sonhador, com ideias muito invulgares sobre o mundo. As autoridades acadêmicas, porém, detectam nele um traço de rebeldia e teimam em que seja enviado para uma escola especial distante. A mãe recusa-se a entregá-lo e é Simón que tem de conduzir o automóvel durante a fuga do trio pelas montanhas.

Marcio Renato dos Santos em alemão

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Marcio Renato dos Santos, um dos principais nomes da literatura contemporânea paranaense, acaba de ter um texto publicado na Wir Sind Bereit – antologia de contos lançada na Alemanha, que procurou reunir o melhor da literatura brasileira.

Marcio participou da publicação com o conto inédito O segredo da bem-aventurança de Chuni Kuni, que em alemão ficou Das Geheimnis der Glückseligkeit Chuni Kunis. Segundo o autor, “O convite foi uma surpresa e essa publicação é uma grande oportunidade para ser lido por um novo público”.

E a oportunidade de ser lido por um novo tipo de leitor parece ganhar força. A agente literária do contista comenta que há interesse de uma editora da Polônia em publicar a ficção do autor. A editora polonesa acompanhou a coletânea alemã e se interessou pela literatura do escritor curitibano.

O contista já tinha participado da antologia O Livro Branco, que convidou um seleto time de autores para escrever contos inspirados em músicas dos Beatles. Para além das coletâneas, Marcio tem dois livros de contos publicados: Minda-au (Editora Record – 2010) e Golegolegolegolegah! (Travessa dos Editores –2013).

Lugares Imaginários

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Flaubert deixou inacabado o seu Dictionnaire des Idées Reçues, no qual trabalhou toda a vida. A obra teve publicação póstuma em 1913, após fixação de texto de Étienne-Louis Ferrère. Não podemos deixar de pensar nos lugares-comuns de Flaubert agora que chega à edição portuguesa o Dicionário de Lugares Imaginários que Alberto Manguel e Gianni Guadalupi publicaram em 1980. Manguel escreveu para esta edição um prefácio inédito, datado da última primavera, embora o volume inclua também o prefácio de 1980. São mais de mil páginas em papel bíblia de 60 gramas, que Carlos Vaz Marques (coordenador da coleção) e Ana Falcão Bastos traduziram. Não foram esquecidas as ilustrações de Graham Greenfield e Eric Beddows, bem como os mapas de James Cook. A edição original foi escrita em língua inglesa, e a tradução espanhola é de 2000. Não obstante o apoio à edição da Comissão Europeia, no âmbito do Programa Cultura, trata-se de uma edição de risco que a Tinta da China assume com brio.

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