1961

Bordeaux1961

Abrir velhas garrafas de vinho é como afrontar o desconhecido. Sabe-se lá o que vai emergir – uma bênção divina? O bafo infernal? As respirações, por isso, estavam suspensas quando a rolha do Lafite 1961 começou a ser retirada. E a expectativa tornava-se ainda maior por haver mais seis rótulos célebres de Bordeaux na fila, todos da mesma safra, talvez a melhor que essa região francesa produziu no pós-guerra. Anos como 1945, 1947, 1949, 1959, 1982, 1990 e 2000 também fizeram história, mas nenhum, proclamam os anais, com a homogeneidade e a consistência de 1961.

Instituída em 1855, a classificação bordalesa inclui apenas cinco vinhos em seu topo. Quatro estavam ali: Margaux, Latour, Mouton Rothschild e o já citado Lafite. Completavam o grupo três nomes que igualmente soam como música: Lynch-Bages, Montrose e Pichon Comtesse de Lalande. Essas garrafas todas resultaram da longa e paciente pesquisa feita por um amigo paulistano obcecado por antiguidades do gênero. Comprou-as nas voltas dadas pelo mundo, cada qual com sua história, a de Nova York, as várias de Paris, a de Hong Kong.

Sacar a rolha de tais vinhos é o perrengue supremo. Com o tempo a cortiça perde a elasticidade, adere ao gargalo, ao mínimo descuido se esfarela, turvando com os fragmentos a bebida. A habilidade de Luciano Basuc, talentoso sommelier da nova geração, foi posta à prova e ele se deu bem. Apenas uma das rolhas o traiu, acidente logo remediado por rápida filtragem. A belíssima surpresa foi que, no geral, os vinhos estavam nos trinques.

Uma grandeza o Latour. Fragrâncias de couro, cedro e geleia de frutas precederam um corpo escuro, denso, untuoso, cheio de vitalidade, as notas minerais agregando energia e frescor. Está num excelente momento, e com fôlego para seguir assim por bom tempo. O Mouton e o Lafite, cintilantes na cor, perdiam em exuberância, porém impressionaram nos aromas (cassis, caramelo, sugestões de couro e terra úmida) e na acidez agradável, marcante, sem desequilibrar.

E pena que o Margaux não cumpriu. Adstringente, um incômodo amargor, matéria rala, no descendente da curva. Mas cabe aqui recorrer à máxima de que “não existem grandes vinhos, apenas grandes garrafas”. Impossível julgar todas por uma. A qualidade depende de como foi conservada, o que é crucial nas safras de longo curso.

Garrafas veteranas (53 anos, no caso) devem ser provadas sem atropelos. A pressa é inimiga. Fica aos vinhos ditar o ritmo. Muitos despertam lentamente e alguns, mal humorados, fecham-se em copas, revelando aos poucos suas virtudes. Exemplo disso foi o Montrose, tinto maiúsculo, célebre pelo potencial de guarda. Profundo, revelou-se em camadas, ainda adolescente na coloração opaca e na austeridade dos aromas de amoras negras, alcaçuz, chão de bosque. Por paradoxal que seja, era o menos alcoólico do grupo (11,9º). No Pichon Comtesse de Lalande prevaleceu a delicadeza do conjunto, o nariz rico em sutilezas e a elegância e persistência dos sabores. O caráter pujante da safra foi retomado pelo Lynch-Bages, com seu corpo cheio e carnudo, perfumado por buquê aromático mesclando tabaco, lavanda, frutas vermelhas em compota. Tinto soberbo, para dizer o mínimo.

O que caracterizou 1961 em Bordeaux foi um clima beirando à perfeição. As geadas tardias na primavera derrubaram pela metade a produção. E, menos uvas, maior a qualidade, razão pela qual hoje é regra fazer a poda da vinha, descartando parte dos cachos. Em 1961 a natureza chamou a si essa tarefa. O verão que se seguiu foi seco e ensolarado, assegurando a boa maturação. Os produtores de então não possuíam o arsenal de artifícios atualmente disponível para corrigir os feitos e malfeitos naturais. Por um lado, isso diz que não mais teremos vinhos tão ruins nos anos maus. Por outro, que a majestade de um 1961 talvez não mais se repita.

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