Superbacana

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O encanto da ilha longe dos calçadões de Caiobá ou de Copacabana

Fotos: Prefeitura de Guaraqueçaba

De dezembro ao carnaval é assim, pessoas zarpam às praias. Os noticiários tornam a falar do fluxo de carros que passam pela BR-277 sentido praias, dos acidentes que aumentaram referente ao mesmo período do ano anterior, da intensificação de blitz, fiscalização e essas coisas todas, de como é importante protetor solar, porque a irradiação de raios UVA e UVB no Brasil é uma das mais fortes do mundo. De dezembro ao carnaval é assim, pessoas zarpam às praias. Atolam-se umas por cima das outras no branco da areia, no calçadão – um espaço bem democrático, passa de passarela a pista de corrida num piscar de olhos. Mas acontece que o Brasil não é só litoral, não é só esse litoral, os paranaenses podem desfrutar de mais, mais que um calçadão de Caiobá ou de Camboriú.

 

Natureza

Restou ao Paraná, o segundo menor litoral do País, com seus 98 km de praia, invejar baianos e maranhenses – os dois estados de maior extensão litorânea – que têm juntos 1.572 km ou 21,1% de toda a costa brasileira. Embora os paranaenses tenham apenas 1,3% dos quase 7.500 km de águas brasileiras, não se faz necessária a inveja por falta de opções, pois mesmo que a maior parte prefira se atolar nos 531 km de praias catarinenses para desfilar nos calçadões de Meia-Praia, Camboriú, etc., etc., etc., ou ficar entre Matinhos e Guaratuba a absorver os raios UVA e UVB, o Paraná tem lugares de fazer inveja a qualquer 531 ou 1.572 km de praia ou ainda a qualquer calçada em branco e preto.

Em Antonina pode-se ver um dos mais bonitos acidentes geográficos, com suas serras a recortar a cidade. De lá também se vê a Baía de Paranaguá, a maior do Estado, que ladeia o município de Guaraqueçaba. Foi lá, em Guaraqueçaba – do tupi “lugar de dormir dos guarás” –, uma das primeiras ocupações de colonizadores lusitanos no Paraná (1545) e é de lá também que pertence o distrito de Superagui.

Superagui é uma ilha. As ilhas são naturalmente belas. Mas, Superagui, além de naturalmente bela, é belamente natural. Desde 1970 é Patrimônio Natural e Histórico do Paraná, a partir de 1999 se tornou Patrimônio Natural da Humanidade através do reconhecimento da Unesco, logo, lá não se tira, nem se põe nada, é preciso de licença para construir, reformar e decorar. Em 1989 foi criado o Parque Nacional do Superagui, em 1997 ele foi ampliado. Além da flora riquíssima cuja Mata Atlântica fornece, a fauna é muito especial; espécies ameaçadas de extinção compõem o cenário insular. Mico-leão-da-cara-preta. Bugio. Papagaio-da-cara-roxa.

São alguns que correm o risco de partir dessa pra uma melhor. Além da Suçuarana que no Brasil vem diminuindo o número, porém é um felino que habita do Canadá aos Andes meridionais, então sua extinção da biosfera terrestre não é preocupante. A beleza natural, no entanto, vai muito além. É possível ver botos ao mar, mangues, cachoeiras, trilhas enfeitadas pelo natural. Superagui é uma ilha, é do Paraná e não tem calçadão.

 

Cultura

Da miscigenação de índios, negros e portugueses surgiu o caiçara. A palavra caiçara remonta a uma técnica de pesca e é assim que também são conhecidos os habitantes de Superagui. Antes de se tornar uma reserva ecológica era possível afagar a terra e fecundar o chão, para tanto fazia-se o fandango.

O fandango é uma música vinculada à vida caiçara, basicamente formada por duas violas, uma rabeca e um adufo, podem ser acrescidos também o violão e o cavaquinho. As especulações e pesquisas sobre as origens do fandango são múltiplas, de latinas a arábicas. O mais provável é que é uma música ibérica, dessa forma pode ter recebido influências árabes em tempos de invasão muçulmana – assim como recebeu o fado português. Teria chegado ao litoral paranaense através dos primeiros colonos açorianos em meados do século XVIII e se mesclado a uma música já presente em terras brasileiras; cá no Paraná a música até então ibérica se amalgamou com as danças dos índios carijós, a formar o Fandango Parnanguara. De acordo com o Museu Vivo do Fandango, o ritmo sempre esteve muito associado aos afazeres coletivos em colheitas, puxadas de rede, construções de benfeitorias e para cada atividade era um tipo de fandango diferente, ritmado conforme o afazer.

Esse tipo de fandango foi se perdendo em Superagui, muito devido às mudanças ocorridas na vida caiçara. Por ter se tornado uma reserva ecológica, não é mais permitido plantar e colher na ilha, portanto o fandango associado às atividades coletivas já não tem a mesma força. Salvar as belezas naturais do litoral paranaense de fato é importante e valioso, contudo a forma que foi empregada aleijou a cultura paranaense, pois hoje o fandango está reduzido apenas a alguns poucos lugares. No Superagui, o Bar do Akdov é o reduto onde se perpetua a tradição fandangueira, lá há o encontro de alguns dos mestres fandangueiros que, além de manter a cultura paranaense viva, divertem os turistas que visitam a ilha.

 

Mudança

Parece que o Superagui foi descoberto, cada ano que passa aumenta o número de pessoas que chegam à ilha. Waldecyr Ramos, dono de uma pousada de lá, falou numa mistura de entusiasmo e tristeza que já é bem perceptível a mudança. “Pra mim é bom, cada ano mais pessoas ficam hospedadas, mas pra ilha não sei se é tão bom assim.” Em cinco anos, Waldecyr disse que conseguiu observar um significativo aumento no número de turistas.

Muitos que vão até lá buscam a placidez que uma ilha proporciona, afinal lá não há calçadões com barulheira de tudo que é tipo: gente, música, carro. E mesmo com esse aumento de visitas, entristecedor ou não, Superagui continua a doar a calma de ilha que tem, de ilha que é. E é aqui, no Paraná, da nossa gente, da nossa cultura. A cultivar a natureza, cultivar o fandango, cultivar sossego. Longe dos agitos de Guaratuba e Caiobá, lá se pode passar uma tarde tranquila na Praia Deserta – com seu nome autoexplicativo –, ver as revoadas dos bandos do quase extinto papagaio-da-cara-roxa, ou àqueles que no verão passado estavam em Camboriú e gostam da badalação, dá para ir até o Bar do Akdov e arrastar pé ao som de rabeca e adufo.

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