A Revolução e o Golpe

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O cinquentenário da revolução de 31 de março e do golpe de 1º de abril

 

Castello Branco, o primeiro presidente do regime militar

Castello Branco, o primeiro presidente do regime militar

Marc Bloch, fundador, ao lado de Lucien Febvre, da Escola dos Annales, escreveu em seu livro Apologia da História sobre as origens. Não só historiadores, mas os humanos de maneira geral se prendem às origens e ele como historiador põe em questão se origens não dizem respeito à causa, ou seja, a origem do golpe militar no Brasil é sua causa, mas o que causou o golpe é uma questão um tanto complexa; e indo além do pensamento de Bloch, o fim pode ser tão duvidoso quanto o início. Veja, por exemplo, Jacques Le Goff, integrante também da Escola dos Annales, entretanto da terceira geração (a Escola dos Annales tem três significativas gerações com quatro principais nomes: Marc Bloch e Lucien Febvre são os fundadores, Fernand Braudel é o ícone da segunda geração e Jacques Le Goff marca a terceira. Uma quarta geração ainda não se afirmou e há dúvidas se se afirmará.), quando foi questionado sobre o fim do feudalismo, disse que se encerrou somente no século XIX, sim dezenove, é claro que é abuso de Le Goff, no entanto, ele ainda via características muito feudais nas sociedades modernas, impedindo-o de acreditar que o sistema feudal havia terminado seu ciclo. Assim numerosos fatos e sistemas históricos podem ter o seu início e seu fim marcado por datas, por épocas, a mentalidade social perpassa as divisões didáticas históricas e isso é claro, o que não é claro é onde começa e onde termina. O golpe militar de 1964 é assim, não é explícito onde é seu início, nem onde é seu fim. Parece um tanto óbvio que em 31 de março os milicos derrubaram João Goulart, todavia eles estão desde 1889, pelo menos, a dar seus golpes e contragolpes. E ainda vemos nas ruas o resquício de ditadura fardado de policial. Portanto, onde é seu início? Onde é seu fim? E o golpe? Ou será uma contrarrevolução? Ir até as origens das origens seria uma tarefa interminável, portanto ir para além da origem do golpe em 1964 e adentrar na origem da sua causa já são tarefas bastante laboriosas.

Laboriosas, no entanto, só buscaríamos mais respostas e neste ano de 2014 fará 50 anos do golpe militar no Brasil e será lançada uma porção de livros com respostas – velhas ou novas – por isso, vamos buscar perguntas. Vale pelo menos um apanhado da história dos militares e do golpe ou revolução de 1964 no Brasil.

Começar com a recusa de apanhar escravos e apoiar a abolição parece um marco justo, em 1888 o Clube Militar decidiu não captar mais escravos, função designada a eles, no entanto recusada pelo presidente do Clube, Marechal Deodoro da Fonseca, e apoiada por seus integrantes. No ano seguinte declararam a República no Brasil e o próprio Deodoro da Fonseca tornou-se presidente. Anos depois tiveram também decisivas participações, negativas ou não, em levantes como Canudos. Embora não aderido por grande parte do Exército, ou pela alta patente, oficiais organizaram o movimento tenentista com o objetivo de derrubar a República Velha, a qual só cairia em 1930 com Getúlio Vargas, todavia com forte apoio dos militares. Cinco anos depois, para desmistificar a imagem que militar é anticomunista, junto com PCB, Luís Carlos Prestes, capitão do Exército, tentou organizar um levante comunista no país e a partir daí a ideologia comunista passou a ser alvo de preocupação nas Forças Armadas. Após a Intentona, o Exército caminharia, paradoxalmente, para o golpe.

Comício da Central realizado em 13 de março, dias antes do golpe

Comício da Central realizado em 13 de março, dias antes do golpe

Há quem diga que os militares eram incompetentes para dar o golpe e se sustentarem por 21 anos no posto máximo do governo brasileiro, porém essa imagem pretensiosa de que militar é uma mente incapaz parece equivocada. E dizem ainda que havia uma classe média alta insatisfeita que comandava o leme do barco por detrás dos panos. São dúvidas. Creditar o golpe a esses ou àqueles pode ser um erro. Existia na época uma atmosfera muito maior que tinha interesses e o golpe não foi uma ação precipitada do general Olympio Mourão Filho, que acionou as tropas mineiras e cariocas para depor o presidente João Goulart. Há outros componentes, inclusive internacionais.

Do macro para o micro: o mundo estava bipolar, EUA e URSS disputavam espaços, em 1959 a União Soviética ganhou um espaço no continente americano com a Revolução Cubana, logo, estadunidenses se preocupavam com insurreições em novos países e participavam direta ou indiretamente dos golpes latino-americanos, todos os que foram depostos tinham tendências esquerdistas, caso de Allende no Chile, Perón na Argentina e o Jango no Brasil. No caso brasileiro, os EUA deram apoio com a operação Brother Sam, a qual trazia seis destróieres com 110 toneladas de munição, um porta-aviões, um porta-helicópteros e quatro petroleiros com 553 mil barris de combustível, a intenção era ir até Santos e se as tropas a favor de Jango se rebelassem contra o golpe ou revolução, os americanos entrariam com o arsenal.

Depois de confiar em seu povo e esperar resgate (que não veio) da nação brasileira, Jânio Quadros perdeu o cargo de presidente e João Goulart, seu vice, assumiu de maneira conturbada após a Campanha da Legalidade, uma vez que militares já ficaram receosos de um simpatizante de esquerda se tornar presidente. Quando isso aconteceu Jango estava na China, em viagem oficial, e voltou, em 1961, para governar em regime parlamentarista, esta foi a maneira encontrada para agradar gregos e troianos. Voltou suas políticas às reformas de base, o que desagradou a muitos. Essa imagem junto à esquerda não era favorável. Porém, mesmo com um Exército contrário às medidas, existia oficiais pró-Jango.

João Goulart, o presidente deposto pelos militares

João Goulart, o presidente deposto pelos militares

O novo presidente do Brasil iniciou suas reformas: propôs a democratização da terra, promulgou o Estatuto do Trabalhador Rural – reforma agrária; na reforma educacional, tentou combater o analfabetismo e valorizar o magistério e o ensino público; na reforma eleitoral, quis permitir aos analfabetos e militares de baixa patente o direito ao voto, além da legalização do Partido Comunista Brasileiro; além das reformas bancária, fiscal e urbana.
Os defensores dos 21 anos do governo militar chamaram de Revolução de 1964, porém que revolução foi essa que culminou em coisas como a falta de liberdade de expressão, torturas, nomeações para cargos em vez de eleições pela vontade popular? E a vontade popular? Qual era? Será que não havia uma satisfação geral do povo brasileiro com os militares no poder e um receio do comunismo no Brasil?

Aqui em Curitiba assistimos situações dicotômicas: na madrugada do dia primeiro para o dia 2 de abril de 1964, João Goulart foge para Porto Alegre, onde se encontraria com Leonel Brizola, e lá é informado que tem duas horas para deixar o país, pois tropas de Curitiba marcham para o Rio Grande. Foi a mesma Curitiba, junto com Goiânia, a cidade pioneira da campanha Diretas Já, a exigir eleições diretas no final da ditadura militar. A visão unilateral do que aconteceu em 31 de março de 1964 pode ser tão prejudicial quanto os 21 anos de ditadura militar. Obviamente que um governo que impede a liberdade de expressão perde a sua credibilidade, porém não impede perguntar: se os militares tivessem convocado eleições em 1º de abril de 1964, caberia a alcunha de revolução? São suposições que não aconteceram e já passou o tempo de acontecer, o que nos restou foi um golpe, mais uma intervenção militar na história do país, desde a abolição da escravatura ao golpe de 1964 militares figuram na política brasileira. E também dúvidas de como seria uma revolução que completaria 50 anos.

 

Passo a passo

 

31 de março, Juiz de Fora (MG). Antes de amanhecer – o general Olympio Mourão Filho mobiliza as tropas em direção ao antigo Estado da Guanabara, onde se encontrava o presidente Jango.

 

 

31 de março, Rio de Janeiro. Meio da tarde – subtenentes golpistas controlam metade do prédio do Ministério da Guerra para proteger o chefe do Estado-Maior do Exército, Castello Branco. A outra parcela é defendida por oficiais a favor de Jango.

 

 

31 de março. Noite – Amaury Kruel pede para Jango que demita seus ministros esquerdistas, Jango nega. E tropas cariocas que enfrentariam Mourão abandonam João Goulart e decidem abraçar o golpe.
01 de abril, Rio de Janeiro. Almoço – Jango deixa o Rio e vai para Brasília, após conselhos.

 

 

01 de abril, Brasília. Noite – Brasília também estava a favor do golpe, João Goulart vai ao encontro de Leonel Brizola em Porto Alegre.

 

 

02 de abril, Rio Grande do Sul. Manhã – Jango, com a família, vai para a divisa do Rio Grande do Sul, em São Borja. Permanece lá por mais dois dias e depois foge para o Uruguai.

 

 

11 de abril, Brasília –Castello Branco é nomeado presidente e os militares ficam até 1985 no poder, com a promessa de saírem em 1966.

Vargas e sua comitiva, após a Revolução de 1930

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