No speaker corner Mandela é terrorista. A boca maldita de Londres

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Frequento a Boca Maldita (batizada assim por Abrão Fuchs, conta o Cid Destefani) de Curitiba há muito anos. Desde criança. Sou oficialmente um cavalheiro da boca maldita, comenda que se outorga desde 1956. Anfrísio Siqueira inventou tudo isso. Recebi minha comenda há dez anos, no jantar oficial que se realiza todo final de ano. O professor Rene Dotti era o orador oficial, nobre tarefa que hoje está com Gustavo Fruet. Cultivo um hábito esquisitíssimo, reconheço. Mas eu gosto.

Ano passado passei um tempo em Londres com toda a minha família. Haviam me dito que por lá teria surgido a primeira boca maldita do mundo. Não conhecia. Desta vez, fui conferir. É o Speakers’ Corner, no Hyde Park. Tem mais de cento e cinquenta anos. Entre outros menos votados, Karl Marx, Lenin e George Orwell já discursaram neste canto do Hyde Park. É um tanto diferente da nossa boca maldita. Aqui as pessoas conversam e discutem. Lá se discursa. Quase sempre aos gritos. Sobre os mais variados temas. Aqui sábado é o tradicional dia da boca maldita. Speakers’ Corner se agita aos domingos.

Manda a tradição que os discursos sejam todos de um banquinho, isolando o orador do solo britânico. Isso afastaria a sujeição às leis britânicas. Tradição seguida à risca. São dezenas de banquinhos e caixotes com os discursos mais variados. Vi um sujeito berrar em defesa do Estado de Israel; outro em favor de Jesus; outro a gritar contra o imperialismo americano. E o detalhe mais interessante: o aparte é livre. A todo o momento o speaker é interrompido por alguém na plateia. Sempre aos gritos.

Realmente tem de tudo. Paralelamente aos discursos, há gente distribuindo panfletos e tentando convencer os espectadores das mais diversas teses. Muita teoria conspiratória. Fui abordado por vários. Política e religião, é claro, dominam. Judeus, muçulmanos e cristãos gritam sem parar. Há um grupo de trotskistas. Outro de anarquistas (sim, eles ainda existem…). Mais isolados, alguns ostentavam cartazes em apoio a Stalin. E, é claro, gritavam em cima do banquinho.

Mas o que Mandela tem a ver com isso? Um grupo, em especial, me chamou a atenção. Era a turma que atacava Nelson Mandela. Terrorista e assassino. A recente morte de Mandela provocou-me a lembrança daquele estridente grupinho. É verdade que Mandela foi considerado por muitos um terrorista. Os americanos mesmo só retiraram Mandela da lista de terroristas há alguns anos. Isso importa pouco. O que me intrigou foi a energia de um grupo em protestar contra Mandela agora, em 2013, acusando-o de terrorista e assassino. Mandela já estava aposentado, com 94 anos, reverenciado no mundo inteiro. Mas assim é o Speakers’ Corner. Tem para todos os gostos.

Fiquei lá algumas horas. E voltei nos domingos seguintes. Minhas filhas não se conformavam com a minha esquisitíssima curiosidade. Tanta coisa para ver e fazer em Londres e eu ali parado, ouvindo os gritos e as discussões. Com o mesmo interesse que eu tinha pelos berros quase ininteligíveis do Esmaga – grande personagem da nossa maldita boca de Curitiba.

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