A Palestina é aqui

VIDAS-DESLOCADAS

João Marcelo Gomes filma a vida de um casal de palestinos

 

História

É milenar. A Palestina desde antes do divisor de águas, Jesus Cristo, passa por conflitos, disputas, guerras. Egípcios com Tutmés III e Ramsés II; hebreus com Saul, Davi e Salomão; romanos e seu imperador Adriano; otomanos que sugaram o controle da região por quatro séculos, a cruzar da era das Grandes Navegações à contemporaneidade com a Grande Guerra. Não foram só esses, muitos outros já estiveram entre o auge e o declínio na Palestina. O século XX assistiu problemas políticos, religiosos e sociais na região que custou à comunidade internacional resolver. Foram inúmeras tentativas, porém como agradar gregos e troianos (ou judeus e árabes)?

A Primeira Guerra legou aos britânicos a parte sul do Império Otomano, ou seja, a Palestina. Judeus e árabes já brigavam por territórios na região, a solução inglesa foi dividir as terras em dois pedaços, um para árabes e outro para judeus. Os muçulmanos, no entanto, rejeitaram a divisão.O problema culminou em 1948, foi o ápice de uma longa série de embates, debates, discussões e conflitos. Com o fim da Segunda Guerra Mundial houve a criação da Organização das Nações Unidas, concebida com o objetivo de intermediar a diplomacia internacional para evitar guerras e incentivar os diálogos. Dessa forma, a Grã-Bretanha, que controlava a região, não quis mais saber desse pepino e passou a bola para a recente organização.

A solução? Ficou decidido que a Palestina seria dividida em duas partes, uma para judeus e outra aos árabes. Criou-se em 14 de maio de 1948 o Estado judeu Israel, os árabes, mais uma vez, negaram essa separação. Contudo, houve um problema, a pretensão e o orgulho muçulmanos em controlar a Palestina fizeram com que muitos ficassem sem lar, sem pátria.

Após a criação do estado judaico, países árabes armaram uma investida contra Israel. No dia 15 de maio já havia sete exércitos árabes na fuça de Israel. Em busca de segurança, árabes palestinos deixaram o território na espera do fim desse conflito e buscaram abrigo nos países amigos vizinhos (Líbano, Síria, Egito, Jordânia). O que ninguém esperava era a vitória do exército israelense perante os sete países árabes, se teve ou não ajuda do Ocidente, já não importava, pois os árabes palestinos refugiados não podiam voltar para suas terras e não eram mais tão bem-vindos nos países da Liga Árabe.

Mecanismos foram criados para alojar esses refugiados, mas poucos conseguiram coisas mais concretas. Em 1994, Yasser Arafat, que havia sido nomeado líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), em 1969, através de acordos de paz,conseguiu que a Autoridade Nacional Palestina administrasse parte da Palestina e mais recentemente, em 2012, na Assembleia Geral das Nações Unidas, foi reconhecida como Estado-não membro da ONU, assim como o Vaticano, um passo importante ao reconhecimento do Estado palestino.
Hoje são quase cinco milhões de árabes palestinos refugiados ao redor do mundo, de acordo com a ONU. João Marcelo Gomes, curitibano e cineasta, produziu e dirigiu um documentário que mostra a vida de um casal que foi reassentado cá no Brasil, eles fazem parte de um grupo de 120 árabes palestinos refugiados em território brasileiro.

 

Documentário

Depois de ideias trocadas com amigos, conhecer toda essa laboriosa história dos palestinos, João Marcelo se encantou pelo tema e pensou que daria samba. Samba não. Todas essas guerras não combinam com a batucada brasileira e embora sua escola de formação tenha sido a música, arrojado, se aventurou no cinema e deu um filme, um curta-metragem. Vidas Deslocadas é o nome do documentário que apresenta Faez Abbas e Salha Nasser, dois palestinos que moram no Rio Grande do Sul desde 2007, depois de passarem quatro anos no campo de refugiados Al-Ruweyshed, numa terra de ninguém, quando deixaram o Iraque em 2003. O filme teve sua estreia no Festival Internacional de Curtas Metragens Curto Circuito, em fins de 2010, na cidade de Santiago de Compostela, na Espanha. Passou por vários festivais, foi agraciado com Menção Honrosa no Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa de Lisboa; exibido na 5ª Mostra de Direitos Humanos da América Latina e no 5° Abu Dhabi Film Festival, além de muitos outros.

Como se formou em música pela Universidade Federal do Paraná, João Marcelo não abandonou em definitivo o som. Dirigiu o DVD de Hermeto Pascoal, Hermeto brincando de corpo e alma, e o DVD Orquestra à Base de Sopro de Curitiba convida Andre Mehmari, gravado ao vivo no Teatro do HSBC em Curitiba, além de dirigir clipes da banda Lemoskine.
Tão atrelado está à música que tivemos que adaptar a entrevista, devido a uma nova filmagem da gravação de um disco. Porém, João conseguiu falar sobre a produção cinematográfica no Brasil e em Curitiba e de todos os reveses, sobre isso disse que “a produção cinematográfica nacional é majoritariamente viabilizada através de incentivo governamental. É a lógica. No âmbito municipal e estadual, são poucos os mecanismos de incentivo à produção, mas especialmente ao desenvolvimento, e distribuição de projetos audiovisuais”. Afirmou também que a “escassez de recursos no âmbito local acaba por fazer com que o volume da produção local também seja flutuante, e obviamente torna mais difícil a vida dos que almejam viver exclusivamente de cinema por aqui (Curitiba)”.

Apesar de todas as dificuldades, João produziu o excelente Vidas Deslocadas. E os DVDs, tanto do Hermeto como o da Orquestra à Base de Sopro, estiveram na lista do blog Jazz Station dos melhores do ano de 2013.

João Marcelo Gomes é daqui, é da terra, é curitibano. A cidade talvez não esteja muito atenta, mas ele correu o mundo com o documentário que mostrou o que passa um casal de palestinos, sem casa, sem terra, que não são de nenhum lugar, que são de lugar-nenhum.

 Cenas do documentário Vidas Deslocadas

DIA-04---Telefonema-computador

DIA-01---PG-metro

DIA-01---Caminhada-Mercado

 

O cineasta João Marcelo Gomes

O cineasta João Marcelo Gomes

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