Curitiba, nosso monstro favorito

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De uma forma ou de outra, todo mundo que vive nesta cidade já ouviu o que ouvi naquele dia, em uma reunião entre amigos. Tratava–se de uma confissão sincera, longa e penosamente elaborada, que se tornava curiosa não pelo que exprimia, mas pela contundência com que era expressada:
— O problema é Curitiba. Aqui não tem nada pra mim.
Em momento algum, o emissor dessa verdade inquestionável levava em conta uma outra possibilidade: a de que sua inabilidade em resolver um dilema básico da vida, isto é, sobreviver em um determinado lugar, a partir das condições e possibilidades que este lugar oferece, tivesse importância. Não. Nada disso. A afirmação partia do pressuposto de que o problema estava fora dele.
O problema, como sempre, era Curitiba.

Seria difícil deixar de interpretar a frase como o sintoma de uma síndrome maníaca que afeta os curitibanos em geral – e consideremos curitibanos, nesse caso, não só aqueles que nascem na cidade, mas todos que vivem aqui há, digamos, mais de dois anos (ou dois meses) – e que se traduz por um raciocínio com pretensões de objetividade: pouco importa o que fizemos ou deixemos de fazer; pouco importa nossa história de erros e frustrações; pouco importa nossa fragilidade, medo ou covardia – Curitiba vai estar sempre lá, disponível, pronta para ser apedrejada e culpada por todas as nossas debilidades.
Esta capacidade que Curitiba tem de metamorfosear-se em monstro devorador de todos os talentos daqueles que nasceram, vieram, ou, simplesmente, vivem aqui, é assombrosa.
Pensemos em outras cidades.
Rio de Janeiro e São Paulo, por exemplo.

Em linhas gerais, a ex-capital e a nova metrópole são criticadas não pelo que são, mas por aquilo a que o crescimento desordenado, a violência urbana e a irresponsabilidade dos seus governantes as condenaram. Na sua essência, são cidades de grandes qualidades; o Rio com seu charme natural e sua ginga cantada em verso e prosa, São Paulo com sua extraordinária capacidade empreendedora. O mal que Curitiba padece, por sua vez, é, segundo seus detratores, de outra natureza: aqui a falha, o furo, o buraco, o mal, está na raiz, na essência do curitibano.

Entre os imensos defeitos que marcam a cidade – ou talvez fosse melhor dizer os curitibanos – um se destaca de imediato e alcança rapidamente o status de unanimidade: gregos, troianos, baianos, cariocas, mineiros, gaúchos, paulistas e mesmo os curitibanos mais curitibanos não se cansam de afirmar que o cidadão que habita esta singela Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais é fechado. Não por acaso a imagem do pinhão vem imediatamente à cabeça, como expressão desse temperamento: principal fruto da terra, o pinhão é duro na casca e brota em árvore dura e espinhenta – o pinheiro. Em consequência deste conceito – ou talvez precedendo o conceito anterior – surge, naturalmente, aquele outro: o curitibano é um conservador.

Mas a coisa não para aí.
Orbitando ao redor desses dois pressupostos, uma panaceia incontável de teorias, suposições e diatribes são elaboradas e jogadas na cara da cidade, quase como uma vingança ou retaliação por todos os sonhos que Curitiba foi incapaz de realizar, por todos os enormes talentos que ela conseguiu sufocar, por tudo que ela provocou e provoca na vida dessa gente tão especial.

Mas o que torna esse fenômeno realmente curioso e particular é o modo como Curitiba reage a esses ataques. É como se a cidade fosse perpassada por uma passividade carmelita. Não ouvimos uma voz, uma voz tímida sequer, uma voz apenas, capaz de dizer um simples “Não é bem assim,” ou um prosaico “Vamos pensar melhor”, que poderia ser tão regenerador.

Calejada na reação de recolhimento diante das tempestuosas alternâncias climáticas, tendo, portanto, já a partir deste – o clima –, uma clara diferença em relação a todas as outras cidades brasileiras, Curitiba se transforma na tela perfeita para a projeção de todas as fantasias e frustrações.

Mas sem me arvorar ao posto de defensor do indefensável, sem aspirar à condição de Dom Quixote das causas perdidas, penso se não seria a hora de reconsiderarmos algumas questões que consideramos tão petreamente sólidas e nos perguntar, como naquela famosa campanha publicitária, se não está na hora de revermos nossos conceitos.

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Sou curitibano.

Dito assim, na lata, é como se alguém revelasse algum tipo de doença grave, que o condenaria a um certo tipo de vida e de comportamento. Mas não há o que possa ser feito quanto a isto. Irremediavelmente curitibano, conheci, nos meus 56 anos de vida passados aqui, muitas Curitibas.

Existe, por exemplo, aquela dos assim chamados melhores anos da vida, isto é, da juventude (mesmo que nem sempre se considere estes como os melhores anos da vida de uma pessoa – bem, mas esta é uma outra história). E aquela era uma cidade bem diferente dessa em que vivemos hoje.

Na minha infância, passada toda no bairro que atende pelo sugestivo e tão curitibano nome de Bom Retiro, o hoje próximo parque São Lourenço era – acreditem, crianças! – um lugar quase inacessível, do qual ouvíamos falar apenas pelos relatos das dezenas de afogamentos que ocorriam em suas cavas todos os fins de semana. O mesmo sucedia com o Barigui, com o Bacacheri e todos os outros. Não havia uma cidade, até então. Curitiba era um vilarejo cercado de poças por todos os lados.

Não pensem, os mais arvorados defensores de trezentos e poucos anos de história, que esqueço da cidade centenária, de tantos poetas simbolistas, de tanta cultura acadêmica, de tantas ruas e histórias encantadoras. Mas se ela era uma cidade suficiente para o final do dezenove e começo do século 20, naquele final de milênio, onde o destino das cidades parecia ser traçado a priori por um ciclo apogeu-decadência, era muito pouco. É certo que havia os cinemas no centro da cidade, um charme nos bares, cafés, confeitarias, barbearias, avenidas e barões do rio-branco de uma capital que, mesmo provinciana, sempre havia aspirado à condição de cosmopolita, diferente, europeia. Mas Curitiba, essencialmente, era uma cidade com limites bem definidos e autárquica em sua constituição. Uma cidade, digamos assim, com ares de repartição pública.

Nos anos 70, porém, justo no momento do turning-point, onde o destino da cidade estava sendo realmente definido, onde a expansão de fora para o centro determinaria, para o bem ou para o mal, o novo rumo de crescimento, a priori em nada diferente do rumo que tantas outras capitais brasileiras tomariam, algo aconteceu.

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Nomeado pelo governador do Estado, Haroldo Leon Peres, em pleno período de ditadura militar, um filho de imigrantes poloneses (o pai tinha começado a vida como vendedor de gravatas, tornando-se, mais tarde, proprietário de uma pequena loja na Barão do Rio Branco, a duas quadras da Câmara Municipal), judeu-polaco e arquiteto de formação, assumiu a prefeitura da cidade. Recém-chegado de Paris, onde tinha ido viver e completar a sua formação urbanística, ele trazia na bagagem um vasto cabedal de ideias inovadoras sobre urbanismo, ancoradas em um saudável e quase infantil carinho pela cidade na qual havia crescido.

Em suas mãos – e com o suporte de uma extraordinária equipe de urbanistas, arquitetos e administradores que ele trouxe para a prefeitura e sustentou ao seu lado, mesmo quando o governo militar opôs-se a alguns nomes – Curitiba começou a se transformar.
Nesta cidade em franca e radical transformação, onde a ideia de encontro, de espaços de troca, convivência e integração entre bairros, pessoas e culturas começava literalmente a ser implantada, a partir de critérios de planejamento urbano originais e adequados à sua realidade, foi que a juventude de muitos jovens curitibanos (todos eram jovens naquele tempo) aconteceu.

Educado, como todo curitibano, a desprezar sua cidade, eu fui, lentamente, me apaixonando e mudando com ela.
Não é preciso se estender em detalhes de uma história que todos conhecem. Mas, em linhas gerais, é preciso dizer que Curitiba, ao contrário de todas as capitais brasileiras e – por que não? – da maioria das capitais do mundo, teve a sorte de, durante mais de 20 anos (descontados alguns acidentes populistas de percurso) ter sido dirigida por uma mesma equipe de pessoas e ter sido construída a partir de um mesmo projeto urbanista e – sim, acreditem – humanista.

Mas o que realmente surpreende nessa história toda foi o modo como o curitibano reagiu a esse impulso renovador.
Ora, sendo, como todas as teorias atestavam ser, um conservador, seria de se esperar que o tal curitibano, incrustado em seu perfil pineáceo, reativo a tudo que, segundo as mais consolidadas opiniões antropocuritibanas, o tirasse do seu núcleo familiar, reagisse a toda essa onda transformadora com a reação instintiva dos enclausurados, isto é, negando-a. O que se observou, porém, foi justamente o contrário: o curitibano não só aceitou como tornou-se o grande apaixonado por tudo que acontecia em sua cidade.
Há um motivo para isso?

Sim. E é um motivo muito claro. Curitiba mudou porque, contrariando, novamente, todos os ditames preestabelecidos, o prefeito nomeado estruturou toda sua estratégia de intervenção em torno de um convite. Um singelo e simples convite. Utilizando-se de uma talentosíssima equipe de comunicação (que jamais pode ser menosprezada em qualquer avaliação histórica que mereça esse nome do período em questão), o alcaide convidou os curitibanos a fazerem, eles próprios, a transformação. Isso criou entre a cidade e os seus habitantes algo que só poderia ser definido por uma palavra: cumplicidade. Os curitibanos tornaram-se cúmplices de uma cidade que se transformava. Instalou-se um espaço para a generosidade.

E se a alma do imigrante é, por natureza, reativa (são tantos os perigos enfrentados pelos nossos ancestrais, do clima aos bichos, da distância à necessidade de sobreviver em um lugar estranho, todos eles acumulados em nossa carga cromossômica), ela revelou, nesse momento, a sua outra face, por tanto tempo vilipendiada: a face sentimental. E como sabe ser sentimental essa mistura de pirogue com polenta que constitui a essência desse ser do planalto.

Mas se a sentimentalidade rediviva é um fator importante, existiria um outro movimento, subterrâneo e objetivo, que iria encontrar-se com esse sentimento latente.

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Como sempre acontece na história da humanidade (e demos graças a isto, pois é desse movimento que se constitui a evolução e transforma-se essa mesma história), sucediam-se as gerações.

Ora, com uma geração esquecendo um pouco mais os ressentimentos e frustrações da geração anterior, surgia no cenário um novo tipo de curitibano, menos afeito às amarguras de uma época que não era a sua e menos identificado com pessoas que, além de sua natural repugnância pela cidade (responsável, como já se disse, por tudo aquilo que não puderam ou souberam realizar), acumulavam o fardo de terem nascido em uma época onde o país adotava sua vintegenária ditadura.

Para esses novos curitibanos – como eu – o regime ditatorial era só um cadáver que ninguém enterrava, ou apenas uma nuvem a encobrir o céu de uma cidade cujo céu é, por natureza, encoberto. Aqui embaixo, onde a vida transcorria em sua rotina e naturalidade, era evidente que as mudanças aconteciam. Elas eram visíveis por toda parte.

Contra tudo e contra todos (parece incrível, hoje, pensar que as coisas aconteceram dessa forma – o futuro é pródigo em criar unanimidades –, mas a força contrária a essa atitude civilizatória foi imensa) e passando por cima de todas as forças que, desde os tempos do Barão do Cerro Azul moviam a economia urbana, a rua principal da cidade voltava a ser das pessoas, por um ato que transcendia à simples intervenção pública nos interesses urbanos, alçando-se à condição de gesto artístico. Contra a ascensão avassaladora do automóvel, a rua voltava a ser dos pedestres. Como em Zurique. Como em Amsterdã. E recebia, obra de poeta, o nome generoso de Rua das Flores.

Uma cidade onde não existiam pontos de referência além daqueles que se constituíam ao redor de um centro pequeno e esgotado, com suas repartições públicas e estátuas positivistas, de repente ganhava o que nunca tivera em 300 anos de história: parques. Eram tantos e tão bonitos os novos parques quanto as ideias que pipocavam aqui, em um antigo paiol de pólvora, transformado em teatro, quanto ali, em uma olaria abandonada que se transformava em um centro de criatividade, quase como um contraponto e uma ironia a uma cidade que se enxergava a si própria como a negação mais explícita da criatividade.

Dessa forma, os traços de um sentimentalismo reavivado pela generosidade, e o esquecimento dos rancores acumulados por gerações e abandonados por uma nova, combinaram-se e misturaram-se, confundindo-se. Dessa alquimia nasceu, sem que possa se definir o momento exato, a hora certa, o instante preciso, um novo tipo de relação entre a cidade e seus habitantes.

Com a onda civilizatória implantada, Curitiba passou a ser percebida de uma forma nova. Investimentos começaram a ser deslocados na direção dela, pessoas começaram a ver em Curitiba uma alternativa para a degradação urbana de grandes cidades, e mesmo o turismo, até então inimaginável em uma cidade de onde todos, até então, só queriam fugir, tornou-se uma nova atividade.
E que lugar aquele que fervia nos anos em que todos tinham vinte anos, quando todos se conheciam e se encontravam, gente que nunca havia se visto descobria diferenças e semelhanças com o seu semelhante e diferente! Produziam-se civilização, arte, poesia, retornava-se à tão necessária vida comunitária que uma cidade do final de um século como o vinte, e do início de outro, como o vinte e um, atropelada pelo afã do progresso, teria, como sina, de esquecer.

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Passaram-se os anos, no entanto.
Com o tempo, fomos obrigados a entender algo que nos recusávamos a aceitar: se todos os experimentos, urbanísticos, humanísticos e civilizatórios, deram à cidade uma chance de diferenciar-se do modelo (ou falta de modelo) de tantas outras capitais, um movimento centrípeto de compressão urbana, inverso e em direção contrária ao inicial, aconteceria, sobrepondo-se àquele que considerávamos triunfante.
Ao contrário do seu antecessor, este não era um movimento planejado, estruturado: baseava-se no caos que caracteriza o crescimento de qualquer grande cidade terceiro-mundista.

Curitiba, afinal, mesmo que sonhássemos ardentemente com isso, mesmo que fizéssemos questão de acreditar o contrário, não era uma ilha.
Assim como o Rio, assim como São Paulo, como a cidade do México ou como a do Cairo, como todas as realidades que negávamos em nosso idílio urbano, Curitiba teria que haver-se com seu destino: o círculo central, onde a intervenção transformadora havia sido feita com os requintes do que seu autor principal iria chamar de acupuntura urbana, passou a ser apenas um dos fatores a ser considerado no novo desenho que a cidade tomava.
De um lado, os limites já não eram mais claros entre a cidade e sua região metropolitana. De outro, ondas de migração cada vez mais intensas chegavam do interior de um estado rural e historicamente monoculturista (sujeito, portanto, aos choques que se sucedem à decadência de uma cultura), ocupando a periferia e alimentando-se – e alimentando – a riqueza concentrada no centro.

Expectativas entravam em dissonância.
Quem havia crescido sob o signo desse ambiente civilizador, nos limites deste círculo, esperava a continuidade dos avanços. Aqueles para quem a cidade era apenas um ambiente hostil, onde chegavam sem horizontes ou perspectivas, esperavam resposta para suas – digamos assim – necessidades mais básicas.

A cidade tornou-se adulta. Complicou-se. De forma paradoxal, combinando-se com os movimentos urbano-humanísticos dos anos 70 e 80, isso também veio a contribuir para colocar por terra qualquer tentativa de identificar um certo caráter curitibano. A cidade tornou-se um cenário de múltiplas possibilidades e imprevisíveis deslocamentos.
E como as contradições se acirravam de forma visível, a política teve de profissionalizar-se. Acabaram-se os espaços para um pensamento deslocado de qualquer compromisso à direita ou à esquerda. Era preciso um alinhamento, capaz de dar resposta às tremendas tensões que pareciam – usando uma metáfora sociológica – implodir o tecido social.
Instalava-se o espaço para o pensamento único.

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Ao olhar com nostalgia para os anos de transformação, existem aqueles que procuram criar categorias ontológicas bem definidas para o que se passou.
Dizem-nos, então, que houve um determinado período de uma certa pureza inovadora, onde as ideias eram autênticas e as inovações legítimas. Ocorreu depois – segundo essa concepção – o reino do marketing, uma diluição progressiva das ideias iniciais, regrada pelos interesses particularistas de um determinado grupo de pessoas. Perderam-se as conquistas – dizem eles – em função das prioridades políticas.

O interesse relativista e profundamente reducionista desse tipo de visão é muito claro. Transformar em fetiche e idealizar o que convencionou se entender como marketing (uma espécie de conspiração com ingredientes hollywoodianos, feita a portas fechadas e introduzida com astúcia mefistofélica na vida cotidiana) é só um elemento que contribui para dar a esta visão seu caráter maniqueísta.

Por trás de toda essa arquitetura conceitual está a intenção visível de reduzir o papel determinante do sujeito criador em uma transformação histórica. E faz-se isto com requintes matemáticos.

a) Define-se, primeiro, um período de pureza em oposição a um outro período onde revela-se – segundo esta concepção – o verdadeiro caráter do sujeito histórico, sujeito às determinações do contexto;

b) Determina-se, depois, que haveria um conjunto de condições históricas dadas que explicariam determinadas iniciativas;

c) Revela-se, finalmente, que, quando estas condições se dispersaram, restou apenas a verdadeira natureza pérfida do criador, expressa no conceito de marketing.

No final, temos um materialismo rasteiro travestido de ares idealistas, instaurando-se como expressão indiscutível da verdade. Utiliza-se a mesma estratégia que o ressentimento e a amargura utilizam para carimbar o curitibano com um caráter imutável.

Mas se abandonarmos, por um instante, esse maniqueísmo culposo, se olharmos para o que aconteceu com a cidade com olhos mais descompromissados, seremos obrigados a constatar alguns fatos incontestáveis: foi, sim, uma determinada condição política que produziu um acaso de poder propício ao surgimento de uma elite esclarecida, cujo estilo administrativo não estava regrado pelos ditames dos pensamentos à direita ou à esquerda do espectro político; um espaço onde o urbanismo civilizatório conseguiu ocupar o espaço dos projetos idealistas.

Por outro lado, é preciso admitir, sem amargura, que a mudança dessas condições políticas é também o que torna praticamente impossível a retomada daquelas inovações hoje, com a mesma intensidade.

A explosão urbana, de fora para o centro, típica das cidades terceiro-mundistas foi o motor de impulso para que o pensamento à esquerda fosse assimilado pelo pensamento à direita, determinando um rumo que transcende partidos políticos.
O resultado é que, hoje, o período paternalista da inclusão, da preocupação com o outro, do social, é o que prevalece – pensamento redentor e redutor por excelência em sua hegemonia.

Diante dele, já não há mais espaço para ideias compartilhadas, para a criação de possibilidades de encontro. Já não há mais espaço para a invenção sem um propósito social claro. Já não se criam – e não há mais espaço para se criar – centros de criatividade e teatros de sonhos em paióis abandonados.

Nada expressa isso melhor do que o signo que foi adotado para a cidade, em oposição às marcas modernistas a que designers habilidosos nos acostumaram ao longo dos anos: hoje, onde exista um ato assinado pelo poder público, surge ele, o brasão republicano-positivista, circunspecto, dogmático, remetendo ao anonimato a administração pública e condenando-nos, por trás de uma aparência de seriedade na vida pública, à ausência do sujeito humano vivo e criador.

Como corolário desse movimento, ressurge o automóvel, como que reassumindo o papel que lhe havia sido negado no planejamento onde o encontro era mais importante.
Automóvel que é o antípoda dos princípios de uma cidade–modelo, pois o automóvel isola. E não admite concorrentes nas prioridades urbanas.

pinhao

Há um desencanto em constatações como estas?
Há, sim, e por que não deveria haver?
Desencanto nem sempre é amargura.
Gertrude Stein dizia que o problema com a desilusão é um só: quando ela é parcial. Desilusões parciais levam a nostalgias infantis. Ficamos nos deliciando com a lembrança da vida (ou da cidade, no caso) quando ela era verdadeira, quando tínhamos, todos, 20 anos. Ou imaginando, ingenuamente, que tudo poderia ser como antes, sem considerar que o como antes implica em uma condição política que não vai se repetir, pelo menos da forma como aconteceu. Os grandes artistas-urbanistas terão cada vez menos espaço em uma cidade constrangida pela necessidade de incluir.

Segundo Gertrude, só há uma saída: é preciso atingir a desilusão total. Pois ela é redentora. Através dela alcançamos a clareza e a simplicidade.
Mas existe também um outro lado.
Sim, é verdade que o destino do que começou como sonho e terminou como ilusão serve como uma luva para quem pretende embaralhar as cartas do processo histórico e confundir sujeitos com pressupostos.

Nem por isso é capaz de esconder um fato: o bem já foi feito.
Aquela cidade de fato existiu. E o mais importante: transformou definitivamente aquilo que se conhecia como caráter curitibano em algo mais poroso, menos pétreo, mais indefinido. Ou talvez tenha apenas permitido que algo latente se exprimisse. Quem sabe? De qualquer forma, há uma mudança no gene social que não será esquecida, e que retornará – e retorna – inevitavelmente, sob os mais diversos matizes e características.

Some-se esse fator com aqueles que resultam da complicação progressiva das tramas sociais e veremos como se tornam ridículas todas as tentativas de conferir à cidade o tal caráter pineáceo, antropologicamente sustentado por diatribes e teorias mezosoicas sobre uma cidade que não é, hoje, nada além de um objeto não identificado.

Não fui capaz, naquele dia em que ouvi a frase que dá início a esse texto, de contrapor um argumento ao meu amigo. Sou curitibano, já disse, e todo curitibano tem dificuldade em responder a uma acusação contra sua cidade.

Mas se pudesse tê-lo por perto agora, eu lhe diria, como diria a todos que procuram uma essência, ou um caráter, ou um rosto, em uma cidade de tantas metamorfoses: desistam de buscar fundamentos na contrarreforma, nas origens protestantes dos eslavos, na falta de libido, no ecossistema que nos rodeia; desistam da antropologia barata, da sociologia ressentida, da amargura etílica; ao procurar fundamentos tão frágeis para explicar sua própria autoinsuficiência, os emissores desse tipo de ideia estão, unicamente, justificando seus próprios medos e angústias.

Curitiba, esse monstro encarnado, que carregamos como um talismã para justificar tudo que não corresponda a nossas expectativas mais injustificadas, que reduzimos a alguns epítetos, exatamente por nos recusar a enxergá-la em sua complexidade, em sua dinâmica, não tem, definitivamente, nada a ver com isso.

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