O espetáculo da barbárie

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A barbárie humana é terrível, gente que compactua dela é tão terrível quanto. É assim que vejo os atleticanos que comemoraram a vaga na Libertadores da América, são tão horrorosos quanto aqueles bandidos que estavam na Arena Joinville na última rodada do Campeonato Brasileiro. Compreendo a felicidade dos torcedores em conquistar uma vaga para o campeonato de futebol mais importante das Américas, porém é incompreensível e inaceitável essa felicidade depois desse episódio horripilante. Compreendo também que grande parte desses felizes atleticanos não concorda com o que aconteceu, nem compactua, muito menos admira, mas a vaga não pode estar, como esteve no discurso de muitos, sobreposta a essa desgraça. A única diferença que consigo observar entre os torcedores que se anestesiaram da briga para comemorar o terceiro lugar e os marginais – marginais é muito sutil – que barbarizaram o espetáculo futebolístico é que os primeiros são apenas ingênuos abomináveis cegados pela irracionalidade de torcedor, já os outros são criminosos, bandidos, devem ser presos, expulsos do convívio com a sociedade, e não só os atleticanos e vascaínos, todos eles de todos os outros clubes. Mais desgostoso ainda é pensar que o jogo foi transferido para outro Estado, pois o Atlético já havia sido punido por outra briga, esta com o Coritiba.

Geraldo Bubniak/Foto: Arena

Geraldo Bubniak/Foto: Arena

Parece radical, mas é só fazer um retrospecto do comportamento desse tipo de gente: recentemente tivemos a festa da Raposa, campeã nacional em 2013, cancelada porque duas Organizadas – Máfia Azul e Pavilhão Independente – do próprio Cruzeiro (o Galo nem cantou nesse dia) confrontaram-se. O time havia sido campeão, prepararam uma festa, havia motivo para briga? Pois quando se trata de bandidos sempre há. Se esse for pouco, têm mais casos: Goiás pagou com três jogos na temporada 2013 por briga entre torcedores, Corinthians foi o mais comentado do ano devido ao episódio na Bolívia, além de outro acontecimento em agosto com o Vasco no estádio Mané Garrincha, em Brasília; ou em 2009, quando o Coritiba foi rebaixado e a rebelde torcida invadiu o campo e causou aquela atrocidade. São inúmeras, infinitas, infelizmente, cenas grotescas em estádios de futebol.

A questão é muito mais ampla, é muito mais problemática, é o reflexo de uma cultura desprezível, de pessoas desprezíveis, a faltar o respeito, a faltar educação

Há outras coisas que me deixam mais perplexo. Pude ver o último jogo da temporada 2011-12 do Campeonato Espanhol, que consagrou o 32º título do Real Madrid, nesse dia os Galáticos já eram campeones e haviam preparado uma imensa e bonita festa. O mais surpreendente durante o espetáculo não foi o estádio vazio dois minutos antes de começar o jogo e de repente num piscar de olhos não ver uma cadeira vaga, ou o jogo de luzes na comemoração do título, os fogos, nem mesmo o excelente futebol de Cristiano Ronaldo, naquela noite o que me desconsertou foi um rapaz com a camisa do arquirrival catalão, Barcelona, na torcida galática, em pleno Santiago Bernabeu, e mais surpreendente que isso foi o respeito dos outros torcedores – entenderam que ele estava lá para prestigiar o espetáculo como todos – na condição de brasileiro aquilo me foi chocante, pois não existe um estádio sequer em todo território brasileiro que permita isso. Triste pensar que me espantei por gestos de educação. Outra perplexidade que me recordo agora é um dia em que estava a caminhar pela rua XV de Novembro e torcedores da Império Alviverde hostilizavam todos aqueles que vestiam roupas vermelhas, famílias, crianças, velhos, ninguém passou despercebido, de uma brutalidade sem proporções. Eça de Queiroz disse em Os Maias que “os jornalistas são a escória da sociedade”, só falou isso porque no tempo dele não existia Fanáticos, Impérios Alviverdes, Máfias Azuis da vida. Essas e as outras com seus integrantes são a verdadeira escória social.

Geraldo Bubniak/Foto: Arena

Geraldo Bubniak/Foto: Arena

Vale lembrar do caso inglês. Margareth Thatcher tomou uma série de medidas – radicais e, algumas, equivocadas – após duas incidências a envolver o time do Liverpool, uma das mais numerosas torcidas inglesas. Em 1985, na final entre Liverpool e Juventus, um tumulto matou 35 torcedores do time italiano, o que ocasionou na suspensão dos times ingleses por cinco anos de qualquer competição internacional; e em 1989, na semifinal da Copa da Inglaterra, deixou 96 fãs do Liverpool mortos. A Dama de Ferro, que já tinha tomado medidas após o caso de 1985, determinou-se a acabar de vez com esses hooligans, vândalos, marginais. Criminalizou as torcidas, tomou uma série de medidas como carteirinhas para torcedores, cadeiras em estádios, fim de fossos e alambrados. Elitizou o futebol inglês, cortou o subsídio estatal e aplicou sua política de governo: um estado forte e um mercado livre, o futebol tornou-se comércio, um negócio. A maior parte dos clubes e torcedores não está de acordo com a Dama de Ferro, porém hoje o futebol inglês é um dos mais ricos futebóis do mundo e catástrofes do tamanho de 1985 e 1989 não se repetiram.

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Foto: Divulgação

O Atlético perder vinte, quarenta jogos, uma ou duas temporadas de mando de campo é pouco. Perder o que conquistou naquele último jogo da temporada 2013 – a vaga da Libertadores – também é pouco, pois essa corja, todas as rodadas, de todos os campeonatos, em todos os lugares estão presentes. A questão é muito mais ampla, é muito mais problemática, é o reflexo de uma cultura desprezível, de pessoas desprezíveis, a faltar o respeito, a faltar educação. Habitamos um lugar que pessoas jogam lixo no chão, param no sinaleiro com um som que estremece tudo à volta, um lugar de selvagens que não podem aguardar o desembarque e brigam como macacos por um lugar no ônibus, um lugar de animais que vão ao estádio para metamorfosear o jogo de futebol em um cenário canibal. E pensar que neste ano somos a sede do mais importante campeonato de futebol do mundo me deixa preocupado, triste, enojado. Num país que acontece essas coisas não pode receber ninguém, numa casa que a louça está suja não pode promover jantar. Ainda bem que não sou Joseph Blatter, pois gosto de comer em porcelana limpa.

Acredito, gostaria de desacreditar, que medidas drásticas só serão tomadas quando um verdadeiro desastre, onde mulheres, crianças e umas duzentas pessoas morrerem. Aí talvez deixem de punir com mando de campo ou 400 mil reais de multa, pode parecer muito, mas para um clube da elite do futebol brasileiro, não significa nada, e tomem de fato medidas contra essa malta que frequenta os campos de futebol.

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