Para Mia Couto

domino

E eu que tinha medo,
medo de escuro, medo de aranha,
medo de cinto, medo de nota,
medo de público, medo de privado.
Tinha medo de escrever, de não escrever,
de crer,
de deus – vai que ele existe mesmo e o céu e o paraíso também –
aí me deu medo do inferno, do diabo,
do purgatório,
de ser mal-amado, de ser exagerado,
de continuar angustiado.
Medo da solidão, medo de pessoas,
medo da velhice.
Medo do passado, do passageiro,
de passista, de sambista, de carnaval,
da primeira relação sexual.
Medo de exame, de gestante,
de parente, medo do restante.
Tive medo de tudo na vida,
medo de viver, mas era muito covarde pra morrer,
pra ver o que o mundo tinha a me oferecer.
Fugi, tranquei-me num calabouço,
dividi cela com a tristeza,
com a descrença, com a beleza de estar só.
E minha vida, cheia de medos,
se afundou feito efeito dominó.

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