Bicho, ficção e fricção

porco-espinho

Bicho não surpreende apenas o homem primitivo que, usando-o como modelo, pinta-o nas paredes das cavernas. Como também freudianamente integra o sonho dos homens nas fezinhas das artes do Barão de Drummond e de uma forma tão competente que um papelucho de aposta tem mais fidelidade do que o cartão da Mega da Virada como se viu na estória de Curitiba e do suposto roubo do prêmio.

Não apenas os 25 bichos das apostas, que garantiram o financiamento do zoo do Rio de Janeiro, preocupam, tanto que a prefeitura da Capital interpela a blogueira que denunciou presumível falta de comida no zoo do Iguaçu. É tal a identificação do povão com a bicharada que não dá para baixar o flanco diante de uma notícia tão negativa, embora se saiba que tem havido mortes de alguns, como se deu com os antílopes.

Como lecionava Ricúpero, num descuido televisivo, o que é bom a gente publica e o que é ruim oculta: nascimento de girafa bebê a sociedade é convocada para um concurso sobre o nome do novo habitante e assim também com macaquinhos, onças e até jacarés como aqueles que foram retirados do Parque Barigui para melhores instalações.

 

Estórias marcantes

O Passeio Público precedeu o zoológico atual, mas não foram poucas as cenas de violência contra a fauna ali representada como se deu com a churrasqueada de uma anta por estudantes (pertinho funcionavam o Restaurante Universitário e a Casa do Estudante) e até o insólito ataque sexual num porco espinho, digno de espantar, a um só tempo, Sade e Masoch. A uma distância de dez km dava para ouvir, com o frio e o afinamento da atmosfera, os urros do leão.

Houve a estória do macaco de porte que se valendo da jaula aberta, de forma descuidada, caminhou em direção ao Bar do Pasquale, onde a Isaura, esposa do dono, no balcão atendia poucos fregueses antes das 10 da manhã. Lá chegando, e provando uma vez mais identidades de origem, o primata ficou ao lado de um circunspecto senhor que lia o editorial do Estadão e deixou ao lado a sua caipirinha na qual o intruso botava um dos dedos e o chupava com prazer. Ao ver a cena, dona Isaura desmaiou.

 

A carpa magna

Há outras estórias, como a dos vândalos que faziam exercícios de tiro ao alvo nas aves migratórias que vinham do Barigui, da Barreirinha, do tanque do Glaser no Atuba ou do São Lourenço ou dos macacos-prego que roubavam as marmitas dos trabalhadores e que deram origem até a sindicâncias.

Uma noite, na casa do Anfrísio Siqueira, o João Saldanha, criador das “feras de 1970”, com uma crise aguda de enfisema pulmonar, era convencido pelo deputado José Domingos Scarpelini que sangue de carpa era santo remédio e dito isso pescou uma no açude do Passeio, ali pertinho, e a ministrou ao tido como ateu sufocado pela falta de ar. Mais surpreendente era a coragem do João Sem Medo do que a sua condição de agnóstico de carteirinha em traçar o remédio.

 

Búfalo

Houve um tempo em que uma das atrações em destaque do Passeio Público era um búfalo com uma argola no nariz. Pois um dia ele subiu a rampa e se dirigiu a então rodoviária do Guadalupe. No local havia muita gente, pois dali partiam as linhas intertestaduais, celebração de casamento, despedidas, e de repente eis que pinta no pedaço a figura estranha do bubalino. Bastou isso para que imperasse o pânico: o público subia as escadarias da igreja, trepava no teto dos ônibus e do próprio terminal quando um bebum, reconhecendo o bicho e tratando-o como se fosse de sua intimidade, deu-lhe uma jornalada, que lhe ornava o sovaco, na cabeça do animal, pegou-o pela argola do focinho e disse que iria devolvê-lo ao seu habitat. Pouco mais da meia-noite não havia gente nas ruas para testemunhar o pau d’água transformado em pastor conduzindo o bicho, parente do bisonte primitivo, ao seu destino: o tanque do Passeio, não mais alagado pelo rio Belém, em que a Ilana Lerner fez seu batismo, mas pela água dos poços artesianos colocados por Ney Braga no fim da década de 1950 como primeiro prefeito eleito e que abriria a escala de bons burgomestres desta Curitiba.

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