Divino sacrilégio

sangria

Há quem julgue o ato hediondo, deslavado sacrilégio. Trata-se, afinal, de acrescentar aguardente, frutas fatiadas, açúcar e até pimenta à bebida que simboliza nos altares o sangue do Redentor. Mas os que pensam assim são poucos e equivocados, pois Ele mesmo certamente cobriria de bênçãos a saborosa e refrescante poção caso lhe fosse servida em suas andanças pelas ardentes areias do deserto da Judeia. Não aconteceu porque a sangria só surgiria tempos depois, pelo que se sabe obra dos espanhóis, os primeiros a idealizarem a exótica mistura, logo seguidos pelos portugueses, que se tornaram também grandes apreciadores. O pioneirismo compensou. Espanha e Portugal são hoje os dois únicos países autorizados pelo Parlamento Europeu a usar o nome “sangria” quando produzida em escala comercial. A tradição, entretanto, é de ser uma bebida artesanal, doméstica, preparada com o que se tem à mão.

A clássica versão hispânica requer uma garrafa de vinho tinto, 250 ml de suco de laranja, meia maçã e meia pera picadas em pedaços miúdos, uma laranja em rodelas, açúcar a gosto. Junta-se tudo numa jarra, e, antes de servir, fica por algum tempo na geladeira para que as frutas se impregnem. A fórmula correu mundo, adaptando-se aos ingredientes próprios de cada lugar, embora, como no samba do Jobim, a base continuasse uma só.

Vai bem com nosso clima, nossas festas, mas, curiosamente, não é popular por estas latitudes. Em Curitiba, o Pata Negra, casa de paellas e danças flamencas, costuma oferecê-la ao lado de suas tapas – as sardinhas ao molho vinagrete, as empanadas, queijos, salames, morcelas e presuntos. Fazem-na com o acréscimo de dois cálices de vermute, um de conhaque, soda limonada e fatias de pera e maçã a uma garrafa de vinho tinto (nacional, de preço em conta). Não põem açúcar por ser a soda limonada doce o bastante.

Outro endereço da sangria na capital paranaense é o Gonzales y Garcia, restaurante de culinária também espanhola. A receita é muito semelhante à do Pata Negra, com a diferença de incorporar especiarias, como o cravo-da-Índia. Em São Paulo faz furor a do Don Curro, que enriquece a mistura (vinho tinto, frutas e conhaque) com uma dose de Cointreau, licor à base de laranja.

Para o público das touradas a sangria sempre foi como pipoca no cinema. Consta que a arena de touros inspirou, em sua origem, o nome da bebida, gêmeas no sangrento colorido. O vinho tinto, de fato, é o mais utilizado. Existem, porém, versões com brancos, como o clericot, fórmula mais leve e refrescante criada na França: 750 ml de vinho, 250 ml de espumante demi-sec, um cálice de licor, pêssegos, frutas vermelhas picadas (amoras, framboesas, morangos, cerejas) e cubinhos de gelo.

O divertido na sangria é seu jeito maleável. Os mexicanos, por exemplo, desprezam o leve e o refrescante. Turbinam o caldo com seis pimentas verdes e duas doses reforçadas de tequila. Também os escoceses pegam pesado: além do vinho e das frutas, mandam ver pelo menos quatro copos bem servidos de um puro malte. Cada qual faz como quer. Portanto, escolha um vinho, algo comum, acessível, e puxe pela imaginação, manga, banana, abacaxi, licor, cachaça ou rum, vale tudo nesse antídoto ao aquecimento global. E nada a temer. Sangria não é heresia.

Leia mais

Deixe uma resposta