De casamento e solidão

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Ela nem gostava tanto assim de Cícero, mas chamava-o sempre, e em público também, de Cicinho. As pessoas se comoviam.
Cicinho gostava de ficar quieto: a monotonia da televisão e o namoro no sofá, sempre vigiado, lhe eram suficientes.
Por várias vezes ela puxou assunto de casamento. Contou da prima Bernadete que casou com um caminhoneiro e era feliz nos dias de tricô e nas noites de novela. Arrastou-o para a festa de noivado de Olga, que em jantar comemorou o feito só com a família mais os dois. Lembrava sempre do segundo casamento da mãe, que chegou ao cartório ainda vestindo o luto da viuvez.
Cicinho, quieto, olhava sem ver a televisão.
Em dias de maior desespero, ela cutucava, “e nós, benzinho, nós nos entendemos bem, não?” Ele balançava a cabeça, passava a mão na testa, ajeitava camisa e nada.
Quando a irmã mais nova anunciou que deixaria a cidade para estudar na capital, ela entrou em desespero. Temia o peso, a vergonha, de ser a solteira da casa. Colocou vestido novo, pintou boca e olhos, puxou decote e provocou o rapaz. Cicinho, que era só calado, mas não era de ferro, embarcou. O momento fora planejado: ninguém mais na casa, noite de novena e de bilhar. Rolaram pelo sofá, pelo tapete, esfregaram-se desajeitados e consumaram ato. Enquanto abotoavam as roupas e recompunham a forma, ela perguntou sobre o anel. Cicinho entendeu. Dois dias depois, com terno, anel em caixinha, 30 anos nas costas e o empreguinho de auxiliar de escritório, ele contava a dona Doris sobre os planos de casamento.
Tudo correu muito rápido. A noiva já tinha vestido pronto, conversa com padre e enxoval bordado. Só precisou de uns dias de esforço solitário para transformar as iniciais cravadas em cada peça de cama e banho. O plano inicial, o desejo primeiro de construir vida e família com Heitor, havia-se diluído anos atrás, mas ela guardava, em silêncio, esperança de moça apaixonada.
Quando chegaram ao altar, Cícero escondeu o olhar. Temia ser denunciado, que a cunhada pudesse, num acesso de raiva e ciúme, contar sobre as noites no cinema, sobre os encontros atrás da casa, sobre o quarto barato de pensão.
Quando chegaram ao altar, a noiva não teve coragem de olhar em volta. Tinha medo de encontrar, no meio da multidão da igreja, a indiferença de Heitor, os olhos de Heitor, seus desejos por Heitor. Fixou-se na imagem ensanguentada de Jesus.
Quando chegaram ao altar, o padre, que sabia de confessionário sobre as verdades e pecados apresentados e absolvidos, teve pudores em esticar cerimônia e tratou logo das bênçãos.
Viraram-se, olharam a cidade representada em convidados, deram os braços e saíram, cada um carregando o próprio silêncio.

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