O que é enfim a eternidade?

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Gostava de poesia e flores. Muito já havia visto e, muito mais ainda, sentido. À flor da pele a sensibilidade daquela mulher, que atingira um grau de liberdade onde só fazia o que queria, pouco se preocupando com o que pensavam.

Dona Adelina, a se enxergar até então a cachopa que fora aos 15, chegara aos 80 acreditando piamente que essa era sua hora. Logo iria para outras paragens, declarava blasé, mas com indisfarçada preocupação. Quem não? Mas ela, uma mulher tranquila e que se gostava muito, tirava de letra, com seu humor requintado, qualquer vulto que quisesse distanciá-la da vida.

Durante uma temporada que passava na casa da filha e netas, descobriu que o pé de camélias estava florido. Colheu a mais bela e anunciou: “Colocarei em uma xícara com água, essa flor. Viçosa, encantará meus dias até que se inicie seu declínio, desgaste, cansaço, como eu. Então, será chegada a hora de eu me decompor. Com dignidade, tomarei um banho, me deitarei e esperarei que venham a mim para me trocarem de vaso”.

Imaginem essa figura de linguagem para as três meninas de 6, 8 e 9 anos. Toda noção do trágico caíra sobre nossas cabeças. Eu já imaginava aonde meu pai arranjaria uma xícara tão grande que coubesse a vovó, bem encolhidinha a ser enterrada? Angústia total, o que fazer? Melhoral, Aspirina, açúcar, mil sugestões no almanaque do pensamento da farmácia, mas nenhuma segura.

De repente, resolvida a questão. Todas as manhãs trocaríamos a flor oxidada por outra fresquinha do pé. Seria um sacrifício acordar mais cedo do que ela, mas a causa era nobre e o prêmio uma avó eterna. Era encarar, dia sim, dia não, aquelas madrugadas de névoa-algodão doce, quando o dia ainda nem se encorpara mas os passarinhos já abafavam o gemido da tramela da porta da cozinha. Tínhamos que sair de modo sorrateiro. O jardim era bem ali, ao lado da porta dos fundos, e a camélia do dia esperava úmida de orvalho para ser ceifada, em nome da imortalidade.

Minha escala de colheita era dobrada, pois eu acompanhava outra irmã que tinha medo de sair sozinha, antes do dia clarear. Na volta, pé por pé, entrávamos no quarto onde a avó ainda dormia e trocávamos de flor, retornando felizes ao leito, por termos salvo alguns dias de vida. E assim minha avó ‘ladina’, como se autodenominava, vivia feliz, sentindo-se amada pelas netas, dividindo com elas a angústia, e, ao mesmo tempo, o conforto de se saber tão querida. São gotas de verdade escondidas no fundo de cada fantasia, longe de ser mentira.

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