Tempo – O senhor de todos nós

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A Morte de Sêneca, Jacques-Louis David, 1773

Das certezas que não mudam, das verdades que ninguém questiona, eu só conheço duas: a independência do tempo em seu passar e o fim em morte de cada um de nós. Nisso todo mundo concorda, o que há são variações em torno do tema. E a MPB também tem endereço para falar dessas coisas.

Dentro do pensamento de Sêneca “vitam brevem esse, longam artem”, em que o filósofo fala sobre a finitude do autor e a longevidade de sua obra, nosso Maestro Soberano imprimiu de maneira tão descritiva, em Querida, suas aflições que daqui a pouco o verso vira dito popular: “Longa é a arte, tão breve a vida” e lá pelas tantas ele também canta assim: “Breve é o dia, breve é a vida / De breves flores na despedida / Longa é a dor do pecador”.

Caetano Veloso na época de sua Oração ao Tempo

Caetano Veloso na época de sua Oração ao Tempo

Dono da ampulheta que não para, que só cai areia e não permite reviravolta para recomeçar movimento e, pior, que não deixa saber o quanto de migalha há no lado cima, Cronos é o senhor de todos nós, é destino e desafio, marca o corpo e empresta saberes, assusta e seduz. Caetano Veloso tentou fazer acordo com ele em sua Oração ao Tempo, tem gente que acha que o compositor conseguiu, outros lhe reconhecem seus castigos. A prece é bonita e comovente, recortada sempre no terceiro e último verso de cada estrofe com a aclamação “tempo, tempo, tempo, tempo”. Caetano começa a tentar jogo de encantamento, tece elogios, se pensa capaz de envolver o tempo: “És um senhor tão bonito / Quanto a cara do meu filho […] És um dos deuses mais lindos […]” mas em seguida, pede favor, propõe pacto e se entrega a acordo velado: “Peço-te o prazer legítimo / E o movimento preciso […] O que usaremos pra isso / Fica guardado em sigilo / Apenas contigo e comigo”. E por fim reconhece que não é do jeito que ele aprendeu o seu passar que conseguirá o domínio desse deus: “E quando eu tiver saído / Para fora do teu círculo […] Não serei nem terás sido”.

Enquanto Caetano Veloso pensou num tratado, Arnaldo Antunes se concentrou na finitude. E, de jeito simples, como quem fala com criança, foi contando sobre as fases da vida, o que é comum, natural, em todo ser: todo mundo foi neném “Einstein, Freud e Platão também / Hitler, Bush e Sadam Hussein”; a infância: “Maomé já foi criança / Arquimedes, Buda, Galileu e também você e eu”; a fragilidade: “Todo mundo teve medo / Mesmo que seja segredo / Nietzsche e Simone de Beauvoir / Fernandinho Beira-Mar” e a morte: “Todo mundo vai morrer / Presidente, general ou rei / Anglo-saxão ou muçulmano / Todo e qualquer ser humano”.

Saiba, todo mundo já foi neném, criança, teve medo e vai morrer

Saiba, todo mundo já foi neném, criança, teve medo e vai morrer

E o mesmo Arnaldo se juntou a Marcelo Jeneci e Ortinho para falar da passagem do tempo daquele jeito que a gente reconhece tão prontamente quando encontra amigo há muito não visto ou quando o espelho faz denúncia instantânea: “A coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer / A barba vai descendo e os cabelos vão caindo pra cabeça aparecer / Os filhos vão crescendo e o tempo vai dizendo que agora é pra valer / Os outros vão morrendo e a gente aprendendo a esquecer”.

Gilberto Gil também fez reza ao tempo. E em suas observações e experimentos concluiu: “Não me iludo / Tudo agora mesmo / Pode estar por um segundo…”.

É empresa difícil falar, cantar, dedilhar, escrever sobre esses assuntos. A grande dor da percepção do fim que se aproxima desde a primeira hora (explicou Vinicius: “A gente mal nasce e começa a morrer”) é diferente de tratar outras dores… A amada foi embora?, você se desespera em saudade?, foi traído?, queria uma coisa e não tem?, se preocupa com o planeta? Tudo isso é muito diferente da consciência do fim. Porque para todos os pesares há sempre uma saída, que pode até ser o próprio sofrimento, mas para o apito final não há solução nem esperanças nem planos nem ódios nem vinganças.

Billy Blanco, que nos ensinou que todo mundo é igual quando a vida termina,
 com terra em cima e na horizontal

Billy Blanco, que nos ensinou que todo mundo é igual quando a vida termina,
 com terra em cima e na horizontal

E por conta dessa consciência é bom não se distrair do tempo, das possibilidades, do trenzinho da oportunidade valiosa. Bom também não ter medo e aproveitar o que se apresenta e, imprescindível, dar importância para tudo aquilo que de fato a merece. Vinicius, talvez nosso maior exemplo de entrega, de bem viver, de aproveitamento do tempo útil, mais uma vez, nos alertou: “A vida é pra valer / E não se engane não, tem uma só / Duas mesmo que é bom / Ninguém vai me dizer que tem / Sem provar muito bem provado / Com certidão passada em cartório do céu / E assinado embaixo: Deus / E com firma reconhecida!

E por falar em não desperdiçar o tempo, vamos parando por aqui, na companhia de Billy Blanco, que, cheio de humor, escreveu A Banca do Distinto: “Não fala com pobre, não dá mão a preto / Não carrega embrulho / Pra que tanta pose, doutor? / Pra que esse orgulho? / A bruxa que é cega esbarra na gente / E a vida estanca / O enfarte lhe pega, doutor / E acaba essa banca […] Todo mundo é igual quando a vida termina / Com terra em cima e na horizontal”.

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