Música Erudita. Ed. 148

Anna-Netrebko-9322

Anna, do lírico ao dramático

 Ângela Chiarotti

Anna+Netrebko

Anna Netrebko, seguramente a melhor voz de soprano lírico e ligeiro das últimas duas décadas, está prestes a se transformar na melhor voz de soprano dramático das próximas duas. Ao encarnar Leonora na ópera Il Trovatore, de Verdi, Netrebko, 42, faz mudança decisiva em sua carreira.

Netrebko estreou no papel no final de novembro, em Berlim, com Plácido Domingo, que será seu parceiro na mesma ópera na edição deste ano do Festival de Salzburgo, entre julho e agosto.

Em 27 de dezembro, em São Petersburgo, cantou Leonora numa nova produção de Pier Luigi Pizzi, sob a regência de seu descobridor, Valery Gergiev, no recém-inaugurado teatro Mariinski 2.

Netrebko mostrou estar com a voz na plenitude: agudos fáceis, região central sólida, ressonância nos graves – qualidades que a credenciam plenamente para as outras incursões dramáticas previstas para a temporada: Manon Lescaut, de Puccini (Roma, em fevereiro e março) e Macbeth, de Verdi (Munique, em julho).

A tendência, assim, é que saiam gradualmente de seu repertório os papéis leves, cheios de coloratura, que a catapultaram para a fama. De sangue cossaco, Netrebko estudava no Conservatório de São Petersburgo e trabalhava de faxineira no Mariinski quando foi descoberta por Gergiev.

O ponto de virada foi uma produção da ópera Ruslan i Liudmila, de Glinka, de 1995, que existe em DVD e documenta tanto a exuberância vocal quanto a beleza física de uma cantora que soube fazer do rosto de top model parte essencial do marketing.

Em 2006, adotou passaporte austríaco (sem abandonar a cidadania russa), passando a residir em Viena.

Hoje, os russos acompanham sua vida como a de uma estrela de Hollywood. Causou comoção no país sua aparição no programa de entrevistas televisivo Pust i Govoriat (Deixe que Falem), no começo de dezembro, abordando temas como o fim de sua relação com o barítono uruguaio Erwin Schrott e o autismo de Tiago, filho de cinco anos do casal.
Cuidadosa, a diva sabe evitar temas espinhosos. Na entrevista coletiva que antecedeu a estreia de Il Trovatore em Berlim, anunciou que não responderia a perguntas sobre Vladimir Putin, dizendo que “artistas não devem se meter em política”.

Apoiadora do presidente russo, Netrebko vem sofrendo pressões do movimento LGBT no Ocidente, por causa da legislação antigay vigente em seu país.

Todos os sentidos em “Todas as manhãs do mundo”

Márcia Campos

Filme

Em 1927 surgiu o primeiro filme falado, O Cantor de Jazz. Na verdade, ainda haviam cenas mudas, mas as músicas cantadas por Al Jolson, acompanhadas de uma banda, já podiam ser ouvidas. A partir daí, a parceria cinema e música tornou-se sucesso absoluto.

E esse sucesso está presente no filme Todas as manhãs do mundo (1991), baseado na obra de Pasqual Quignard, um escritor apaixonado por música erudita. A história gira em torno do compositor Sainte-Colombe e do jovem Marin Marais (1656-1728), que viria a ser tornar anos mais tarde o compositor e músico permanente (gambista) da câmara do rei. Mais do que a relação entre um exímio músico e um aprendiz, o filme mostra que não basta saber tocar, ter conhecimento técnico e até talento. É preciso ter algo a mais. E é disso que trata o filme, em todas as suas nuances.

Sainte-Colombe (1640-1693) era exímio tocador de viola da gamba e é considerado uma lenda da música barroca francesa. Algumas de suas músicas estão na trilha sonora do filme, que apresenta, ainda, uma plasticidade entremeada com telas de pintores famosos da época e paisagens bucólicas. O compositor, que sofreu com a perda prematura da esposa, exiliou-se em sua própria casa e entregou-se de corpo e alma à música, a única capaz de traduzir sua dor. Há beleza na dor? A dor se transformando no belo? Caetano Veloso, na composição Tigresa, sentencia: “Como é bom poder tocar um instrumento”. Isso exprime tudo. A música sendo capaz de sublimar a dor.

O filme conta com as composições originais da época, de que são autores os músicos Jean-Baptiste Lully, François Couperin, além de Marin Marais. Vale ressaltar que o responsável pela trilha sonora, direção musical e intérprete de algumas dessas músicas é Jordi Savall, mestre catalão da viola da gamba e hoje o nome mais importante da música antiga – medieval, renascentista e barroca. Savall dirige e integra grupos de música, como Hespèrion XXI, Le Concerts des Nations e La Capella Reial de Catalunya. Há um farto material discográfico de Jordi Savall à disposição que vale a pena ser apreciado.
Uma afirmação creditada ao filósofo Friedrich Nietzsche diz “Sem a música, a vida seria um erro”. Nada mais certo!

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