Guevarinha

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–O que vocês fizeram por Curitiba?

Guevarinha grita e anda de um lado para o outro na sala do apartamento da sogra.

— O que vocês fizeram por Curitiba, hein?

O militante do Partido da Revolução bate com a mão esquerda, fechada, e quebra o vidro de uma janela.
Joana D’Arc, naquele momento companheira de Guevarinha, escuta o choro do filho de menos de um ano, Trotski, e segue até o quarto.

— Me digam, as duas, o que vocês fizeram por Curitiba?

Guevarinha, por hora, não trabalha. Espera a anunciada nomeação em um equipamento dirigido por algum integrante do Partido da Revolução. Participa de greves, distribui panfletos apócrifos, pinta em muros mensagens contra o Partido do Possível e segue na Marcha dos Vadios. Frequenta bares onde sujeitos que usam o mesmo uniforme, barba, roupa não lavada nem passada, banho adiado, calça jeans, mochila e All Star consomem alguns produtos – cerveja, bolinho de carne e rolmops – que, na opinião dele, lamentavelmente precisam ser trocados por dinheiro.

Joana D’Arc está no corredor do apartamento de sua mãe, conseguiu acalmar o pequeno Trotski, que dorme no quarto. Antes de retornar à sala, lembra que conheceu Guevarinha em uma edição da Marcha das Vadias. Joana enunciava palavras de ordem com os peitos de fora, segurava uma faixa pedindo menos violência contra as mulheres e viu uma, duas vezes aquele rapaz com o uniforme barba, roupa não lavada nem passada, banho adiado, calça jeans, mochila e All Star. Ele sorria e, na avaliação de Joana D’Arc, parecia calmo.

— Me apaixonei, ela repetiu, por semanas, para amigas e para a mãe.

Guevarinha quebra mais vidros da sala, joga um abajur no chão, estraga discos de vinil e aponta o dedo em riste para a sua companheira. A mãe de Joana D’Arc contaria a oficiais de justiça, amigos, conhecidos e confidentes que o seu então genro havia bebido em excesso, mas não mencionou que ele consumiu maconha e cocaína no início daquela noite em que gritava: o que vocês fizeram por Curitiba?

Joana D’Arc arregala os olhos antes de receber, de Guevarinha, o primeiro tapa, seguido de um soco no rosto. A estudante de ciências sociais, filha de uma cientista social, disse, dias depois, para uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete amigas que nunca poderia imaginar que o Guevarinha, um militante do Partido da Revolução, favorável ao cicloativismo, articulador da Marcha da Maconha, presente em toda edição da Marcha das Vadias, para ela, enfim, um libertário, pudesse agredir uma mulher, ainda mais ela.

— Na real, Joana D’Arc, só gosto mesmo é dos seus peitos e do seu forébis.

Guevarinha enunciou a frase pouco antes da chegada de quatro policiais. A sogra do integrante do Partido da Revolução tentou defender a filha, mas diante dos socos e pontapés desferidos pelo então genro, fugiu para o quarto e telefonou em busca de ajuda.
2014 começou e a cientista social queria telefonar para o ex desejando feliz ano novo, mas lembrou da última noite que passou perto dele. Guevarinha foi detido pelos policiais, reagiu xingando, com socos e, pelo que contou a alguns amigos, além de apanhar, muito, perdeu o celular – “não lembro como, nem onde”.

O integrante do Partido da Revolução, finalmente, foi nomeado para um cargo, mas em outra cidade. Joana D’Arc sobrevive de freelas em Curitiba, e recebe alguma ajuda da mãe. Mas, o que importa, os dois dizem, para amigos em comum, é que ele, Guevarinha, tem uma nova Julieta, e ela, Joana D’Arc, tem um novo Romeu.

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