No coração de Curitiba

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Copa transpassará uma capital em transe entre ser modelo e vidraça

É como um Atletiba da infraestrutura.
De um lado temos os desalentados. Muito dinheiro público gasto sem eficiência. Legado irrisório. Falta de políticas locais de mobilidade urbana. Obras sem efetividade. Caos urbano. Ausência de práticas para capitalizar o turismo na cidade. Submissão grosseira a uma instituição privada – as cidades-sede precisaram assinar um acordo de alma unilateral para se adequar ao padrão Fifa. Integração inequívoca à avalanche de protestos que pode tomar conta do país durante a Copa. O trânsito. O curitibano. As capivaras.

De outro lado, Curitiba nos holofotes do mundo. A atual seleção campeã mundial concentrada no CT do Caju. A movimentação comercial. Um estádio no qual seu futuro usuário regular promete devolver o dinheiro utilizado ao erário. O polêmico Viaduto Estaiado da Avenida das Torres como novo chamariz turístico da cidade. Melhorias na Praça do Japão e no Jardim Botânico. As obras da Linha Verde Sul. O Corredor Aeroporto/Rodoferroviária. A efervescência turística. O curitibano. As capivaras.

 

Rês do chão

Algumas coisas podemos intuir disso tudo: Curitiba escapou de ser a primeira cidade-sede excluída de uma Copa e se transformará – para o bem e para o mal – em vitrine. Só para termos um pouco da dimensão disso tudo, os 142 mil estudantes da rede municipal estarão em recesso nos dias 16, 17, 18, 20, 23 e 26 de junho. Horários de bancos serão readequados. Teremos churrasco três da tarde de uma terça-feira qualquer.

São quatro jogos locais da primeira fase (16, 20, 23 e 26 de junho). No mínimo, receberemos torcedores das oito seleções que vão atuar no estádio Arena da Baixada (Espanha, Austrália, Rússia, Argélia, Nigéria, Irã, Honduras e Equador). O estrangeiro terá a oportunidade de conferir nossas oscilações térmicas, andar de pedalinho no Passeio Público e, de repente, se aventurar nos nossos melhores roteiros de Baixa Gastronomia.

Para cada dia de jogo, um tour de force envolvendo a ampliação da malha viária, bloqueio de quaisquer outras atividades esportivas e culturais que possam causar ‘transtorno’ e a famosa zona de exclusão, a peculiar e agressiva tomada da Fifa das imediações da Arena da Baixada no dia anterior aos jogos – até os moradores das redondezas terão acesso direcionado. É como se tivéssemos um interventor. E teremos: Man Gil Shil, coordenador-geral designado a Curitiba. A ele caberá a fiscalização e o cumprimento dos encargos da cidade-Fifa.

Os dados oficiais preveem que Curitiba receberá aproximadamente 600 mil turistas durante a Copa e sejam movimentados mais de 650 milhões de reais em turismo. O valor estimado do Pacote-Copa, a soma de todas as ações, chega a mais de 2,5 bilhões de reais. A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) prevê aumento de 240 milhões de reais no setor de alimentação no Estado. A Associação Comercial do Paraná (ACP) acredita que os quatro dias com jogos irão quase dobrar os 150 milhões diários gastos no comércio da cidade.
O setor turístico – a conjunção da estrutura de hotelaria, bares e restaurantes – receberá não apenas os torcedores envolvidos diretamente nos jogos da primeira fase. Segundo informações da Fifa sobre as chamadas e compra de ingressos, garantiram suas entradas para os jogos de Curitiba muitos norte-americanos, ingleses, colombianos, canadenses, alemães, além de mexicanos, chilenos, franceses e peruanos. E, inclusive, não podemos esquecer o curitibano, que pode ser bem capaz de sair às ruas centrais da capital para ver o movimento. Se tiver bom tempo, até conversar com os forasteiros – contanto que não queiram nos abraçar.

No que tange à demanda por ingressos, ficamos atrás apenas de São Paulo e do Rio de Janeiro, os dois maiores polos econômicos do país e, respectivamente, abertura e palco da final da Copa.

Que esta Copa de 2014 traga à nossa cidade algo de valioso que permaneça

Capacitação

Para receber turistas do mundo inteiro e capacitar comerciantes de setores diretamente envolvidos com a Copa foi criado o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec/Copa). O governo promove cursos gratuitos de 180 horas e formação básica sobre administração, planejamento, organização, cerimonial, turismo e alimentação.
Os cursos são ministrados pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac). Para se credenciar a uma das vagas é necessário ter idade mínima de 18 anos e morar em uma das 12 cidades-sede da Copa, ou no entorno, também conhecido como RMC (Região Metropolitana de Curitiba).

Além do Pronatec, foi idealizado um programa nacional de voluntário, sob a tutela do Ministério do Esporte. O Brasil Voluntário em Curitiba está sendo gerenciado pela Secretaria do Trabalho e Emprego da Prefeitura de Curitiba. Os participantes serão responsáveis pelo atendimento dos turistas, torcedores e imprensa não-cadastrada – a Fifa, como não podia deixar de ser, terá seu próprio batalhão especializado.

Podem participar maiores de 18 anos de idade, com disponibilidade para atuar por no mínimo sete dias seguidos ou intercalados (em turnos de 4 horas diárias) e em seis áreas: mobilidade urbana, proximidade dos estádios, aeroportos, áreas de grande fluxo de pessoas, eventos de exibição pública de jogos e centro aberto de mídia.

O candidato é ‘formado’ primeiramente pela Universidade de Brasília (UnB) e recebe – além de um bonito certificado, uniforme, transporte e comida – noções de etiqueta, afinal, não somos bárbaros, história primária do futebol – como o fatídico dia em que goleamos o Uruguai na final da Copa de 50 e relegamos aos nossos vizinhos cannabistas uma das maiores tragédias de sua história universal – e até primeiros socorros. A segunda etapa é presencial e feita em parceria com a UFPR. Em Curitiba a sede do Brasil Voluntário é o Solar dos Guimarães, o histórico casarão da Rua Mateus Leme.

 

Fantasmas

Todos esperamos, mesmo a contragosto, que Curitiba consiga exorcizar seus fantasmas estruturais e ser uma sede digna de uma cidade que se forja cosmopolita e de função vital no cenário nacional.

Em 1950, o Brasil sediou a Copa num cenário pós-Segunda Guerra Mundial, de uma Europa devastada e em reconstrução. Tivemos seis sedes. Curitiba fez do Estádio Durival de Britto Silva, a popular Vila Capanema, então campo do Clube Atlético Ferroviário, o seu estádio, considerado o terceiro mais moderno do país, 12 mil de capacidade, atrás apenas do Pacaembu e do Maracanã.

A cidade recebeu Estados Unidos x Espanha e Paraguai x Suécia. Segundo Cid Destefani, o juiz designado para a partida de um longínquo 25 de junho de 1950, domingo, entre os americanos e os espanhóis foi o brasileiro Mário Viana. Estavam na cidade 23 jornalistas espanhóis para fazer a cobertura do jogo. Acompanhavam o grupo da Espanha cinco dirigentes, além do médico e do técnico. O time americano veio com médico, técnico e 17 jogadores.

A Espanha jogou para nove mil almas e venceu os EUA por 3 a 1, num jogo de nível considerado, à época, sofrível – jovens muito jovens, apenas agora a Espanha merece algum respeito etimológico. Paraguai e Suécia empataram em 2 a 2, com público de oito mil corajosos. Em função da audiência abaixo da expectativa, o governo do Paraná teve que se virar em trezentos mil cruzeiros para completar o milhão de tostões exigido pela Fifa.
Enfim, que esta Copa de 2014 traga à nossa cidade, tão idiossincrática em sua essência, bons jogos, bonança comercial e, sobretudo, espírito crítico e fiscalização do dinheiro público envolvido. Que algo de valioso permaneça.

 

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