Entre impasses, financiamentos e pouco diálogo

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Os motivos que quase levaram à exclusão de Curitiba da Copa do Mundo de 2014

Logo que o Brasil foi escolhido como país-sede da Copa do Mundo de 2014, em outubro de 2007, a euforia dos brasileiros – autoridades e torcedores – deixou em segundo plano a preocupação com um problema iminente desde o momento do anúncio: a dificuldade no cumprimento de prazos determinados pela Fifa.

Em maio de 2009, a entidade máxima do futebol anunciou as 12 cidades escolhidas para receber os jogos da competição. De acordo com o caderno de encargos para o mundial, as sedes teriam até dezembro de 2012 para entregar os estádios prontos. Pouco mais de três anos e meio para a conclusão das obras. O prazo inicial da Fifa estourou e 10 estádios ainda não estavam prontos. Apenas o Mineirão, em Belo Horizonte, e o Castelão, em Fortaleza, cumpriram a data determinada.

O tempo passou, e novos prazos foram negociados – e desrespeitados. Feito um novo cronograma, agora os estádios deveriam estar concluídos até 31 de dezembro de 2013. Poucas semanas antes do final do novo prazo, o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, durante coletiva de imprensa realizada na Costa do Sauípe, comparou a realização da Copa do Mundo no Brasil a um casamento: “Acho que em 100% dos casamentos que eu testemunhei, a noiva chegou atrasada, mas nunca vi um deixar de acontecer por causa disso. É provável que possa ter um ou outro atraso, nada significativo, mas o importante é que todos estarão prontos, segundo os construtores ou proprietários”, disse.

Apesar do otimismo do ministro, a Fifa começou a perder a paciência com o atraso no cronograma. O novo prazo acabou, o ano do mundial começou e seis cidades – Curitiba, Porto Alegre, Cuiabá, Manaus, Natal e São Paulo – não entregaram os estádios. Nas sedes que corriam contra o cronograma, viu-se um empurra-empurra de culpas e responsabilidades. Começava ali uma relação desgastada que teria em Curitiba, no primeiro bimestre de 2014, o seu momento mais crítico.

 

De quase pronta a quase excluída

02-frasesUma das maiores certezas para o mundial de 2014 era a Arena da Baixada, estádio do Clube Atlético Paranaense. Localizado no bairro Água Verde, em uma área predominantemente residencial, próxima à região central de Curitiba, o estádio parecia ser aquele que menos preocuparia para o mundial.

Reinaugurado em 1999, o estádio era um dos mais modernos da América Latina. Era considerado, a grosso modo, “75% pronto”, pois durante um longo período não pôde ser totalmente concluído em função de uma situação crítica: o terreno que seria usado para a conclusão do estádio pertencia a uma escola. Apenas em julho de 2005, seis anos depois da inauguração, o Atlético conseguiu selar a compra do terreno que impedia a conclusão do estádio. As obras, que a princípio se restringiam à construção do anel inferior do setor Brasílio Itiberê, começaram efetivamente no ano de 2007. O novo setor do estádio foi inaugurado em 2009, em uma partida contra o São Paulo, válida pelo Campeonato Brasileiro daquele ano.

Depois de boatos e especulações sobre a escolha do estádio da cidade de Curitiba, que incluíram até uma possível revitalização do estádio Pinheirão (que na sequência seria leiloado), em janeiro de 2010 confirmaram a Baixada como o estádio da Copa. O custo inicial anunciado era de aproximadamente R$ 184 milhões, divididos entre o Atlético Paranaense (R$ 113 milhões), BNDES (R$ 25 milhões) e Prefeitura, que seria a responsável pelas obras na região (R$ 46 milhões).

Marcos Malucelli, então presidente atleticano, anunciou que o clube não assumiria dívidas em função da obra e pediu ajuda do poder público, que acenou com a possibilidade do famigerado e polêmico potencial construtivo. Mais impasse: o Ministério Público e o Tribunal de Contas do Estado consideraram que esta alternativa representaria investimento de dinheiro público e passaram a fiscalizar a obra com maior exigência e consequente burocracia.

 

Cabo de guerra

Para a surpresa de alguns, assim que começaram as obras, na prática, a reforma se mostrou muito mais complexa do que a expectativa inicial, que previa a conclusão da incompleta reta de arquibancadas do setor Brasílio Itiberê, além de alguns ajustes para adequações a exigências da Fifa. Uma reforma maior e mais elaborada do que a previsão inicial, a engenharia financeira para viabilizar a obra e o fato de se tratar de um estádio privado provocaram uma disputa entre os poderes da cidade.

Uma relação desgastada que piorava na medida em que a burocracia e a falta de diá-
logo entre clube e o poder público eram uma constante. Situação que contribuiu diretamente para o atraso das obras, como na oportunidade em que uma falta de alinhamento entre o cronograma financeiro e a execução das obras atrasou o empréstimo do BNDES e obrigou o clube, por um considerável período, a arcar com o custo da reforma sozinho.

Diante desse ruído, em vários momentos do biênio 2012/2013 foi possível ver a obra em ritmo lento e com poucos operários trabalhando no estádio. Em algumas oportunidades, houve até paralisações por parte dos funcionários que, em protesto, interromperam as jornadas em função da falta de pagamentos.

Para complicar, o custo inicial da obra aumentava expressivamente a cada novo orçamento. E cada aumento era acompanhado de um desgaste na conquista de novos recursos e financiamentos. Ao contrário de governos estaduais e municipais, entidades particulares têm um caminho bem mais amarrado para conseguir o financiamento do ProCopa Arenas – programa criado pelo BNDES, uma linha de crédito mais acessível para o financiamento da construção dos estádios, com juros mais baixos.

Conforme aponta uma reportagem publicada no site Trivela, dia 21 de fevereiro de 2014, logo após a confirmação definitiva de Curitiba como sede da Copa do Mundo, o financiamento é menos acessível para os clubes envolvidos na preparação para o mundial. Situação que explica por que os três estádios particulares que receberão o evento – Itaquerão, do Corinthians, Beira-rio, do Internacional, e a Arena da Baixada, do Atlético Paranaense – estão entre os estádios com obras mais atrasadas:
“As garantias exigidas pelo programa do BNDES são: cotas-parte do Fundo de Participação (dos Municípios ou dos Estados – FPM ou FPE) e/ou vinculação da receita do ICMS pelos municípios ou garantias reais e/ou pessoais usualmente exigidas pelo BNDES. Ou seja, qualquer governo consegue rapidamente a aprovação do crédito, porque tem como oferecer como garantia os repasses que recebe do governo federal. Entidades particulares, por sua vez, precisam de comprovações muito mais complexas. São necessárias garantias grandes, porque o volume de dinheiro desses empréstimos é grande, o que torna a tarefa complicada. Clubes movimentam muito dinheiro. Mas esse dinheiro, comparado com o volume de Estados, municípios e até mesmo de algumas grandes empresas, é muito pequeno”, aponta a repostagem.

Entidades particulares têm um caminho mais amarrado para conseguir o financiamento do ProCopa Arenas – programa criado pelo BNDES

De modo que a reforma na Baixada, ao contrário da maioria das outras sedes, encontrou uma dificuldade maior a cada aumento de custo da obra do que os estádios públicos. O governo tem soluções ágeis para viabilizar novos recursos em obras públicas. Um clube, não.
De acordo com um levantamento feito pelo UOL Esporte, publicado dia 22 de janeiro de 2014, que cruzou os dados fornecidos separadamente pelas esferas governamentais, o valor final da obra chega perto dos R$ 370 milhões (o BNDES financiou R$ 131 milhões; a Fomento Paraná, do Governo do Estado, emprestou mais R$ 95 milhões – em três parcelas; a Prefeitura liberou R$ 143 milhões por meio de títulos de potencial construtivo). O clube, desde já, corre atrás de alternativas para arcar com sua parte do financiamento: pretende pagar com os recursos de Naming Rights, que consiste na concessão do nome do estádio a uma marca patrocinadora.

Para viabilizar o financiamento, o Atlético Paranaense, que abriu mão de possíveis parcerias com empresas privadas, teve que penhorar o CT do Caju (um dos maiores e melhores centros de treinamento do país) e os direitos de transmissão dos jogos pagos pela emissora Rede Globo até 2018. Com preocupante e prejudicial frequência, o clube se viu sem o suporte necessário para tocar as obras no ritmo que o cronograma da Fifa exigia.

Falta de alinhamento entre o cronograma financeiro e a execução das obras obrigou o clube, por um considerável período, a arcar com o custo da reforma sozinho

O ultimato

Este cenário resultou em uma previsível situação-limite. Em uma visita realizada no dia 21 de janeiro de 2014, o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, não escondeu a insatisfação com o que viu: “O que dizer? A questão é delicada. Sejamos francos e diretos. Como vocês devem saber, a situação atual do estádio não é do nosso agrado. Não apenas está muito atrasado, mas foge a qualquer bom cronograma de entrega da Fifa para o uso”, disse em entrevista coletiva.

A ordem da entidade era simples e direta: se as obras em Curitiba não tivessem um significativo avanço e atendessem a uma série de exigências (entre elas o aumento no número de funcionários trabalhando no estádio e garantias de financiamento da obra), a cidade seria excluída do mundial.

Valcke agendou uma nova visita para o dia 18 de fevereiro, quando, enfim, decidiria pela confirmação (ou não) da cidade como sede do mundial. Margem para discussões: enquanto muitos falavam que a exclusão de Curitiba poderia servir de exemplo e “puxão de orelha” ideal para a Fifa alertar as outras cidades-sedes, outros, mais céticos, acreditavam que a Fifa não arriscaria ter que reprogramar toda a logística já definida para os jogos – sem falar que muitos torcedores já tinham comprado ingressos para os jogos agendados para a capital paranaense.

 

Habemus Copa!
Um dos raros encontros que reuniu representantes dos principais poderes envolvidos na organização da Copa. Foto: Twitter / Jérôme Valcke

Um dos raros encontros que reuniu representantes dos principais poderes envolvidos na organização da Copa. Foto: Twitter / Jérôme Valcke

As semanas que separaram as duas visitas de Valcke a Curitiba foram de muito trabalho na Arena. O clima nos bastidores seguiu tenso, no mesmo tom de desgaste, pouco diálogo e impasses, que marcou a organização da Copa em Curitiba.

Em entrevista à rádio oficial do clube, realizada no dia 23 de janeiro – dois dias após o ultimato do secretário-geral da Fifa –, o presidente Mario Celso Petraglia, atacou: “Só faltou uma coisa para que o estádio estivesse pronto: o compromisso do governo e da prefeitura que não foi cumprido. Mas, apesar disso, teremos Copa em Curitiba, com todas as dificuldades. Seria infantil, molecagem, chegar onde chegamos e não ter apoio dos compromissos escritos e formalizados”, disse.

O governador do Estado do Paraná, Beto Richa, rebateu: “Vocês conhecem a Prefeitura, o Governo do Estado e os dirigentes do Atlético. Vocês sabem quem está falando a verdade”, disse Richa, em entrevista coletiva realizada na primeira semana de fevereiro, a pouco mais de duas semanas do prazo da resposta final da Fifa.

Nas obras, que é o que realmente interessava à Fifa, viu-se um surpreendente avanço e um expressivo aumento no número de funcionários trabalhando. A exemplo de Porto Alegre, um “resgate” do governo foi necessário para garantir a evolução das obras no estádio de Curitiba. A operação financeira, que contou com a ajuda do governo paranaense, por meio da Fomento Paraná, foi fundamental para garantir os recursos necessários para o bom andamento da obra, enquanto o empréstimo cedido pelo BNDES não era liberado.

Às vésperas do dia da decisão final, um boato tomou conta da internet. Um jornalista estrangeiro, da emissora Fox, anunciou, via twitter, a exclusão de Curitiba da Copa do Mundo. Por isso, ou reforçando isso, parte da imprensa gaúcha e mineira já tratava a exclusão como fato consumado e falava de um suposto plano B que, segundo o boato, remarcaria os jogos agendados para Curitiba para outras cidades – entre elas Porto Alegre, Belo Horizonte e São Paulo.

Para a sorte dos curitibanos e daqueles que torciam pela Copa em Curitiba, as informações dos jornalistas envolvidos eram frias. Dia 18 de fevereiro, em um evento realizado em Florianópolis, Curitiba foi confirmada como sede da Copa do Mundo de 2014. Agora, o prazo final e definitivo para a entrega da Arena da Baixada é dia 15 de maio (detalhes das obras e do novo cronograma na galeria de fotos publicadas neste especial da Copa). Para além do anúncio oficial, o secretário-geral da Fifa publicou a notícia em sua conta do twitter: “Curitiba reconfirmada como sede da Copa de 2014, com base nas garantias financeiras, compromisso de todas as partes e progresso feito”, escreveu Valcke.

Após a Copa em Curitiba passar por todos os desgastes possíveis para uma cidade-sede de um evento desse porte, achar culpados, agora, parece ser algo secundário. De definitivo, a lição que já é – ou deveria ser – antiga: a falta de diálogo entre aqueles que estão no poder não leva a lugar nenhum.

 

Notas da Copa

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Espanha chega dia 8 de junho
06-ct-cajuA delegação espanhola tem data para chegar na capital paranaense: dia 8 de junho. Para a preparação de sua equipe, a Espanha escolheu o CT do Caju, Centro de Treinamentos do Clube Atlético Paranaense – um dos maiores e mais modernos do país. Além de treinar na cidade, a seleção fará o terceiro jogo da primeira fase, dia 23 de junho, contra a Austrália, na Arena da Baixada. A Espanha é uma das principais atrações do mundial de 2014. Além de ser a atual campeã, tem em sua equipe jogadores badalados como Xavi, Iniesta e Fàbregas.

Curitiba entre as cidades mais procuradas
Na primeira etapa da venda de ingressos, encerrada em outubro de 2013, Curitiba foi a terceira cidade mais procurada pelos turistas, atrás apenas de Rio de Janeiro e São Paulo. Naquela oportunidade, ainda não havia acontecido o sorteio das chaves e os torcedores não sabiam quais seriam os grupos nem quais jogos as subsedes receberiam. As únicas informações definitivas para a compra dos ingressos eram a cidade e o estádio que receberiam os jogos.
Índice que mostra o interesse de turistas estrangeiros e locais pela cidade. 70% das solicitações nessa fase vieram de brasileiros. Os outros 30% ficaram divididos, em sua maioria, entre americanos, argentinos, alemães, chilenos, ingleses, australianos, japoneses, colombianos e canadenses, nessa ordem. Nessa primeira oportunidade de compra, mais de seis milhões de ingressos foram solicitados para o sorteio. Agora, depois de outras duas etapas de venda, o mundial já contabiliza mais de dois milhões de ingressos vendidos.

Fan Fest
05-pedreiraCom a proposta de centralizar as comemorações durante o mundial, a Fifa, desde a Copa de 2006, na Alemanha, exige que as subsedes tenham um espaço especial para a entidade promover a festa do evento. É a chamada Fan Fest. Em Curitiba, essa iniciativa, que acontece de 12 de junho a 13 de julho, inicialmente foi marcada para o Parque Barigui, mas a prefeitura da cidade pretende sugerir a mudança do local para a Pedreira Paulo Leminski, que acabou de ter a reabertura permitida.

Além dos telões para a transmissão de todos os jogos do mundial e o espaço para alimentação e entretenimento, a sugestão da programação da Fan Fest curitibana tem 14 artistas nacionais: Dudu Nobre, João Lucas e Marcelo, Saulo, Zezé Di Camargo e Luciano, NXZero, Humberto Gessinger, Arnaldo Antunes, Pato Fu, Erasmo Carlos, Ed Motta, Bruno e Marrone, Sandra de Sá, Baile do Simonal e Raça Negra. Dezenas de artistas locais, a serem definidos, também farão apresentações. A expectativa da organização é reunir aproximadamente 30 mil torcedores por dia.
* Programação sujeita a alteração

Copa de 1950
Esta é a segunda vez que a capital paranaense recebe a Copa do Mundo. Em 1950, o Estádio Durival de Britto, a Vila Capanema, foi palco de dois jogos: Espanha 3 x 1 Estados Unidos e Suécia 2 x 2 Paraguai. No ano daquele mundial, a Vila pertencia ao Clube Atlético Ferroviário e, inaugurada em 1947, era o estádio mais moderno de Curitiba.

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