Demônios da abstração

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Volto atrás dos meus passos e mesmo assim não ouço mais o que me diz. A espinha dorsal aniquiladora daquela infame visita cordial. Faz de conta que não sou eu, faz de conta que não existe mais, o ar desprovido de sentido dá outro nome àquilo que um dia foi de modo insuperável a sua triste evolução. Sem seus demônios escondidos sob as vestes que um dia fez sentido, sem as imperdoáveis frases que aceita-se sem perceber o quanto fazem mal.
Fala em deus, em vão, fala em destino, em vão, fala em sina, em vão, fala em acaso, em vão, em carma, em saída, em jogo, quebra-cabeça, nada que o valha, em vão. O vazio absoluto das áridas idolatrias que fazem o seu repertório mais numérico e falho. Caí nesse abismo sem fim, nas palavras surdas que enlouqueceram as matrizes complexas do medo. Esquinas do medo.

Fui expulsa do conforto dos pensamentos lineares, das tentativas vagas de entrar nessa ordem metódica que as pessoas precisam para não perder o equilíbrio. Só que isso é mais uma coisa que se inventou para não ver a cicatriz aberta, o nervo exposto, o caos espalhado por toda mesa arrumada, lençóis limpos, roupa passada, cabelos penteados, palavras certas, estantes sem pó. A única maneira de manter-se em pé é cair no abismo. Sem pista, sem bússola, sem algo que aponte que aquilo um dia fora algo. Seus olhos carregados de mar, o mar carregado de sóis, a solidão, palavra-chave da tua sabedoria.

Lembro que olhei teus cílios que fechavam sobre tua pálpebra castanha e vi que teus olhos desapareceram sob essa obscura pele. Vesti sua pele como se fosse meu manto de proteção, para me sentir quente, com o cuidado ancestral das crias que de repente saltam ao mundo sem saber o porquê. E foi nesse instante, com impassível distinção entre o que é equilíbrio e delírio, que me rendi absoluta aos seus entornos que delineavam meus contornos como se aquilo fosse a consagração do universo intocado. Sem nenhuma alteração, paisagem irretocável, numa irremediável abstenção do gesto, me rendi sem surpresa ou negação à matemática das abstrações.

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