De concreto e amor

pernas

Ela fechou a porta e sentou. Sala vazia. Nada em volta. Aquelas paredes ainda não eram suas. A compra da casa, os papéis, a vida dividida em caixas em cima do caminhão. Mas aquelas paredes ainda não eram suas.

Nada, nenhuma história, nenhuma vida vivida, nenhum cheirinho de bife ou café, nenhum eco de passado, nenhuma risada de filho. No centro daquele universo, ela sentia a vida vazia, a começar do zero para estampar e encher cada cômodo. Nenhuma marca no chão, divisões estéreis, solo seco. Aquelas paredes não eram suas.

Ela sempre dizia que mudar de casa era como comprar caderno novo, a chance do diferente: os experimentos até eleição de nova rotina; as descobertas dos espaços; um jeito novo para tratar cada amargura cotidiana. Virar de página. Mas ela tinha, nesse começo de continuação, a tristeza, a saudade, a dúvida, o medo. A casa nova era corpo sem membros. Vazia. Se fosse coberta por imensa enchente, não haveria escafandrista capaz de encontrar qualquer resto de passado, porque não eram aquelas as suas paredes.

Na casa antiga, as paredes tinham ouvidos e olhos, sabiam da história e eram testemunhas e cúmplices de cada reviravolta. As paredes da casa antiga conheciam os telefonemas da madrugada, o nascer do sol na janela da sala, o latido do cachorro, as torturas das noites de insônia, a voz de cada amigo. As paredes da casa antiga sabiam conversar e opinar.

Sentada na sala vazia, ela não fincava bandeira, não era rainha, não tinha apetrechos e não sabia do futuro. A imensidão a ecoar o nada. Espaço vazio, aridez, campo para ser semeado, nenhuma colheita, nenhum passado. A casa nova era solidão e abandono. Não era lar, não era doce, não tinha opinião, nem cheiro nem gosto nem nada!

A chuva lá fora a fez acudir goteira no quarto, mas não naquele, não naquela casa – o seu corpo estava ainda pregado na casa antiga, a de verdade, a que guardava toda sua vida num gradiente das possibilidades esgotadas.

De repente, o primeiro som: campainha ritmada a fazer graça. Abriu. Ele trazia bebida, taças, flores. Risadas, conversa, beijo. Encostada na sala, começou a desenhar os primeiros rabiscos da nova vida. Primeiro segredo. Tomou posse de seu reino e contou em gemidos que aquelas paredes agora eram suas.

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