Silêncio

shhh

Não fale. Eu acho que vamos bem assim! As palavras estragam, revelam, contam o que deveria ser descoberto pelo olhar e pelo gesto.
Não fale. Eu prefiro adivinhar pensamentos. É empresa difícil ler o corpo, mas é prazer garantido descortinar os mistérios.
Eu gosto de vê-lo chegar aqui, mudo, mãos nos bolsos, fio de suor na testa, escondido em silêncio e revelado em olhar. Gosto de sabê-lo quieto, absorto: mistério de mar.
Não fale. As palavras pretendem o impenetrável, são algozes da felicidade do achar. Gosto que a boca beije, que olhos digam e que as palavras se guardem. Guarde as palavras.
Mas, antes de tudo, não pergunte. Eu não quero dizer. Sentir, sim. Falar, não. Não me pergunte. Eu não tenho resposta, não sei dos dizeres, calo sem latim.
Que sentido pode ter em usar a palavra saudade para dizer que meus dias não são os mesmos quando você está longe, que eu nem sei como consigo passar as horas e que fico a imaginar o que faz? Isso não é saudade, é outra coisa, mas se eu falasse talvez a usasse para poupar tempo e você não saberia de fato o que sinto. Mas se não me perguntasse e me olhasse em zoom e me beijasse em mar, saberia.
E se eu contasse do amor, falaria de quê? Frases de todos, ideias alheias, palavras de outros. Mas se em rodopio me pendurasse em seu pescoço, se enlaçasse minhas mãos nas suas, se nos tocássemos, você conheceria a verdade.
Os amantes se reconhecem na abstenção das palavras, no desprezo aos poetas, no descanso da língua. No descanso da língua. No descanso da língua.
Eu gosto de chegar aí, com os pensamentos na ponta da língua e contá-los assim, a derramar saliva.
Não me pergunte. Adivinhe. Descubra. Saiba.
Silêncio.

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