Recortes de uma cidade em trânsito

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Em cartaz até março no Sesc Paço da Liberdade, Continuum é uma viagem circular pela urbe imaginária de Mazé Mendes

Fotos: Elisandro Dalcin

“Mírame pronto, antes que en un descuido me vuelva otro.” O verso é do poeta uruguaio Mario Benedetti, mas também poderia ser a cidade sussurrando nos ouvidos da artista plástica Mazé Mendes. “Vamos, olhe para mim. Depressa! Antes que eu me transforme em outra coisa.”

maze_mendes_elisandrodalcin2013_04Transitórias, provisórias, efêmeras. Assim são as paisagens urbanas que magnetizam o olhar de Mazé Mendes. Talvez por isso ela transite neste território sempre munida de câmera fotográfica e olhar atento: para não perder instantes preciosos. Certa vez, caminhando pela rua Barão de Antonina, no centro de Curitiba, não hesitou diante de um terreno baldio enfeitado por trepadeiras, restos de tijolos e uma retumbante mancha de tinta azul na parede. Sacou a câmera e enquadrou a inusitada composição. Insatisfeita com a imagem produzida, decidiu voltar lá, mas era tarde: o cenário havia se convertido em estacionamento. Mírame pronto, antes que en un descuido me vuelva otro.

Mais um episódio que ilustra o regozijo de Mazé Mendes frente às imagens que nos escapam: a tarde caía em seu ateliê, no Pilarzinho, quando notou as sombras que seu corpo projetava nas telas, colocadas para secar. A luz não duraria mais do que dez minutos e, novamente, a câmera de Mazé entrou em cena para capturar o efêmero, resultando na série Brincadeiras de Ontem.

A artista

 

Formada em Pintura com Licenciatura em Desenho pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná, Mazé Mendes expôs seus trabalhos no Japão, na Finlândia, em São Paulo, Minas Gerais e em Lille, na França. Suas obras compõem o acervo do Museu Oscar Niemeyer (MON), do Museu de Arte Contemporânea do Paraná (MAC), do Instituto Brasil, nos Estados Unidos, da Pinacoteca do Rio Grande do Norte, entre outros. Em 1997, lançou o livro Traço e Cor – Travessia de um tempo, com exposição individual. Publicou ainda os livros Matiz e Vestígios, que reúnem trabalhos de sua autoria expostos em Curitiba, Belo Horizonte e Brasília.

A lente fotográfica, porém, é apenas um filtro através do qual esta pintora enxerga o mundo, já que sua obra mais expressiva vem se construindo na base de pincéis, tintas, imaginação e memória. “Sempre fui uma pintora. A gravura, a fotografia, o desenho e a palavra são linguagens às quais recorri para agregar ao meu trabalho”, define a artista. Desde o mês passado, parte deste acervo está nas paredes do Sesc Paço da Liberdade, na exposição Continuum, que permanece em cartaz até 14 de março.

 

Figuras diluídas

Era o ano de 1969 quando Mazé Mendes chegou a Curitiba para cursar pintura na Escola de Belas Artes. Seus olhos, até então acostumados com a paisagem interiorana das cidades de Palmas e Laranjeiras, se perdiam na tentativa de perfilar aquela multidão. De início, foram os personagens que povoaram as telas dos primeiros anos da década de 1980. Rostos pálidos e enigmáticos, bocas amordaçadas em referência à censura dos militares, corpos em movimento no contexto do teatro, da dança, do circo, figuras humanas que, aos poucos, foram se diluindo até se apagarem quase por completo. A cidade, então, começava a saltar do segundo para o primeiro plano do quadro, e a geometria dos signos urbanos transformavam as telas de Mazé em verdadeiros exercícios de abstração – estabelecendo um diálogo próximo com a produção sessentista de uma de suas maiores influências, Helena Wong.

“Meu trabalho é observar o que está em volta e decodificar o entorno a partir de minhas próprias referências, da minha bagagem pessoal”, diz ela, que, enquanto aprimorava técnicas de pintura e litogravura na faculdade e em ateliês livres, jamais deixou de buscar referenciais próprios. Muitos deles vieram da “Caixa de Segredos” de sua infância, onde a artista guardava as pedras, sementes e pedaços de cipó que colecionava – inventário de formas, cores e texturas que, posteriormente, alimentaria sua criação artística.

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Em movimento

O interesse pelas curvas da pincelada oriental e a busca pela síntese na cor e na imagem são traços essenciais do trabalho de Mazé Mendes. Nas obras mais atuais, existe ainda certa simetria construída pela linha horizontal que divide e duplica a paisagem, como na série Deslocamento, de 2013. Ali, as cenas aparecem borradas, como se observadas a partir de uma janela de carro em movimento – portanto, efêmeras, provisórias. “São telas muito contrastadas, gráficas, talvez uma herança da gravura”, reflete a artista.

Ao longo dos anos, um movimento curioso se deu na obra de Mazé: ao passo que nos é dado a ver apenas um trecho da cena, como se aproximada por uma lente teleobjetiva, a superfície da tela se expandiu, aumentando de tamanho. No cinema, seria o equivalente a fazer um plano detalhe em formato cinemascope, no qual a janela é ampla mas não deixa ver quase nada. Algo semelhante acontece na série Polimorfos, de 2012, investigação sobre a forma que remete às descobertas de uma lente macro. Estes efeitos de aproximar e afastar o olhar provocam os sentidos e a noção de espacialidade do espectador, intensificando a abstração.

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Palimpsesto visual

Além das pinturas, a mostra Continuum traz fotografias da artista que fizeram parte da exposição Vestígios, apresentada em 2007 no Museu Alfredo Andersen. São registros de muros lascados, tapumes desbotados e outras texturas urbanas que ganharam intervenções digitais, incorporando antigos desenhos e frases de Mazé. “A ideia era gerar inquietude, devolver estas imagens à cidade de outra maneira, provocando as pessoas com uma pergunta: será que aquele desenho estava mesmo lá?”, propõe a artista. Segundo a doutora e pesquisadora Rosemeire Odahara Graça, tratam-se de fragmentos poéticos de um olhar que busca vestígios da existência humana, da passagem do homem, da memória, do tempo transcorrido. “Apesar de usar um enquadramento pessoal das cenas, e de introduzir nas fotos palavras e imagens de seu vocabulário, as composições, cores e colagens que aparecem são, em sua maioria, construções organicamente formadas pela ocupação sucessiva dos locais pelos habitantes das urbes ou pelo abandono desses locais”, sentencia.

Em uma das obras, Mazé fotografa um estêncil do artista Fernando Franciosi em uma parede caiada da rua Carlos Cavalcanti, no São Francisco. É como se ela compusesse uma obra em camadas (a cidade, a obra de outro artista, a fotografia e, por último, a colagem visual que se sobrepõe aos demais elementos), evocando a ideia de palimpsesto – pergaminho medieval cujo manuscrito era raspado para receber novo texto sobreposto.

Em 2004, o professor e crítico de arte Fernando Bini já relacionava esta ideia às pinturas de Mazé em seu texto de apresentação do livro Matiz, que reunia trabalhos diversos da artista. “Multiplicadas ou fragmentadas, afastadas ou misturadas ao seu suporte ou a sua matéria pictórica, estas imagens figurais são reconduzidas para a superfície do quadro, desviadas de suas verdadeiras histórias, para se tornarem palimpsestos de lembranças”, escreveu Bini, à época.

 

Fluxo contínuo

Do latim, Continuum descreve uma série de elementos tais que se possa passar de um para outro de modo contínuo, em que cada um quase não difere do que se lhe segue. Nestas mais de três décadas de criação em fluxo absolutamente livre, é evidente que a obra de Mazé Mendes mudou de lugar, se transformou e cruzou fronteiras – entre o longe e o perto, o gráfico e o pictórico, o abstrato e o figurativo. Mas a exposição também revela um projeto visual harmônico e adjacente, que referencia e revisita a si mesmo, criando um efeito circular. “A mostra é um pequeno apanhado de várias fases do meu trabalho, tanto anteriores como recentes. Mas estas fases podem voltar a qualquer momento, por isso é um contínuo”, conclui a artista.

 

Serviço

 

Continuum – Exposição individual de Mazé Mendes
Data: Até 14 de março de 2014
Local: Sesc Paço da Liberdade
Endereço: Praça Generoso Marques, 189, 4º andar, Curitiba
Horário de visitação: de terça a sexta-feira, das 10h às 21h. Sábados, das 10h às 17h, e domingos das 11h às 17h.
Informações: (41) 3234-4200
Entrada franca

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