Pra que pressa?

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A cada dia recebo no consultório mais e mais pacientes que não têm tempo para si mesmos. Chega a acontecer alguns absurdos, tipo: “Onde estão os exames que lhe pedi há um ano?”, “Doutor, não tive tempo, mas pode pedir de novo que darei um jeito”. Dará um jeito? É possível um ser humano ter que dar um jeito para fazer um simples exame de sangue? Será que as pessoas não percebem o que estão fazendo com suas vidas?

Mais uma situação comum: sabemos todos da importância da prática de alguma atividade física regularmente, melhora nossa capacidade respiratória, melhora nossa circulação, ajuda a combater o mau colesterol e aumentar o bom, ajuda a controlar os triglicerídeos e a glicemia, melhora nossa condição de sono, etc. Querem saber por que a grande maioria, apesar de saber de tudo isso, não pratica? Porque não tem tempo!

Entramos em uma roda viva, fazendo parte de uma engrenagem que não para nunca.
Fazemos coisas demais, corremos demais, comemos demais, falamos demais. Estamos presos ao demais, atrelados a um ritmo maluco de um mundo que não para e exige que você também não pare. Parar pra quê? Simplesmente para entender o processo. O que realmente queremos para nós? Muito provavelmente não saibamos, porque não temos tempo para pensar nisso.

Então, produzimos, produzimos e produzimos, irracionalmente, tresloucadamente. Chaplin, esse gênio maravilhoso que tanto nos divertiu, disse um dia “Homem, não sois máquina! Homem é o que sois!” Precisamos de mais Chaplins para nos lembrar constantemente disso?
Abrimos mão de nossos ritmos próprios, não dormimos quando temos vontade, não comemos quando temos fome, fazemos tudo quando dá tempo, saindo dos nossos ritmos biológicos. E se não der tempo? Então, deixa pra lá, afinal, pra que dormir, comer? Não devemos perder tempo com essas esquisitices humanoides.

Já notaram como reclamamos de nossas memórias? Será que o problema é com nossa memória ou com a nossa concentração? Somos dispersos, pois fazemos tudo ao mesmo tempo. Dirigimos e falamos ao celular, pior ainda, dirigimos e mandamos torpedos! Conversamos com amigos no restaurante e falamos no “face” ao mesmo tempo. E por aí vai…

Como vamos ter boa memória se temos péssima concentração? Como vamos fixar?
Dr. David Kundtz nos diz “O ritmo mais lento estimula a recordação, enquanto a velocidade favorece o esquecimento”.

Milan Kundera reforça “Há um elo secreto entre a lentidão e a memória, entre a velocidade e o esquecimento. Pense nesta situação extremamente comum: um homem vem descendo a rua. Em certo momento, ele tenta se recordar de algo, mas a lembrança lhe escapa. Automaticamente, ele anda mais devagar. Por outro lado, uma pessoa que quer esquecer um incidente desagradável pelo qual acabou de passar começa inconscientemente a apressar o passo, como se estivesse tentando se distanciar do que aconteceu”.

05Somos pouco observadores, temos tantos exemplos de pessoas que desafiaram o limite da pressa, e o que lhes aconteceu? Atingiram seu objetivo, claro, morreram. Mas isso é muito lógico. Se a vida é um processo do qual nenhum de nós sairá vivo, pra que a pressa? É para se chegar mais rápido onde? Ao final, é óbvio. Só que, próximos ao final, normalmente as pessoas dizem “ah! se eu soubesse”. Está na hora de sabermos antes, bem antes, para que possamos viver melhor, vivenciando cada segundo de nossas vidas, saboreando os doces sessenta minutos de cada hora e as preciosas vinte e quatro horas de cada dia e assim sucessivamente. Com certeza, teremos pelo menos tempo para fazer aquele exame de sangue pedido pelo nosso paciencioso médico, culminando ao nosso final com a expressão “eu já sabia, por isso vivi minha vida da melhor maneira possível, ou seja, sem pressa”.

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