Balneários e banhistas

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No verão de Brasília, só transpiração, zero inspiração. Não fui projetada para o calor e bem nenhum me faz esta sessão anual de suadeira. Encerrada em meu apartamento a aguardar o final do estio, recebo notícias de que há gente que gosta de praia. Gente inteligente, dotada das faculdades mentais plenas. Pessoas com boa quantidade de neurônios e muitos pensamentos na caixola.

Os pensamentos são tantos, creio eu, que levam essa boa gente à beira da loucura. A fim de esvaziar as mentes, esses seres inteligentes vão à praia. Deitam sob o sol e deixam que o calor dantesco desnature as enzimas, interrompa as sinapses e bloqueie qualquer possibilidade de raciocínio.
Não os culpo, é claro. Eu, que não penso com tanta facilidade ou frequência, não posso me dar ao luxo.

Não imaginem que é sem qualquer esforço que vão ao litoral. Enfrentam engarrafamentos e deslocam-se de carro ao balneário de sua preferência. Tudo depois de passarem o dia ocupados com a tarefa logística de fazer caber no porta-malas a parafernalha típica do banhista. São cadeiras, guarda-sóis, barracas, coolers e outros objetos destinados a tentar fazer da praia local habitável. Em suma, levam tudo que possa transformar a Saárica faixa de areia sob sol escaldante em coisa que se assemelhe a uma sala.

Há séculos, o homem aperfeiçoa a sala. No princípio era o teto. Depois veio o piso. Inventou a cadeira, a poltrona e, então, o sofá. Elevou comes e bebes do chão com o uso de mesas. Desenvolveu cortinas para displinar a entrada do sol. Por fim, encheu-a de controles remotos e descansou. Um controlaria a tevê e o outro, o tempo. Era a chegada do ar-condicionado.
Eu, que não amo as intempéries, sou grande entusiasta do ar-condicionado. Mas há gente que prefere voltar às origens. Põem as vergonhas de fora, espremidas em trajes mínimos, e vão ao sol.

Até havia razão para tanto quando as pessoas iam à praia trabalhar em seus bronzea-
dos. Todos despidos e desprotegidos dos raios ultravioleta. Partiam sem uma gota de protetor solar, besuntadas em bronzeador ou misturas caseiras de coca-cola e óleo Johnson. Afinal, para quem quer torrar a derme, a praia é lugar ideal.

Hoje, assim como não há quem admita que não recicle, todos são adeptos do protetor solar. Vão ao balneário já devidamente asilados sob camadas de efe-pê-esses mil. E reaplicam a cada meia hora ou sempre após o banho de mar.

Ora pois, se torrar a derme não é mais o objetivo de ir à praia, esvaziar a cuca deve ser. Afinal, é importante descansar a cabeça, entrar em contato com a natureza, sentir a areia escaldante nas interdigitais, o sal a desenvolver brotoejas nas partes íntimas e o sol a queimar os implantes capilares e as mamas recém-operadas.

Claro, é bom. Vão à praia. Façam-me o favor e vão à praia. E deixem-me estar, à beira do ar-condicionado a aguardar dias melhores. O outono sempre vem.

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