Prateleira. Ed. 149

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Philip Roth. Foto: Divulgação

Entre a razão e a paixão

Ângela Nosciti

A primeira pergunta que um leitor de Philip Roth faz a si mesmo diante de um livro do escritor norte-americano esbarra em sua genealogia: por que razão um escritor judeu criaria um alter ego para criticar o judaísmo e ao mesmo tempo afirmar sua identidade?

Parece um contrassenso, mas é justamente esse conflito interno que torna sua obra enigmática: Roth foge de tudo o que lhe atrai, da grande cidade à tradição religiosa. Saiu da cosmopolita Nova York para se refugiar em Connecticut, na Nova Inglaterra, região que tem tantas árvores como companhias de seguros. Finalmente, transferiu para o papel fantasias sexuais interditas por uma cultura que valoriza a solidariedade, mas vê com desconfiança a liberdade individual – tema, aliás, desenvolvido em seu ensaio Writing About Jews, de 1963, que explora temas já presentes no marco zero de sua carreira literária, Adeus, Columbus, de 1959.

No livro de estreia, uma coletânea de cinco historietas curtas, A Conversão dos Judeus aparece como uma carta literária de intenções. É um texto seminal que sintetiza a postura filosófica do escritor, empenhado em pular no abismo para descobrir seu mistério. Roth foi buscar num antigo poema metafísico do inglês Andrew Marvell (1621-1678) a inspiração para sua noveleta, que se passa nos anos 1950, década em que parte da comunidade judaica europeia sobrevivente do nazismo se fixou nos EUA.

Marvell, poeta e parlamentar do século 17, lutou pelos direitos individuais dos cidadãos ingleses – em benefício próprio, uma vez que a Inglaterra punia e continuou punindo a homossexualidade como crime até 1961. Seja como for, esse espírito libertário de Marvell o fez nadar contra a corrente. Numa época em que seu país punia com a morte o republicanismo, ele flertou com os revolucionários e o catolicismo, referindo-se, indiretamente, à conversão dos judeus antes do Juízo Final no poema To His Coy Mistress – embora seu verdadeiro tema seja o incontrolável desejo sexual, o que justifica a atração de Roth pelas stanzas da obra poética de Marvell. Jovem nos anos 1950, Roth testemunhou o esforço dos judeus europeus para assimilar valores da cultura americana sem perder a identidade – ou a virgindade.

Assim, seu primeiro alter ego não foi Zuckerman, como defendem os críticos, mas o adolescente Ozzie Freedman do conto, que ousa contestar um rabino e conclamar à conversão os judeus que frequentam sua sinagoga. De certo modo, é o que tem feito Roth em seus livros, não exatamente por fatores religiosos, mas pelo motivo que descobriu no poema de Marvell: se o sagrado não se encontra aqui, na união dos corpos que se amam, então não está em lugar nenhum. O pouco tempo que os seres humanos passam na Terra deve ser, portanto, melhor aproveitado, defende o secular Roth, para escândalo de uma cultura religiosa que, já desenraizada nos anos 1950 e “contaminada” pelo liberalismo americano, se desintegra nas páginas de seus livros a ponto de o próprio autor se confundir com seus personagens e acabar consumido por eles num banquete autofágico. Foi o que aconteceu com Nathan Zuckerman, protagonista de vários trabalhos de Roth, que viveu entre 1974 (My Life as a Man) e 2007, ano de publicação de Fantasma Sai de Cena, que supostamente deveria marcar sua última aparição.

Manoel Coelho

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Nasceu em Florianópolis e formou-se na primeira turma de arquitetura da Universidade Federal do Paraná, era jovem na década de 1960 e estava eufórico pelo momento que passava o Brasil, JK, Brasília, etc., etc. Foi estagiário no escritório de Jaime Lerner. Teve, como todo estudante de arquitetura da época, Oscar Niemeyer como referência, em entrevista lamentou: “Oscar Niemeyer foi à nossa escola dar uma palestra. Desenhou todos os projetos de Brasília na parede branca do auditório, com carvão. Todo mundo ficou eufórico. No dia seguinte, o pessoal da limpeza lavou as paredes e sumiram com os desenhos do Oscar.” Desde 1973 coordena a área de Planejamento Físico da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, desenvolveu o projeto de todas as instalações, o que também faz desde 1999 na Universidade Positivo. São 45 anos em atividade com seu próprio escritório e para comemorar isso fez um livro, um baita livro: Manoel Coelho Arquiteturadesign. Em mais de 350 páginas está a trajetória de Manoel Coelho, que se consagrou nos cenários da arquitetura e designer brasileiros. O livro mostra os projetos desenvolvidos por esse catarinense que Curitiba adotou, ou para ser mais justo, esse catarinense que adotou Curitiba. Foi editado pela Archimidia e conta com os textos de Irã Taborda Dudeque, Ethel Leon e Hugo Segawa. É um livro de peso: em quilos, sofisticação e qualidade.

Para ler em cores

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Para ler em cores: ensaios de interpretação racializada, é o título do livro de Maria Cândida Ferreira de Almeida, doutora em Estudos Literários pela UFMG. A obra é derivada de uma série de pesquisas realizadas entre 2002 e 2007, em Trinidad Tobago, Sevilha (Espanha) e num grupo de estudos da UFBA. Maria Cândida busca preencher “lacunas críticas, irmanar literaturas, artes visuais e comidas separadas por línguas e culturas tão próximas e tão distantes como o Brasil de língua portuguesa e o espanhol latino-americano”. A primeira edição é de novembro de 2011 e foi editada pela Intermeios. O resumo da ópera é um livro que reúne diversos artigos que dialogam com diferentes universos da literatura para tratar problemas raciais presentes em obras, sejam elas coloniais ou contemporâneas.

O riso do diabo

Nos últimos tempos, cinco baixas sem reposições à altura. Por ordem de saída de cena: o crítico de cinema Andrew Sarris, o jornalista Alexander Cockburn, o cineasta Chris Marker, o escritor e ensaísta Gore Vidal e o crítico de arte Robert Hughes. Não me lembro de estrago similar na cultura em tão curto espaço de tempo. A bruxa (ou seria o Diabo?) anda à solta.

Os três últimos mortos ao menos foram lembrados e devidamente exaltados nestas paragens, mas os dois primeiros nem à cova rasa de um simples registro fúnebre tiveram direito. Cockburn, vá lá, afinal não escrevia para publicações de grande tiragem, mexia com política e era desbragadamente de esquerda, um réprobo ideológico. Sarris, porém, não só lidava com um assunto bem mais popular como foi um dos mais agudos e influentes críticos americanos das últimas cinco ou seis décadas.

Ambos brilharam na mesma trincheira, o semanário alternativo The Village Voice, no auge de seu prestígio. Sarris, que morreu em 20 de junho de 2012, aos 83 anos, tinha uma cabeça europeia e foi cria espiritual da revista parisiense Cahiers du Cinéma, de onde importou a teoria do “cinema de autor”, seu mais lembrado cavalo de batalha e pomo de discórdia entre ele e concorrentes diretos (Pauline Kael, John Simon) e indiretos (Gore Vidal, entre outros).
O olhar privilegiado e a elegância da escrita, com notório penchant por aliterações, fizeram dele o continuador de uma tradição iniciada por Otis Ferguson e James Agee. Estreou no Voice em 1961, louvando A Aventura, de Antonioni (cuja opção pelo tédio mais tarde lhe inspiraria o neologismo “antonioniennui”), e em suas páginas pontificou durante 30 anos, até se transferir para o New York Observer.

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