Prateleira. Ed. 148

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Homenagem a Millôr

Gênio da raça. Inteligência superior que nos faz muita falta nestes dias de mediocridades. O dramaturgo, editor e mestre do humor Millôr Fernandes foi o escolhido para ser homenageado na 12ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Esta é a primeira vez que um autor contemporâneo e que participou do evento é reverenciado pela Flip. Millôr foi um dos convidados em 2003.

Morto em março de 2012, aos 88 anos, o autor se aventurou em diversas vertentes da literatura, com livros de poesia, prosa, romances, traduções, roteiros de cinema, peças de teatro e textos publicados em jornais e revistas.

Segundo o curador da Flip, Paulo Werneck, o principal motivo da escolha é que a diversidade de Millôr reúne em si todo o mundo do evento. Mauro Munhoz, diretor geral da Flip, analisa que a obra do escritor promove a integração entre as artes, premissa da festa literária.
Nascido no Méier, bairro da zona Norte do Rio, em 16 de agosto de 1923, Millôr foi registrado – com quase um ano de atraso – como Milton Viola Fernandes, e acabou adotando o nome que se conseguia ler na certidão. A homenagem vai coincidir com o mês em que ele completaria 90 anos, de acordo com a contagem pelo registro, ou 91, considerando o ano real de nascimento.

Em 2014, a Flip terá seu calendário alterado em função da Copa do Mundo. O evento que sempre ocorre no início do mês de julho, neste ano vai acontecer entre os dias 30 de julho e 3 de agosto.

Fernanda Torres, a escritora

Jandique de Araújo

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Um dos melhores livros de 2013 saiu pouco antes do ano passado acabar: é o romance Fim, de Fernanda Torres. A conhecida atriz brasileira surpreendeu a todos. Não emitiu sinais, pelo menos publicamente, de que estaria produzindo uma obra de ficção. A trama mistura o percurso de cinco amigos, já mortos, que na década de 1960 beberam e cheiraram todas. Experimentaram orgias. E se perderam. Se estivessem vivos, teriam 70, 80 anos. É um retrato de uma geração para quem o casamento representou tédio. Obra-prima que problematiza o inevitável, a morte. O texto vivíssimo e a linguagem eletrizante a credenciam como um marco da cultura tupiniquim.

Fim, romance de Fernanda Torres. Companhia das Letras.
208 páginas. R$ 34,50.

A Grande Guerra

Lucas Leitão

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Este ano marca o centenário do início da Primeira Guerra Mundial, o conflito que, dizia-se, serviria para acabar com todas as guerras. Por esse motivo, vários livros foram e ainda serão publicados sobre o conflito, que mobilizou mais de 70 milhões de militares, causou a morte de mais de 9 milhões de pessoas e levou ao desmoronamento dos impérios alemão, austro-húngaro, otomano e russo. Duas recentes publicações focam nos motivos que levaram à guerra, The War that Ended Peace: The Road to 1914 (A guerra que pôs fim à paz: o caminho para 1914, em tradução livre), de Margaret MacMillan, e The Sleepwalkers: How Europe Went to War in 1914 (Os sonâmbulos: como a Europa entrou em Guerra em 1914, em tradução livre), de Christopher Clark.

O livro de Margaret MacMillan entrou na lista dos melhores livros de 2013 do jornal The New York Times e das revistas The Economist e Bloomberg Businessweek. Ela examina as muitas forças que estavam movendo a Europa em direção a uma guerra no quarto de século anterior, desde as relações entre as casas reais da Alemanha e da Áustria-Hungria até a corrida naval entre alemães e britânicos.

Christopher Clark teve seu livro indicado na lista de melhores livros do jornal The Guardian e da revista Foreign Affairs. Ele argumenta que os líderes europeus, ao não entenderem a situação nos Bálcãs e no resto da Europa e ao minimizarem o potencial que o conflito teria, caminharam como cegos em direção à catástrofe e levaram todo o continente e parte do mundo consigo.

A estreia de Rogério

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Na escuridão, amanhã, de Rogério Pereira, foi um dos lançamentos mais aguardados de 2013. No romance, dividido em breves capítulos, o leitor vai encontrar uma voz parecida com aquela que o autor apresentava nos textos publicados no site Vida Breve e no jornal Rascunho. Nas páginas de Na escuridão, amanhã, memória e ficção se confundem e compõem uma narrativa ágil, forte e densa. A problemática inserção de uma família humilde do interior em uma cidade grande, a difícil relação do narrador com seu pai e a constante presença da morte são alguns dos fios condutores da narrativa.

As primeiras resenhas e críticas associaram o livro de Pereira à Carta ao pai, de Kafka, e compararam o estilo do escritor ao de Graciliano Ramos e Raduan Nassar. Associações e comparações à parte, Na escuridão, amanhã aparece como uma das mais expressivas estreias da literatura contemporânea brasileira.

Kafkiano

Julio Barroso

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O adjetivo kafkiano está associado à obra O Processo. Kafkiano é algo absurdo, surreal, confuso, ilógico, mormente associado à burocracia. Porém quando penso no adjetivo kaf-
kiano é Na Colônia Penal que penso. Na colônia penal há uma máquina burocrática, “um estranho aparelho”, cuja missão é cumprir a pena dos condenados. O condenado não tem nome, é apenas o condenado. Também não o tem o explorador (referido também como o viajante), que visita a colônia penal e é convidado a assistir à execução do condenado, nem o tem o oficial que o acompanha. Não o tem, tão pouco, o antigo Comandante, aquele a quem se deve toda a obra da colônia penal, nem o novo Comandante, que em nada pode “alterar o que foi feito”. Condenado, explorador, oficial, antigo e novo Comandante, existem apenas para que a existência da colônia penal tenha sentido. São apenas peças da engrenagem do “estranho aparelho”, a máquina burocrática.

A obra, publicada pela Assírio & Alvim, reúne os textos publicados em vida por Franz Kafka. Os sete livros: Observação, A Sentença, O Fogueiro (seria depois publicado como primeiro capítulo da obra incompleta que ficaria conhecida como Amerika, mas cujo título mais fiel será O Desaparecido), A Transformação (a maioria das vezes traduzido e publicado com o título A Metamorfose), Na Colônia Penal, Um Médico Rural, Um Artista da Fome. E os textos publicados apenas em jornais e revistas. Há nesta obra contos muito diversos; alguns são apenas de algumas linhas, pequenas observações, outros são mais extensos e estruturados.

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