Bolo das famílias

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Soube da história faz alguns meses, guardei-a para uma data especial, intrigada com a origem e com a responsabilidade em preservá-la, pois parece que as dificuldades de se fazer várias camadas da massa de um bolo de chocolate, cortá-las e recheá-las têm afugentado as novas gerações da responsabilidade de dar continuidade a uma tradição familiar. Conheço o doce, que é coberto por uma camada de merengue, com suspiros provocativos e estrategicamente colocados, há muitos anos, desde que comecei a frequentar os aniversários da família, na época em que a brincadeira preferida era com bonecas. Quando oficializei a entrada no clã, a coisa ficou mais séria. Já carregando o sobrenome, experimentar o doce passou a acontecer com mais frequência, todos os filhos e netos ganham nos aniversários, visitas e familiares aproveitam. É disputado, até motivo de brigas, nada sérias, é claro, e de sabor inesquecível. Que eu saiba, nenhuma descendente das mulheres, que carregam o mesmo sobrenome, faz. Dizendo isso, imagino que o leitor já adivinhou quem resolveu enfrentar o desafio.

Até hoje, alguma coisa inexplicável no meio do caminho afastou-me da intenção de prepará-lo, talvez contaminada pela preguiça de enfrentar alguns desafios culinários, também, a sombra da sogra, que o faz com perfeição, deve ter inconscientemente ajudado, sempre perdia a receita, desaparecia quando ameaçava enfrentá-la. Pensada para presentear os leitores, a intenção reapareceu. O responsável merece crédito, foi um primo, que, certa feita, vendo a foto do “bolo das famílias” no Facebook, arriscou uma mensagem cutucando-me com o assunto, eu peguei a isca, no intuito de publicar a origem da tradicional sobremesa e finalmente me atrever ao adiado teste. Sou chegada a uma história que termine em comidas e doces.

Conta ele que a receita é secular, foi trazida ao Brasil pela família Boutin e transmitida aos descendentes dos Heisler a partir do casamento de Bertha Boutin com Alfredo Heisler em 1882. “A receita original deve ter sido criada em Ovendorf, morgado de propriedade dos Boutin nos arredores de Hamburgo, talvez até adaptada de tortas do sul da França, pois a família era originária da região do Languedoc, de onde emigrou para a Alemanha por motivos de perseguição religiosa aos huguenotes”, contou. Os huguenotes eram os franceses protestantes, a maioria calvinista. E, assim, tradições culinárias eram transferidas para outros países.

Imaginando a saga da família e querendo saber mais, fui perguntando como ele descobriu a história.
Curioso, contou-me que achou alguns livros escritos pelo bisavô Heisler, que foi deputado, capitão da guarda nacional, joalheiro, historiador nas horas vagas e genealogista de mão cheia. Mary, mãe do narrador da história do bolo, e Marian, minha sogra, são primas e aprenderam com as avós, que eram irmãs, Clara Heisler Berndt e Anna Heisler Quentel. “Todas as mulheres Heisler/Boutin fazem a receita até hoje, menos minhas irmãs”, reclama ele; da parte de Marian a história também se repete, nenhuma se aventurou até a minha chegada. “O certo é que a receita foi trazida pelos Boutin ao Brasil, mais precisamente para Joinville, onde os primeiros imigrantes da família se instalaram, por volta de 1862”, afirmou, cutucando esta que vos escreve para não deixar a receita cair no limbo, imagino que com segundas intenções, e lembrando que originalmente o bolo era feito com chocolate picado, depois substituído pelo chocolate em pó (o da caixinha, conhecido como “chocolate dos padres”) e, nos anos 60, pelo Nescau. Troca não recomendada por mim, porque dou preferência sempre aos sabores mais puros.

Desejo que 2014 venha doce na medida certa, como o nosso bolo, para dar energia. E entenderei se você também achar que é muito trabalho, porém, gosto de lembrar que na vida as melhores coisas que alcançamos vêm depois de algum esforço e muita dedicação. Vale a pena tentar, consegui fazer, porém, não como imaginava, meu suspiro resolveu encrespar e o bolo não ficou tão bonito, estava também estreando o forno novo, porém, obtive o mesmo disputado sabor. Descobri que a dificuldade está em assar as quatro camadas da massa, que são finas e ameaçam quebrar a todo instante e resistir à tentação de comer no mesmo dia, é preciso paciência, o bolo exige virar uma noite de descanso. Repetirei, afinal, tenho agora a missão de perpetuar a saga familiar de manter a receita viva e presenteá-la aos aniversariantes da família.

 

Bolo das famílias

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Para a massa
200 g de açúcar
200 g de Nescau
400 g de farinha
8 gemas
200 g de manteiga

Misture os ingredientes secos e depois acrescente as gemas e, por último, a manteiga até que desgrude das mãos. Separe em quatro partes iguais. Unte levemente com manteiga uma forma com fundo destacável. Forre com a massa, que deve ficar fina, e asse em forno pré-aquecido por aproximadamente 20 minutos, ou até que esteja bem assada. Deixe esfriar alguns segundos e desenforme, essa operação deve ser rápida, porque se a massa esfriar demais na forma torna-se difícil retirá-la sem quebrar. Depois de assar todos os quatro discos de massa, coloque-os no prato que será servido intercalando com o creme.

Creme
1 l de leite
1 fava de baunilha ou algumas gotas de essência de baunilha
3 gemas peneiradas
4 colheres de sopa de maisena
1 xícara de açúcar
Ferva o leite, acrescente a baunilha e as gemas diluídas em um pouco de leite, com a maisena, sem deixar ferver. O creme deve ficar liso.

Merengue
3 claras
6 colheres de açúcar
Bater as claras até obter o ponto de suspiro, não muito duro, acrescentar o açúcar e bater bem.
Passar em volta do bolo todo já montado e formar pequenos suspiros em cima. Colocar no forno por um minuto e desligar em seguida, deixando descansar e esfriar. Servir no dia seguinte.

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