Meu carnaval com Marilyn

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Eu fiz de tudo no Carnaval. De retiro espiritual com os beneditinos, segundo as regras de Santo Afonso Maria de Ligório, a um retiro forçado em cela do presídio da Ilha das Flores, nos anos da ditadura. Mas nem só de agruras vivemos neste vale de lágrimas. Fiz retiros espontâneos, daqueles que levam você à praia mais deserta na companhia da amada. Confesso, estes foram os carnavais que mais gostei. A dois. Longe da turba.

Não nego, também fui a bailes. Cheguei a ser jurado de desfile das moças da mais antiga profissão na Sociedade Batel. Vi desfiles do Operário, em época que a moçada só saía do armário no carnaval.  Mas a minha vocação nunca foi carnavalesca. Uma única vez tentei aventurar-me num salão. Fiz o que todos faziam, levantei os braços, os dedos apontados para cima e arrisquei uns passos. Ao ver meus dedos a brincar no ar senti uma vergonha tão grande que ensarilhei as armas e nunca mais voltei a cometer esse tipo de ridicularia.

Este ano preparei-me para passar a festa (que jornais nativos ainda insistem em xingar de tríduo momesco) com Marilyn Monroe. Além de encontros alcoólicos com amigos, dediquei o resto de meu tempo a ela. A sexualidade da minha geração tem um débito incalculável com Marilyn Monroe. Desde que passei a desfrutá-la na tela, como Rose Loomis, Lorelei Lee, Kay Weston, nos cinemas de Foz do Iguaçu, jamais me separei emocionalmente dessa loira fantástica.

Não sei o que em Marilyn me leva à fascinação. Apaixonei-me por todas as versões. Da desajeitada crooner Chérie de Nunca Fui Santa à garota (ou o pecado) que na verdade morava em cima, não ao lado. Ai, meu Deus, o sex-appeal de Marilyn em sua pose mais mítica, com a saia esvoaçante sobre a grade do metrô. A angelical garota de Nunca Fui Santa e sua doce sensualidade transformou a Vênus platinada em criatura prosaica, frágil e vulnerável.

Marilyn encarnaria três outras personagens, Elsie, a corista de O Príncipe Encantado, Sugar Cane, a flapper de Quanto Mais Quente Melhor, e Amanda Dell, a romântica dançarina de Adorável Pecadora, mas a candura projetada por Chérie e o desamparo estampado em cada gesto da Roslyn Taber de Os Desajustados marcaram sua imagem até o fim. Foi com essa persona – de mulher meiga, carente, desestabilizada emocionalmente – que a mídia a pranteou em agosto de 1962. Com a pieguice de sempre.

Na biografia que Norman Mailer escreveu, e que releio agora, ele a chamou de doce anjo do sexo. Mas sabemos que ela tinha mais que um corpo bonito, que uma sensualidade marcante. Tinha talento. Trabalhou com diretores de peso como Fritz Lang, Joseph L. Mankiewicz, Otto Preminger, Joshua Logan, duas vezes com John Huston, Billy Wilder e Howard Hawks.

Pois bem, assim passei o carnaval. Seduzido mais uma vez pelo olhar, a um só tempo sapeca e inocente, os lábios ligeiramente entreabertos, a voz sussurrante, a gestualidade dengosa, o movimento inimitável dos quadris de Marilyn. Tão bom que no ano que vem acho que repito a dose.

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