Terror real e suposto

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Não temos mais a Guerra Fria que separava os blocos geopolíticos, mas algumas das suas espertezas voltam a ser usadas: uma delas a presunção do terror que passa a valer para timbrar qualquer adversário, sejam governos ou pessoas, tal qual se apodava o outro lado de subversivo. É claro que o ataque às torres gêmeas, pela argúcia e estruturação da Al-Qaeda, foi algo mais do que uma hostilização de símbolos capitalistas em que se empenham os black blocs e gerou a paranoia que levou o país a restringir as liberdades do cidadão comum diante de hipotéticas ameaças; andava-se de norte a sul nos Esteites com uma carteira de motorista, o que hoje é impossível.

Há também o terror das conjunturas como a do período militar no Brasil. Dou um testemunho pessoal, anedótico, dessa contingência: vivíamos à espera dos carros da polícia ou do Exército e um dia batem na janela da minha sacada e lá estava o Serginho, filho do delegado Miguel Zacarias, o homem do Dops. Como o Miguel tinha relações e até afetuosas com o pessoal da esquerda (um irmão, o médico Manif, que era protetor dos mineradores de Criciúma, tido igualmente como subversivo, e outra causa poderia ser o fato de que matou alguns comunistas no Rio Grande do Sul em emboscada e até respondeu a júri por isso e com seus atos buscava justificar-se), entendi que ele queria evitar o constrangimento das minhas duas filhas menores e mandara o rapaz para me procurar.

Avisei minha mulher que tinha chegado a hora e, resoluto, fui abrir-lhe a porta e tentando dissimular naturalidade disse-lhe que o estava esperando. Ele, espantado, corrigiu: quero falar com um do quarto andar. Esse é um caso de terrorismo passivo, possível numa quadra como aquela.

 

Uma pitada de loucura

Uma das melhores e anedóticas estórias de terror foi a do taxista da Praça Osório, polaco na fala e na alma, que certa madrugada, quando já se preparava para ir dormir, aparece um cliente com jeitão ansioso. O motorista olhava do espelho o homem no banco de trás que parecia rezar o tempo todo. Pensou: pode ser um louco ou um assaltante e colocou a mão no crucifixo e também rezou. A coisa piorou quando o táxi, já se aproximando da estrada da Graciosa, teve que, a pedido do passageiro, estacionar. Mesmo na escuridão deu para perceber que era um ponto isolado da mata: o homem saiu, tirou a calça, o paletó, a camisa e, pelado, subiu nas árvores pulando de um galho para outro. “Qui ni macaco”, na versão do motorista. Juntou as roupas, se recompôs e bem mais aliviado deu a ordem para retornar ao ponto de partida. Enquanto o passageiro se mostrava calmo, o motorista não tirando os olhos do espelho rezava, porque já adivinhava a qualquer momento o assalto ou o sequestro e aí ele explicava depois do fato que quem ficaria sem paletó e calça seria ele amarrado no porta-malas ou jogado em algum terreno baldio.

Depois de tanta ansiedade, chegou ao seu ponto na praça Osório. O cara pagou a corrida, deu dois passinhos e olhou para trás ao motorista. O taxista polaco, a cada vez que faz o relato do episódio (que narrado no jeitão polonês como faz o Jaime Lechinski é outra versão), ao notar uma risadinha no seu cliente que se afastava sentenciou: “acho que ele tava me gozando o tempo todo até na hora de sair do carro”. As variáveis da maluquice são infinitas.

Por falar em supostos “heróis” do pós 64 e os mais recentes do Mensalão, sugerindo-se presos políticos sem qualquer senso do ridículo, diante do martírio de Nelson Mandela, com 27 anos de cárcere, que sai da prisão engajado na luta pela concórdia, tudo mais parece brincadeira, pré-história.

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