De travestis a zumbis

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O esplendor do carnaval em Curitiba e Antonina

 

Apesar de não ser muito religioso, reconheço que tenho certo apreço à fé e à disciplina: nos últimos três anos, por exemplo, tenho me trajado regularmente de mulher e andado com galhardia pelas ruas de pedra e ruínas históricas de Antonina. Gosto. Mas não me enrosco, mesmo sendo carnaval.

Localizada a 90 km de Curitiba, Antonina tem um dos carnavais mais populares do Paraná. Tem um desfile quase #ostentacao de escolas de samba, no domingo, com grandes alas, adereços caprichados e carros alegóricos. Passa na tevê do governo. Uma amiga tem casa na principal avenida da cidade e acompanho da sacada como se fosse rei do camarote. O calor é reconhecidamente infernal. Diversos blocos carnavalescos percorrem as ruas durante o dia com marchinhas e isopor de cerveja. Bailes públicos muito tradicionais. Repito: o calor.

São seis agremiações. Muitos foliões capricham no consumo etílico em plena passarela. Os carros alegóricos são poucos, mas limpinhos. Gente sambando de verdade. Todo ano as escolas penam financeiramente para entregar um ofício digno de seu nome – parece que o subsídio da prefeitura, indispensável, não é suficiente. Seria mais legal se houvesse competição, mas existe uma lógica no armistício. O negócio é sério.

Pra mim, Antonina é segunda-feira de folia, dia do Desfile das Escandalosas, concurso que premia financeiramente, entre 50 e 300 reais, o melhor crossdressing, ou travestismo mesmo, num português mais direto. Nesta noite praticamente todos os homens da cidade e região põem um bom salto, se ornam de muito glamour e purpurina, capricham no batom e saem exagerados na avenida. Como tenho madeixas compridas em tons alternando entre o acastanhado e o loiro, não uso peruca e solto o cabelo pra dançar, além de não dispensar a saia vermelha. Lembro-me como se fosse agora de dois sujeitos incrivelmente etilizados, parados ao meu lado, por volta das três da madruga, perguntando um ao outro se eu era mulher ou traveco. Foi minha coroação. No ano passado, foram quase cem inscritos para o Desfile. O terceiro lugar foi um simpático homem-vaca.

Os antoninenses (ou capelistas, referência à forte presença cultural lusitana) são em quase vinte mil, segundo o Censo de 2010, mas a população da pacata cidade, fundada em um longínquo 14 de setembro de 1714, mais que triplica nos cinco dias de festa. Se você resolver passar o feriado momesco por lá, saiba que há hospitais (2), agências bancárias (3), emissoras de rádio (2), entre outros serviços que o site oficial da prefeitura informa. (O que não é muito dito é o uso irrestrito dos muros das ruas laterais à avenida principal como urinol público. Sempre tome cuidado por onde pisa.)

Interessa-me muito no Carnaval o espírito voluptuoso que se instaura no mais pascoal dos cidadãos, o alvará inaudito para a libertinagem. Aos travestis, incluindo-me: não se notam olhares persecutórios. Grupos de quatro, cinco pessoas saem pelo calçadão à noite beijando quatro, cinco pessoas. Bebe-se muito e a fluência alcoólica surge como justificativa à lascívia que o bom brasileiro parece obscurecer de si durante o restante do ano.

De fato, a possibilidade de desenvolver livremente minha faceta feminina faz-me simpatizar exponencialmente com Antonina. Sigo cobiçando as mulheres, permaneço em luxúria e perdição tal qual um personagem corriqueiro de Dias Gomes ou Nelson Rodrigues, assolado por meus desejos sexuais e de potência, avanço a normatização e sou feliz. Nasci em Curitiba, preciso de alguns dias para ser gay não-praticante.

 

Curitiba prenda minha

002Em setembro de 2013, Bernardo Bravo, uma das facetas do duo curitibano Félix Bravo, lançou um singelo álbum chamado Arlequim. Carnaval em Curitiba é das canções mais cativantes que ouvi no ano morto – aliás, ano intenso e de cardápio emocional variado –, tudo numa voz cadenciada e um piano-acalanto para dias melancólicos. Detalhe: a canção é da lavra de um maranhense, Phil Veras, composta em visita veranista à terra dos pinheirais.

 

Deixa eu perder timidez por aí

Vou falar por aqui palavrões

Deixa eu tomar da cachaça do Batista

Eu não vou abusar

Deixa o nenê nos meus braços

Olha aí

Olha só como pesa

Olha aí

Deixa eu sentir ciúmes de ti

Mas não deixa abusar

 

Deixa eu pular carnaval em Curitiba

Deixa a poeira baixar

Deixa eu tocar o violão à tardinha

Deixa, eu não vou abusar

 

O carnaval curitibano é um gênero singular, possível reflexo de nossa pirotecnia autofágica. Se hoje alguns de nossos cancioneiros pedem para que deixemos pular um carnaval quase metafórico – a descida ao mar parece ser uma fortuna muito mais aprazível ao curitibano contemporâneo –, há sim vida na capital, apesar de nossa aura carrancuda e introspectiva – o estigma apontado por Paulo Leminski à nossa própria existência, de encruados por excelência.

O carnaval da metrópole é organizado pela Fundação Cultural de Curitiba e se configura em tons heterodoxos, de agremiação evangélica a bloco GLS, além das habituais escolas ligadas a clubes de futebol.

As escolas de samba desfilaram ano passado na Avenida Cândido de Abreu, no Centro Cívico – o que me parece um permanente paradoxo identitário, de um carnaval incrivelmente comportado, próximo aos Três Poderes. Este ano os desfiles das escolas voltam a acontecer na Rua Marechal Deodoro. Alguns detalhes técnicos inviabilizam a continuidade das apresentações na Cândido de Abreu. Detalhes como: trajeto em curva, lombadas inimigas dos carros alegóricos e dificuldades aos expectadores de acesso de ônibus e carro.

(Ocorreu-me agora uma lembrança dos tempos em que o carnaval de rua curitibano era na Rua Marechal Deodoro, antes de 1996, eu e minhas irmãs sentadas na arquibancada ruidosa. Devo ter comido diversos algodões doces, uma festança.)

Mas se o nosso carnaval oficial não é dos mais pujantes, de algum modo iríamos honrar as intempéries de nosso tempo e espaço – lembre-se que nevou em Curitiba em 2013, caiu muita árvore para vilipendiar nossos semáforos inteligentes, nosso maior escritor permanece não gostando de ser fotografado e se continua a pedalar de sunga besuntado no óleo – prevalecem, enfim, nossas peculiaridades: o pré-carnaval do grupo Garibaldis e Sacis, alusão ao itinerário que parte do Saccy Bar e vai até a Praça Garibaldi, é uma grande coisa.

Surgido em 1999, o Bloco, ligado a artistas da cidade, sai nos domingos antes do carnaval e junta mais de dez mil curitibanos-foliões. Idealizado pelo animador cultural Itaercio Rocha, conta com auxílio (tímido) da prefeitura no que se refere à estrutura de banheiros químicos e segurança – antiga reivindicação que foi atendida recentemente – e concentra-se em profusão no Largo da Ordem, reduto boêmio-classe-média-baixa da cidade. O graúdo dos recursos é levantado com comerciantes e colaboradores dispersos.

É realmente animado. Ano passado debutei no pré-carnaval pinheirense na última semana. Recordo-me de sentir uma sensação estranha, análoga a minha primeira Corrente Cultural, de me questionar onde essa gente toda fica no restante do ano. Naturalmente, fui atingido por outras emoções oriundas de três corre-corre que me vi participante: talvez Leminski, se vivo, revisse a nossa natureza internalizada quando em espaços públicos, como se o curitibano bêbado se vingasse de nosso anticoletivismo arremessando garrafas vazias na cabeça dos irmãos de geografia, num efeito catártico de tiro pela culatra.

Este ano o Bloco organizou o 4º Concurso de Marchinhas e Zoeiras Carnavalescas, que encerrou suas inscrições em 30 de janeiro. O arrivista site do grupo tem o regulamento e algumas composições, como esta de Alfrânio da Rosa, denominada O Vovô e a Ninfeta.

 

Vovô tá namorando uma ninfeta

Não quer saber mais da vovó

Foi pular a micareta no nordeste

Tomando Guaraná em pó

A novinha só dança funk

Vai descendo até o chão

Vovô suava bastante e teve infarto

Não aguentou a pressão

Vovô tá namorando uma ninfeta

Vai chegando à noitinha

Novinha quer namorar

Vovô fica animadinho e vai tomando

O azul pra levantar (mata o velho)

Vovô tá namorando uma ninfeta

Vovó já rogou uma praga

Pro vovô não funcionar

Disse que à ninfeta gostosinha

Um berrante vai lhe dar (buuuuu)

 

Zumbizeira dia e noite

Pasme, forasteiro: passado o pré-carnaval e a sensação inicial de feriado finado na alma da metrópole, com o noticiário televisivo bombando no que tange aos congestionamentos nas estradas, domingo de carnaval em Curitiba também é sinônimo de zumbis.

Organizada por meio das redes sociais, a marcha dos zumbis – referência aos clássicos do cineasta George Romero – se aglomera na Boca Maldita e segue em direção às Ruínas de São Francisco. Há barraquinhas de maquiagem e ensaios coreográficos para o citadino não fazer um cosplay infiel de morto-vivo. (Nota para um fado: infelizmente choveu no último domingo de carnaval, esta urbe temperamental, o que gerou alguma descaracterização generalizada.)

O que talvez não seja domínio público é que a zombieland curitibana é movimento integrante do Psycho Carnival, o mais tradicional festival de bandas nacionais e estrangeiras do período, reunindo bandas de psychobilly, mistura heterodoxa de punk rock com rockabilly, espécie de rock norte-americano com notas de country, sem referências aqui a qualquer gourmetização do movimento, que é direto e rude. Minha banda preferida: Ovos Presley. Canção: Cão Sarnento. “Eu sou um cão sarnento do esgoto, as cadelinhas só me chamam de escroto, não tenho culpa, foi assim que eu nasci…”

Este ano, a Psycho Carnival acontece de 28 de fevereiro a 3 de março. Então, se você estiver na cidade, pois não conseguiu aquela folga com o chefe ou está pagando o preço de ter o próprio negócio, enquanto seus amigos atua-
lizam o Instagram a cada cinco minutos (ou é curitibano sem medo de ser feliz), apareça. Na segunda-feira provavelmente estarei em Antonina. Vai ser bom. Depois a vida marcha em cinzas, pois tudo se acaba na quarta-feira.

E a tristeza que a gente tem um dia vai se acabar.

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