Senso prático

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Sou desprovida de senso prático. Zero, nada, niente. Sabe quem eu sou? Sou aquela pessoa que leva o carro à oficina e esquece a chave de casa lá dentro. E só percebe quando chega à porta.

Aí, no caminho até o chaveiro, senta na padaria da esquina e escreve uma crônica. Porque o tempo não faz sentido para quem não tem senso prático.
Um ser normal, dotado do tal senso, perceberia, por exemplo, que está há três horas em uma loja de utilidades domésticas. Ou há duas em uma papelaria. Notaria que já incomoda vendedoras e deixa ressabiados os demais clientes.

Mas eu não sou normal. Sabe quem eu sou? Sou aquela pessoa que se perde dentro de shopping. Que se perde na rua, que se perde no supermercado, que se perde até em banco. Que entra em uma galeria à esquerda e, ao sair do outro lado, caminha para a esquerda novamente, assim tomando o caminho de volta por engano.

Sou aquela pessoa que pensa que vai em direção a Santa Felicidade, mas sempre acaba no Portão. Coisa que só percebo ao ficar presa nas avenidas cheias de canaletas de ônibus, sem nunca conseguir sair. Nunca. Encontram-me um mês depois morta de inanição ainda procurando como fazer aquele quadrado que liberta do labirinto.

Pois. Nada de senso prático. Eu só tenho senso estético. Saio por aí achando tudo bonito. Não me mostrem caminhos, mas capas de livro, caderninhos, batedeiras coloridas. Sou capaz de ficar horas admirando as linhas, as formas, a engenhosidade.

São coisas que só apetecem a gente como eu, deficientes de vida quotidiana. Gente eficiente não usa caneta tinteiro. Não usa lápis, compra só BIC. Esferográfica me serve apenas para fazer cruzadinhas. Mas gente com espírito prático não faz cruzadinhas, paga contas.
Porque o tempo, para quem é prático, é destinado ao que lhe é útil. Gente prática só se interessa pelo que tem utilidade, pelo que tem função. De preferência múltiplas funções, do tipo lava, seca e centrifuga. Funções a sair pelo ladrão. Minto. Que gente prática não desperdiça.

Gente prática come como passarinho e adora sobras de geladeira. Isso porque “você deve comer para viver e não viver para comer”. Gente prática vê obra de arte e diz: “meu sobrinho de três anos faz igual”. Ou comenta: “não dá trabalho para limpar?”. Gente prática é, como você vê, um bicho completamente diferente.

Diferente de mim, pelo menos. E suspeito que seja coisa inata, algo genético que alguém muito prático pode lhe explicar melhor. O homo pragmaticus só pode ter outros genes, um par ao menos que a mim não deram.

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