Eu quero ser americano!

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Johnny é um homem de 40 anos bem-sucedido. Ele acaba de embarcar de férias com a esposa e os dois filhos adolescentes para Nova York. Os objetivos da família não são mais os parques da Disney em Miami. Não, eles agora vão aos EUA para assistir aos jogos de basquete da NBA e em seguida para o que mais interessa: a final da temporada do Super Bowl no MetLife Stadium em Nova Jersey logo no início de fevereiro, e os ingressos já estão comprados. A família está exultante, afinal o intervalo estará a cargo do Red Hot Chili Peppers e do Bruno Mars. Vai ser demais, dizem aos amigos. Johnny, na realidade, chama-se João ou mais precisamente Joca ou Joãozinho para os amigos mais chegados, mas ele nunca gostou nem desse nome tão comum e muito menos desses apelidos carinhosos que os amigos e parentes, miseravelmente, inventaram para ele. Foi Pat sua filha de 14 anos quem chamou sua atenção para o mau gosto desses apelidos brasileiros tão bregas. “Dad, se atualiza! Teu nome é lindo em inglês: John. E mais charmoso ainda o seu nickname (foi assim que ela se referiu ao apelido): Johnny.” Pronto, foi o que bastou para o Joãozinho passar a se autodenominar Johnny e exigir dos amigos e da parentada que só o chamassem dessa forma. Não queria nunca mais ouvir falar dos ridículos Joca ou Joãozinho. Johnny era agora adepto do american way of life. Seus filhos há muito só se comunicavam em inglês nas redes sociais, e todas as suas atividades são denominadas entre os amigos apenas na língua bretã.

No esporte, futebol é coisa de pobre e brega e só está no mundo quem conhece o Super Bowl e a NBA. Dad, dizem os jovens ao velho Joãozinho: como é que você não conhece o Tom Brady e o Peiton Manning? São os dois quarterbacks mais conhecidos do país. Eles jogam no Denver Broncos e no New England Patriots. Mas, kids, retruca Johnny já aderindo ao anglicismo, e em defesa de sua origem italiana: e o Palmeiras? Que Palmeiras que nada, Dad! Já prestou atenção nesses nomes downs dos nossos times? É só porcaria como Cruzeiro, Flamengo, Vasco, Grêmio. Que horror! Veja só os americanos: New York Giants, Baltimore Ravens, Indianapolis Colts, e aí vai. Não tem comparação, Dad. E os shows do intervalo então?

Não adiantava mais. Johnny fora finalmente vencido pelas evidências claras de que era um homem jurássico, fora de moda, fora da realidade. Um dia se convenceu que a garotada tinha toda a razão: o mundo é mesmo americano. Que português que nada. Futebol é o cacete! Disse a si mesmo. Daí por diante começou a se modernizar. Joãozinho era coisa de brasileiro jacu. Quero ser Johnny, porra! Ou seria Goddammit? Abandonou o gosto pelo futebol e passou a acompanhar a NBA e o Super Bowl. Aderiu de vez aos costumes americanos e foi comemorar com a esposa o Valentine’s Days, pois o Dia dos Namorados era outra breguice de brasileiro de mau gosto. Com os filhos, o Halloween era sagrado, agora. No Natal, Papai Noel deixou de existir como Papai Noel. O velhinho só é agora tratado como Santa Claus ou na intimidade como Santa. Em novembro Johnny, com a família, resolveu se americanizar de vez. Estava na hora de agradecer a Deus as benesses desses novos tempos, tal qual os puritanos do Mayflower o fizeram em 1620. Em 28 de novembro de 2013 foram até o supermercado e compraram o maior peru que acharam. À noite, a família rezou unida em torno da mesa, em inglês naturalmente, dando graças pela colheita cultural daquele ano. Afinal era o Thanksgiving Day e para todo bom americano esse é o feriado mais importante do ano. No dia seguinte, foram às compras na Black Friday tupiniquim e deram uma festa no salão do condomínio. Aos amigos italianos presentes, ele pediu que cantassem à exaustão Tu vuò Fa L’Americano, repetindo-se o refrão americano… americano a noite toda. No final, ao se despedir, disse a todos: thanks guys!

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