O Souza da Ilha

MINDA-AU

Foto: Minda-Au

–Vai uma dose aí, patrão?
Antonio sorri.
— É a melhor batida da Ilha. Te deixa ligado, te deixa na pilha!
Antonio levanta a mão direita, faz sinal de positivo para o vendedor e diz:
— Quero uma.
O vendedor para o carrinho, pega uma garrafa de vodca, despeja por alguns segundos a bebida destilada dentro de um copo onde tem gelo, leite condensado, morango e uva e, em seguida, coloca o conteúdo dentro de um jarro acoplado a um liquidificador manual.
Antonio recebe a batida em um copo de plástico, tira da carteira uma nota de dez reais e a entrega ao vendedor.
— Desculpe perguntar, mas o seu nome, ou melhor, o seu sobrenome não é Silva?
— Por que, doutor?
— Não sou doutor. Pode me chamar de Antonio.
— Eu sou o Souza.
— Souza, isso mesmo.
— Por quê?
— Passei férias aqui na Ilha, faz tempo, e tenho a impressão de te conhecer.
— Eu vendo batida há uns 20 anos.

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O projeto de Antonio era rever o cenário daquela que foi uma de suas, se não melhores, talvez mais suaves temporadas de descanso. Há dez ou quinze anos, alugou um imóvel de frente para o mar. Desta vez, conseguiu um apartamento no mesmo prédio, em outro andar e com vista ainda mais generosa para o oceano e para as montanhas ao redor do balneário.

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— Vou em frente, seu Antonio.
— Nos vemos, Souza.

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Naquela primeira estada, há dez, quinze anos (ou menos, não seria há cinco anos?), tudo foi bom, ótimo para Antonio, com exceção do contato com os nativos. Na Ilha, não tem indústria e o comércio é todo ligado ao turismo. Antonio era turista, com cartão de crédito, cheques e dinheiro pra gastar. Mesmo assim, foi hostilizado.
Ao chegar no prédio com a chave do apartamento, o síndico quase impediu a entrada de Antonio, alegando que ele deveria estar acompanhado de algum funcionário da imobiliária. Após meia hora de conversa, conseguiu descarregar a bagagem.
O caixa do mercado da esquina levantou, seguiu Antonio pelos corredores para saber o que ele procurava – era água com gás gelada, que estava em falta – e telefonou para a polícia denunciando a presença de um sujeito estranho no balneário. A pizzaria disputava com o costelão e com a lanchonete: meia hora de espera para o cliente receber o pedido e uma conta bem acima do custo real da refeição.

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Os quarenta graus na areia se apresentaram viáveis para Antonio. Embaixo de um guarda-sol, sentado em uma cadeira e a poucos passos do mar, era possível passar o dia. Havia oferta de tudo, boias, camisetas, gelo e carne assada, frango, camarão, batata frita, cerveja, refrigerante, sorvete e salada de frutas.
Os ambulantes não se mostravam hostis e o vendedor mais popular, e bem-sucedido, era o Souza – o mesmo Souza que Antonio reencontra desta vez.
Souza oferecia doses de presente, cantava trecho das canções que faziam sucesso naquele verão (quais mesmo?) e apertava uma buzina.
— No dia dois de janeiro, vou estar aí, sentado, igual ao senhor.
Souza disse a frase, para Antonio, na véspera do Ano Novo da primeira temporada. O turista acabava de comprar uma caipirinha, olhou para o vendedor e parecia não entender nada.
— A Mega-Sena está acumulada. Joguei e acho que vou ganhar.

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Agora, dez, quinze anos depois daquele verão, Souza passa com o carro de bebidas mais uma vez por Antonio.
— Depois de amanhã quero estar de boa, sentado, igual ao senhor.
Antonio sorri.
— A Mega está acumulada. Dessa vez, eu ganho.

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